mas você tem um rosto lindo.

Eu tinha uns cinco anos e estava na pré-escola. Naquele dia, havia lá dois danoninhos. Chegou a hora do recreio e lembro-me de a professora me dizer, na frente das outras crianças:

DOIS danoninhos? Não pode, Amanda. É por isso que você tá gordinha assim [sorrisinho amoroso].
de quando eu era julgada por causa de danoninhos (porém tinha estilo)

Fiquei com vergonha e senti culpa. Não me lembro se comi os dois daninhos (provavelmente sim), mas, naquele dia, o paladar de nada foi o mesmo de sempre.

Esta talvez tenha sido a primeira vez (ou a primeira lembrança que ficou) em que percebi que era diferente do resto do mundo. Ou que as pessoas ao meu redor se esforçariam sempre para acentuar que eu era diferente do resto do mundo. Hoje vejo: a sensação de inadequação que sinto à sociedade em que vivo começou cedo. Muito cedo, aliás.

NHAC!

Eu nasci pequena, mas me transformei num bebê gordo, segundo a minha mãe, com uns 3 meses. Fui uma criança gorda, uma adolescente gorda e hoje sou uma adulta gorda. Ser gorda é parte do que sou. Da minha identidade. De como me vejo e, sobretudo, de como me situo e me posiciono diante do mundo que me cerca. E é aí que mora o meu maior demônio e eu quero contá-lo pra todo mundo que ainda não se deu conta disso: que o mundo, meus amigos, não é amável com quem é gordo, isso já é notório e bem sabido. Porém nem sempre se ressalta uma obviedade que permeia a vida de todos nós, que pertencemos ao que se convenciona classificar como “gordx” (e aqui não incluo não apenas os dotados de IMC avantajado, mas toda e qualquer pessoa que por qualquer razão se sinta curvilínea ou roliça demais para se auto-inserir no padrão corporal que entende-se como “normal”) : nós não somos amáveis com a gente mesmo. Ou, sendo muito otimista e supondo um contexto em que tenhamos um gordo criado num mundo absolutamente livre da gordofobia (algo tão real quanto um ursinho carinhoso, vale dizer), em algum momento de nossa vida, fatalmente não seremos amáveis com a gente mesmo. Unicamente por sermos: gordos. Nós não somos amáveis com a gente mesmo porque não somos ensinados a nos amar. Por uma dureza que nos chega a ser gritante quando a consciência de quem somos nos embebe de realidade: somos treinados feito macacos de circo, desde muito cedo, a acreditar que não somos dignos tampouco merecedores do que pode haver de melhor ao alcance das nossas mãos. E isso, obviamente, se agrava quando somos mulheres e já nascemos, nas entrelinhas, pouquíssimo donas de nossos próprios corpos e com a obrigação latente de prestar contas deles desde muito cedo. Desde que levamos danoninho pro lanche do jardim de infância.

E esta crença terrível e tão torta é um convite ao erro em muitos setores da vida, mas ouso dizer que nas relações pessoais ela fica mais evidente. Quando crescemos achando que não somos merecedoras do melhor, estamos indubitavelmente aceitando e entrando (ainda que sem perceber, ou percebendo lá na frente, quando a gente vai fazer terapia) em relações doentes. Abusivas. Fracassadas. Relações que tendem gerar um padrão de repetição: a gente se acostuma a dar errado. Ao que é menos. Ao ruim. À mendicância emocional. A dizer pra gente um “mas é sempre assim mesmo” quando o cara de quem gostamos é ruim com a gente. Quando ele nos troca por outra mina, seja ela gorda, magra, feia, gastroplastizada, a razão será uma só: o problema é a gente. Quando ele simplesmente não nos quer: eu não sou boa o suficiente. Eu não sou gostosa o suficiente. Ser legal e inteligente não basta. Nós entramos num limbo muito escuro e profundo ao achar que jamais seremos boas pra ninguém. Pois, no fundo, não somos boas com a pessoa que mais deveria ser alvo do nosso amor: nós mesmas.

Estou com 30 anos e posso lhes garantir: todos os dias (TODOS. T O D O S os dias), olhar no espelho é, para mim, um exercício que cada vez mais tem sido algo que vai muito além da necessidade de ver minha imagem projetada para saber como arrumar minha franja ou passar direitinho o batom vermelho. Tenho 30 anos e ainda não incorporo o que vejo ali como um corpo igual ao de qualquer pessoa.

Aos 5, sofri o julgamento por causa dos dois danoninhos na lancheira; aos 7, tinha medo de escalar o brinquedo do parquinho e ficar entalada entre uma barra e outra.

Aos 10, tive o diagnóstico de hipotireoidismo e o Dr. disse que precisava emagrecer, pois quando me sentasse no colo do meu namorado iria machucá-lo. Ele me deu uma dieta de 800 calorias diárias (é bom lembrar que eu tinha DEZ anos).

10 anos e uma tentativa de ingerir 800 cal/dia (com meu irmão na foto)

Aos 13, tinha a Dra. em que, a cada retorno mensal no qual constatava uma perda pífia de peso, me dizia que estava com preguiça e precisava me esforçar mais pra ficar bonita.

Aos 14, frequentei um desses grupos de apoio que semanalmente me fazia subir na balança na frente de todo mundo e, como parte do método, me mandava escolher um corpo “que quisesse ter” em alguma revista e pregar a imagem na porta do meu guarda-roupa, de modo que me lembrasse daquilo sempre que olhasse pra lá e ela me servisse como incentivo. Estávamos por volta dos anos 2000 e o corpo que escolhi como meu exemplo foi o da Adriane Galisteu. Risos.

