Sobre livros: abr-jun

Seguindo com meu processo de criação, agora eu reflito e refrato (Refrações do pensamento) sobre mais 6 livros desse ano. Eles são:

  1. Demian // Herman Hesse
  2. Vygotsky // Marta Kohl
  3. Alucinações musicais // Oliver Sacks
  4. Pedagogia do Oprimido // Paulo Freire
  5. Cem dias entre céu e mar // Amyr Klink
  6. Datura // Leena Krohn

1. Demian

Demian é um romance sutilmente autobiográfico de 1919 que traz a história de um jovem e sua busca “para apenas tentar viver aquilo que brota espontaneamente nele.” A obra influenciou toda uma geração devido ao contexto social alemão pós primeira guerra, que demandava por ideais. No entanto essa análise não cabe a mim. Estou aqui para falar dos diálogos que ocorreram entre livro e eu.

No primeiro capítulo, Hesse descreve uma situação de sua infância de forma cristalina e consciente. Na cena, um Demian ainda criança passa por uma situação de chantagem, em que toda a pureza associada à infantilidade é confrontada com sentimentos angustiantes de medo e aversão. A beleza do capítulo reside no respeito que Hesse tem pelos sentimentos daquele jovem. No geral, em nossa sociedade, as crianças são tratadas como quase-adultos: um rascunho que vai se tornar um alguém. Essa forma de pensar é contraditória, pois o ser humano, quando adulto, ainda possui um caráter de constante construção, almejando ser um alguém-ideal.

A situação em si não é importante, mas sim a maneira que o autor transporta todo o sentimento da criança para o texto. Isso me fez pensar na importância do artista para a humanidade. É ele quem consegue concretizar o amor, o ódio, a angústia, a esperança, tudo aquilo que nos faz seres humanos. A arte é o ápice da humanidade.

Os demais capítulos são angustiantes: Demian não para de divagar e procurar algum sentido ou algum fim para sua existência. Esse fim não diz respeito à morte, mas a uma direção ou caminho. Ele é extremamente solitário e isso lhe traz liberdade e tristeza. Ora, quem não está sozinho nesse mundo? Tudo que faço é sozinho, desde o bravo ato de nascer até o egoísta ato de morrer. No caminho da vida encontramos outras solidões para compartilharmos algo, mas no fim é o "eu" quem sofre e ama. Um belo livro.

2. Vygotsky

Esse ano comecei a trabalhar no Instituto Ayrton Senna. Isso gerou inúmeras mudanças em minha vida e, entre elas, surgiu uma avidez por aprender mais sobre educação. Pedi a uma pessoa lá dentro que me guiasse por esse caminho. O primeiro livro que ela me emprestou foi "Vygotsky — Aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico", da Marta Kohl de Oliveira. Ele fala um pouquinho sobre o trabalho desenvolvido por esse teórico, educador, psicólogo, cientista russo do começo do século 20. É um livro fenomenal.

Eu destaco aqui dois conceitos que me interessaram. O primeiro é sobre a relação do homem com o mundo não ser direta, mas sim mediada. Essa mediação pode se dar através de um instrumento, que nada mais é do que um elemento externo ao indivíduo. Um exemplo desse instrumento, na época das cavernas, é a lança que era usada para caçar outros animais. Hoje é o smartphone. O interessante é que apesar do instrumento ser externo ao indivíduo fisicamente, pode haver uma conexão que une os dois, tornando o instrumento uma parte do indivíduo. Isto se deve ao Princípio da plasticidade, que no livro "Muito além do nosso eu" de Miguel Nicolelis, é descrito como:

"A representação do mundo criada por populações de neurônios corticais não é fixa, mas permanece em fluxo, ao longo de toda a vida, continuamente adaptando-se em função de novas experiências e aprendizado, novos modelos de eu, novas estimulações vindas do mundo vindas do mundo exterior e novas incorporações de ferramentas artificiais."

Isto significa que meu senso de eu não abrange apenas a parte mais externa da minha pele. As minhas roupas, os meus amigos, os lugares que eu frequento, tudo isso faz parte da minha construção neural de eu. Vygotsky diz que os instrumentos ampliam as possibilidades de transformação da natureza. Eu creio que eles também ampliam a possibilidade de transformação do eu.

O segundo conceito diz respeito à linguagem ser um signo, "que simplifica o mundo da experiência vivida para que possa ser transmitida a outros indivíduos". Um signo pode ser definido como um elemento que representa ou expressa outros objetos, eventos ou situações. Exemplo: a palavra mesa representa o objeto mesa. Dessa forma, o que acontece na mente do indivíduo não pode ser transmitido de maneira plena para outro, o que nos torna únicos. Da mesma maneira, a linguagem e tudo que dela se originou passam a ser desesperadas maneiras de unir nossas singularidades individuais em uma orquestra social que nos dê um sentido coletivo.

