Sobre livros: jan-mar

Hoje à tarde eu estava no ônibus realizando o meu trajeto semanal de São Carlos para São Paulo e lendo "The Boy Who Could Change the World: The Writings of Aaron Swartz". Nele, eu vi um jovem que não só consumia muito conhecimento, mas que também queria muito compartilhar o que aprendia e o que questionava a si mesmo. A ideia ficou na minha cabeça e eu resolvi recomeçar a experiência de escrever. Essa é uma tentativa de me colocar no mundo através das palavras.

No começo do ano eu resolvi que iria ler 24 livros em 2016. Você pode estar pensando que livros não devem ser contados, que a qualidade é mais importante que a quantidade. Concordo, mas ao mesmo tempo eu queria um desafio pessoal e queria estimular esse hábito. Pois bem, agora o desafio aumentou. Eu quero escrever sobre os 24 livros de 2016. Nesse texto eu falarei um pouco sobre os 7 primeiros. Não coloco expectativas altas, meu objetivo é dizer um pouco sobre o impacto desses livros em mim.

1. Uma breve história do Tempo

“We see the universe the way it is because we exist”

Um livro brilhante. Não só por aproximar conceitos científicos complexos de alguém curioso por saber o que se passa no Cosmos, mas também por colocar o leitor em uma posição de constante questionamento. Esse "perguntar" se dá na relação entre as teorias científicas e as implicações nas crenças da humanidade. As teorias científicas são resultado de uma natureza intrínseca de questionamento da nossa espécie.

A diferença dessas teorias e de todas as explicações mitológicas que se passam em diferentes sociedades, se dá no caráter matemático da primeira. Toda teoria científica já foi ou ainda não foi provada errada. Esse conceito é importantíssimo pois sugere duas coisas:

  1. Iteração. Para se chegar numa verdade é preciso sempre estar num processo de questionamento e de validação das nossas hipóteses. Isso significa que a qualquer momento pode surgir uma situação que colocará nossa teoria por água abaixo;

2. Construção. As teorias são construídas em cima de outras teorias. Isso mostra que estamos sempre nos baseando em "verdades passadas" para construir as "verdades do agora". Muitas vezes essas "verdades do agora" se dão graças a "verdades do passado" que no agora se tornaram "mentiras do passado". Apesar de toda essa confusão de termos, o que temos é um extenso link entre pensadores que tentam, desde o primeiro lapso de consciência científica do ser humano, explicar o que percebemos (essa percepção também muda ao longo do tempo pois, graças a tecnologia, podemos sentir, ver, ouvir, experimentar o que antes não era possível).

Concluo essa breve reflexão sobre o livro com uma citação do mesmo para que o leitor possa sentir um pouco dos vários questionamentos que Hawking nos traz:

“The idea that space and time may form a closed surface without boundary also has profound implications for the role of God in the affair of the universe. With the success of scientific theories in describing events, most people have come to believe that God allows the universe to evolve according to a set of laws and doest not intervene in the universe to break these laws. However, the laws do not tell us what the universe should have looked like when it started — it would still be up to God to wind up the clockwork and choose how to start it off. So long as the universe had a beginning, we could suppose it had a creator. But if the universe is really completely self-contained, having no boundary or edge, it would have neither beginning nor end? it would simply be. What place, then, for a creator?"

2. Siddhartha

Um livro que merece ser relido. Me ensinou muito. Quando penso no livro, me vem a ideia de calma. Mas não a calma do nada, mas sim a calma do constante, do fluxo. A calma de um rio que passa e que sabe que vai continuar passando. Sabe que as mudanças continuarão vindo e indo, mas que no final o que é importa é o constante trânsito. É o ir e o vir. Assim como nossos pensamentos que às vezes se tornam agitados, o rio irá ter seus momentos de confusão, porém no final o que fica é o constante. Meditação é sobre encontrar esse rio em nossa consciência. É sobre ser o rio e contemplar o rio. É sobre aceitar e construir o rio. A consciência não é um vazio cheio de nebulosas nuvens de pensamento que batem entre si. A consciência são as nuvens, a consciência é o espaço, é o tempo, é o juiz das nossas ações. A consciência possui um ritmo e esse ritmo está relacionado com nossa sabedoria em relação ao mundo. Somos gratos por nossa existência? Pensamos no real significado de existir? Não apenas de existir, mas de ter consciência de que se existe.