Tipo isso. risos.

Aos 16, teve o Dr. o que me passou a dose máxima permitida de anfetaminas (até então essas droguinhas eram permitidas com a devida prescrição no Brasil) e estava em pleno ano de vestibular. Ficava com um sanduíche natural no estômago praticamente o dia todo e, à noite, não conseguia dormir direito. Até hoje não sei como passei de ano e entrei na USP. Talvez porque eu justamente tenha pesado a mão no desenvolvimento do meu próprio intelecto pois, afinal de contas, eu não era a mina bonita que teria namorados e sairia todo sábado pra balada. Aliás, eu não saía pra balada. Não achava necessário me expor a uma dose extra de rejeição (de segunda a sexta já tava bom, né?) e preferia ficar em casa com meus livros.

Na formatura do Ensino Médio, ~magrinha~ e cheia de anfetamina nas ideia.

Não sei como isso foi se dando, mas sei que, demorada e elaboradamente eu fui remando contra a maré com o passar dos anos. Às vezes o tempo pode ser, ao mesmo tempo, duro quando a gente se entende diferente do restante, mas ele também pode ser nosso maior aliado. Muitas coisas foram ralentando até acontecerem de verdade na minha vida: demorei pra beijar na boca, pra transar, depois pra transar de luz acesa. Depois que transei de luz acesa, descobri o prazer de desfilar pelada pela casa. E vi (veja só!) que a gente até pode dormir nua também que ninguém se ofende.

Demorei pra vestir o que tinha vontade, mesmo vivendo numa sociedade na qual é difícil demais encontrar o que caiba em mim e que ainda caiba em mim e que TAMBÉM seja bonito. Mas ainda me puno quando vou vestir uma calça depois de um tempo e percebo que ela tá mais apertada do que normalmente estaria. Mas ainda acho que não deveria vestir aquela blusa pois ela é muito curta e minha barriga proeminente aparece quando levanto o braço.

Posando pra grife de uma amiga. Ela queria uma modelo plus e eu topei.

Demorei pra entender que, se um cara tá com a gente, não é porque a gente é gorda ou é magra ou sarada ou loira ou preta ou perneta. O cara tá com a gente porque a gente É. Ele poderia estar vendo o filme do Pelé, ou jogando PS3, ou lendo um livro, ou no RedTube, ou dormindo mas não: tá ali com a gente, e com tesão pelo que a gente é. É ridiculamente óbvio, mas como custa pra gente internalizar essa máxima. Mas ainda fico mal se gosto de alguém que não me quer porque é bem provável que ele tenha encontrado uma mina (na minha cabeça) mais magra e gata. Mas ainda sou capaz de ficar (muito) mal se ele também não me quer e tem uma ex-namorada linda, loira, gente boníssima e com metade do meu peso. Eu não atingi esse nível de redenção e nem sei se atingirei um dia, mas venho tentando melhorar minha autoimagem a duríssimas penas. Sou quase o Sísifo da minha própria subjetividade.

Minha saúde é ótima. Não tenho hipertensão, nem diabetes, nem colesterol nem triglicérides altos. Tenho um problema na lombar que, claro, se agrava pelo excesso de peso e uma sequela de uma fratura no joelho de quando era criança que me custa uma dor meio chata vez ou outra mas, volto a dizer: minha saúde é ótima. Adoro comer, sei como me alimentar direito e faço-o eximiamente quando estou emocionalmente sob controle. Nunca fui a gorda que come uma pizza inteira ou toma 2 litros de sorvete vendo televisão num sábado à noite. Não me lembro quando foi a última vez em que tive febre ou uma gripe forte. Amo me exercitar e o faço com regularidade. Hoje, eu não penso em cirurgia bariátrica. Se a vida piorar pro meu lado (leia-se: ter algum problema de saúde que comprovadamente me faça entender que terei bons anos a menos de vida do que alguém com IMC dentro da média), talvez faça, mesmo não curtindo a ideia de ser uma desnutrida crônica que vai ter que tomar suplementação pro resto da vida e ficar com os cabelos ralos. Ou então vou seguir como sou hoje: gorda. Uma gorda que corre, caminha, pedala, ama brócolis, rúcula e quinoa. Mas que também não dispensa uma cervejinha e um bom doce de leite. E bacon. Uma gorda que tem aprendido que ser gorda, sobretudo, não a torna menos: nem menos bonita, nem menos mulher, nem menos gostosa, nem menos inteligente, nem menos merecedora de sucesso profissional ou de um cara que a ame e que morra de tesão por ela.

e que se quiser mostrar a bunda vai mostrar sim.

Uma gorda que botou como meta que tem uma vida que sempre quis, uma família que a enche de amor, que mora num apartamento delicioso, que trabalha no que gosta, que tem amigos incríveis e que, definitivamente, ser gorda não pode ser razão pra deixar de dar menos valor pra nenhuma dessas coisas.

Uma gorda que tem aprendido a ser. Ainda que gorda.

Talvez eu seja uma gorda que tenha uma filha e que a crie, seja ela gorda ou magra, preta ou branca, para que ela seja feliz e que seja confortável com o corpo que chegar a este mundo. Porque o importante, no final das contas, é irremediavelmente: ser.