Vygotsky merece ser estudado!

3. Alucinações musicais

Oliver Sacks é maravilhoso. Uma citação pode resumir esse belo livro:

"A música é parte do homem, e não existe cultura humana na qual ela não seja altamente desenvolvida e valorizada. Sua própria ubiquidade pode banalizá-la no cotidiano: ligamos e desligamos o rádio, cantarolamos uma melodia, acompanhamos o ritmo com o pé, vasculhamos nossa mente procurando a letra de uma velha canção e não damos a menor importância a tudo isso. Mas para quem está perdido na demência, a situação é diferente. A música não é um luxo para essas pessoas, é uma necessidade, e pode ter um poder superior a qualquer outra coisa para devolvê-las a si mesmas, e aos outros, pelo menos por algum tempo."

4. Pedagogia do Oprimido

Esse é o segundo livro do meu caminho para conhecer um pouco mais sobre educação. Paulo Freire é um gênio. Há livros que nos mudam ou nos iluminam completamente. Esse é o caso de “pedagogia do oprimido”. Nunca havia me deparado com uma análise que fizesse tanto sentido do que acontece em nossa sociedade. Um livro sobre educação, sobre política, sobre psicologia, sobre o ser humano.

Todo o caráter social da educação, como um meio para que o ser humano se torne sujeito é lembrado aqui. Por mais que professores e escolas insistam em se esquecer do propósito maior da educação, Paulo Freire o traz de maneira atemporal nesse livro. Qual o sentido das palavras se não o de permitir que o/a indivíduo possa escrever sua própria história? possa se inserir no mundo como agente de mudanças? como um/a transformador/a?

"Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida como autor e como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se."

Lembro-me da minha avó, que ia para a escola quando eu tinha uns 5 anos, para aprender a ler e escrever. Veja, ela já tinha sua vida, já tinha sua família, mas mesmo assim ela estava lá, querendo fazer parte do mundo da “cultura”, como é dito no livro “as quarenta horas de angico” de Carlos Lyra. Só de entender tal situação de uma forma mais clara agora, anos depois, eu já posso agradecer a Paulo pelo trabalho.

A práxis de Freire é o rio de Herman Hesse em “Siddhartha”. É o constante ir e vir, teoria e prática, livros e sala de aula. O dialogismo é o ápice do desenvolvimento do conhecimento. Um lugar — físico, conceitual, prático, situacional — onde quem ensina e quem aprende se fundem em um infinito jogo educacional. Onde o professor se torna aluno e o aluno se torna professor. Muito utópico? Não, a concepção hierárquica e bancária da educação é que é muito desumana! Para aqueles que se sentem inquietos com uma desigualdade que se desdobra por todo o corpo da humanidade.

5. Cem dias entre céu e mar

“Era o medo de nunca partir. Sem dúvida, este foi o maior risco que corri: não partir.”

Amyr Klink resolveu que iria, sozinho, da costa da África até a costa brasileira, remando em um barco chamado Rosa. Parece assustador? Sim, mas também parece fascinante.

Estar sozinho, com seus medos e aflições, apreciando a natureza por tanto tempo é no mínimo incrível. Esse livro me veio em uma época de “multitasking”, de pressa, de um vai-e-vem interminável de ideias e pessoas que a cidade de São Paulo proporciona. E aí Amyr me disse, através de seu livro:

"Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso antes de mais nada, querer."

Há uma parte de mim que quer correr e conquistar o mundo, há outra no entanto que admira profundamente o que Amyr representa nesse livro. Esse fluxo constante e respeitoso, essa serenidade que o mar ensina, são essenciais para uma vida totalmente plena. A paciência em tempos de intensas e numerosas notificações, é não só bem-vinda, mas necessária.

6. Datura

Eu ganhei esse livro no meu aniversário de 2015. Quem me presenteou foi alguém muito importante na minha vida, e que hoje não faz mais parte dela tão ativamente.

Parece que cada frase foi escrita por essa pessoa. A personagem principal parece ser ela. As situações do livro se movem na velocidade dela.

"This is what I think I've learned: reality is nothing more than a working hypothesis. It is an an agreement that we don't realize we've made. It's a delusion we all see. Yet it's a shared, necessary illusion, the end product of our intelligence, imagination, and senses, the basis of our health and ability to function, our truth."

Escrever me faz querer reler os livros e criar novas conexões entre eles. O próximo passo para meu amadurecimento de escrita é começar a registrar minhas percepções durante a leitura e não só ao encerrar cada livro. Encerro esse post com uma citação que fez muito sentido para mim recentemente:

"Não seja escravo do seu passado. Mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe, e voltarás com respeito por si mesmo, com um novo rigor, com uma experiência a mais que explicará e superará a anterior." Ralph Waldo Emerson