It is good, he thought, to experience directly for oneself what one has to understand

3. O sinal e o ruído

Nate Silver nos traz um livro fantástico. Em um contexto onde as pessoas se esforçam tanto para se separarem do ruído de informação existente, o que sobra são gurus utilizando métodos não confiáveis para prever o imprevisível. O rigor matemático é deixado de lado em detrimento do grito mais alto, da previsão que trará mais visibilidade, do esforço do ego de se manter constante.

No livro, Nate fala desde previsões relacionadas a eventos sísmicos, passando por jogos de baseball, até como saber (com um grau de incerteza obviamente) quais os próximos senadores dos EUA. Um livro muito inteligente.


4. A arte de conhecer a si mesmo

Esse livro reune alguns textos de Schopenhauer sobre sua vida e seus pensamentos ao longo de seu desenvolvimento filosófico/intelectual. Não é um livro excelente e agora, ao me recordar dele, não consigo extrair algo que tenha realmente ficado em mim. Talvez o mais interessante é o senso de certeza de Schopenhauer em relação ao seu dever na vida e como ele resulta em uma solidão, que ao mesmo tempo é libertadora e angustiante.


5. No que acredito

Acho que não estava pronto para ler esse livro, ou então não fui com abertura suficiente pois ele não me impactou muito. Porém uma citação ficou comigo:

"A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento"

6. Tempo de despertar

Oliver Sacks é maravilhoso! Ele possui um carisma intelectual, uma paixão pelo que fala e, além disso, uma qualidade em sua escrita que são insuperáveis. O livro apenas reflete a qualidade do autor. Tempo de despertar traz reflexões essenciais ao leitor. O que é viver? Será que viver, do ponto de vista humano, se resume apenas ao breve ato de respirar? De oxigenar nossas células?

Estar na posição de Leonard, o personagem principal da real história contada no livro, me trouxe calafrios e ao mesmo tempo um senso de urgência tremendo. Será que amanhã eu poderei acordar paralisado? Caso aconteça, estarei eu feliz com que fiz até aqui nessa vida? Muitas perguntas, poucas respostas.

Não existe uma única coisa viva que não seja individual: nossa saúde é nossa, nossas doenças são nossas, nossas reações são nossas — tanto quanto nossas mentes ou rostos. A saúde, as doenças e as reações que temos não podem ser compreendidas in vitro, em si mesmas; só podem ser entendidas com referência a nós, como expressões de nossa natureza, de nossa existência, de nosso "estar aqui" (dasein) no mundo.

7. Dataclisma

Até aqui a psicologia e a sociologia se resumiram em parte a estudos qualitativos de pequenas quantidades de indivíduos ou estudos quantitativos de movimentos e acontecimentos históricos que afetaram uma grande quantidade de indivíduos, porém sem dados específicos desses últimos. Em relação a grande ou pequena quantidade, estou dizendo na casa de milhares e milhões para a primeira e dezenas e centenas para a segundas.

O que Dataclisma nos mostra é que agora podemos realizar estudos qualitativos sobre uma grande quantidade de indivíduos, isto é, possuímos tantos dados sobre eles, que a análise ganha inúmeras possibilidades (em relação a escopo, abordagem, hipóteses etc). O que isso resulta? No presente momento em empresas que ganham bilhões em cima desses dados. Em um futuro próximo, que poderemos mudar drasticamente a forma como tudo que produzimos funciona e entender ainda mais a complexidade humana.

Esse potencial evolui exponencialmente graças aos dados longitudinais que serão possíveis logo. Considerando que crianças que nasceram em 2000 já estão com 16 anos e que elas geram dados desde muito cedo, poderemos ter um mapa estatístico de toda uma geração nos próximos anos. Vamos torcer para que usemos isso para o bem.


Ler é preciso. Vejo que os livros são uma válvula de escape para minha curiosidade, sem eles eu seria como um desesperado que vaga pelo deserto em busca de água. Escrever ainda é um esforço demasiado, porém tenho consciência que aquele mesmo desesperado pode estar com fome, e a escrita poderá ser o meu pão com o tempo.