A estrada do sacramento

Uma jornada tragicômica-espiritual pelas veias abertas da América Latina

E m janeiro de 2017, parti em um périplo o qual já havia previamente decidido de que seria meu batismo como latino-americano. Eu já havia me enfiado em outras tantas viagens por Uruguai e Argentina, entre pampas e capitais. Mas jamais havia subido pela espinha dorsal do continente: os Andes.

Brasil-Argentina-Chile-Peru. Novo Hamburgo, Salta, San Salvador de Jujuy, San Pedro de Atacama, Tacna, Puno, Cusco, Arica. Eis alguns lugares que tornaram-se um tanto quanto emblemáticos nessa jornada. Ou diria um rito de passagem.
 
Joguei um livro na mala antes de sair. Não poderia deixar de levar uma cópia física da inspiração.

Em ‘As Veias Abertas da América Latina’, escrito em 1971, Eduardo Galeano disse que o continente em que nasci especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta.

Não saia de casa sem estar acompanhado da palavra do Senhor (não disse qual)

De fato, somos o continente das veias abertas. Do descobrimento aos nossos dias, de Colombo a Trump, tudo sempre se transformou em geração de riqueza ao europeu e norte-americano.

Mas mesmo diante de tanta destruição de civilizações ancestrais, imposição religiosa católica e respectivo fim de cultos sagrados, miséria e espoliação, a submissão não dialoga com o latino-americano. Durante 15 dias, vi que resistimos (ou não nos recusamos a esmorecer). Com força de trabalho, fé e beleza.

Em quase 8 mil quilômetros rodados, pude atestar que o sangue que corre em nós, o mesmo de Túpac Amaru, é foda.
 
No texto a seguir, estão alguns relatos aleatórios registrados durante a viagem.
 
LIFE ON MARS?
 
Se há um lugar no mundo em que a beleza terrena dialoga com as condições extremas do lar dos marcianos, é a região entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico.

Tutorial para fritar ovos no asfalto

Há uma beleza sádica no Deserto do Atacama que talvez possa ser compreendida na quase ausência de vida naquele que é o lugar mais seco do mundo. A atmosfera inóspita de areia, montanhas, pedras e escassa vegetação e fauna faz de tal microuniverso um lugar cruelmente imaculado. Como se a existência de qualquer frágil organismo vivo conflitasse as rigorosas leis naturais locais, que punem com a morte os mais fracos em defesa de sua plenitude.

No deserto, a propósito, os fracos não têm vez.

Menos eu, a exceção à regra dos fracos, que atravessei o deserto confortavelmente hidratado de chá de coca e fofo sentado na poltrona dum bus

Uma cerveja no inferno
 
Parte da travessia do Atacama rolou durante uma madrugada chuvosa. O mau tempo não permitia que eu enxergasse o veneno noturno do deserto através do vidro embaçado. Embora curioso pela atmosfera além-breu, mastiguei um Dramin pra ver se apagava naquela torturante poltrona 29. Funcionou.

Acordei pelas 2h com uma chamada geral pra parada de alimentação. Arregalei os olhos. “Mas em que porra de lugar vamos comer no meio do nada?”, pensei. Descemos e a orientação foi:

— Desçam a rua até a luz — falou em tom profético o motorista.

Pela via de miserável iluminação, caminhavam estranhos vultos com lanternas. A luz de tal “farol” parecia distante. Seguimos.

Avistei, cerca de 500 metros depois, algo que se assemelhava a um povoado. O primeiro prédio que vi foi algo que assimilei como de segurança pública. “Carabineros”, informava a fachada.

Uma quadra depois, uma das grandes surpresas da minha vida. Uma rua apinhada de bares em históricas construções coloniais de arquitetura espanhola. Em frente a cada um deles, grupos de jovens claramente cagados de borrachos.
 
 — Caralho. É um sonho — murmurei.

Subimos a rua e ouvi os riffs de ‘Voodoo Chile’ do Hendrix gritando por uma janela afora. Enfiei a cara lá. A banda parecia uma versão surreal de Tito & Tarantula que deixava o pub (cheio) alucinado e, eu, apesar de tanto barulho, não conseguia me desprender da “sóbria ideia inconsciente” de que era um sonho.

Mas nos sonhos cervejas não custam caro.

Por mil pesos chilenos abri a primeira Crystal e continuei a rodar pelo povoado. Inclusive me perdi do grupo, que estava focado em comer. De minha parte, queria fazer a vida por ali mesmo.

Rodei de bar em bar até encontrar uma venda em que a ceva custava 600 pesos. Ali comecei a sacar uma certa má vontade dos populares em me atender. Mais tarde sacaria que era um pouco de xenofobia.

Fui chutado de outros três bares antes de reencontrar o grupo. Antes disso encontrei uma mina conterrânea de Santa Maria da Boca do Monte — completamente alta — se virando num espanhol à Wanderley Luxemburgo pra comprar bebida. Ela havia se desgarrado de uma excursão barrada em Jujuy por causa da chuva e seguiu por conta. Uma espécie de “vagabundo iluminado” versão empoderada. Compartilhamos uns goles e histórias e ela sumiu numa ruela escura com seu chico magia.

Esta imagem abaixo — que parece saída dum filme do Robert Rodriguez — registrada sem eu me dar conta por uma amiga — foi feita diante da Iglesia de San Pedro, erguida no século XVI. E o tal povoado, na real, é a comuna de San Pedro de Atacama (população de 2 mil viventes), encravada no coração do deserto.

Só soube disso no dia seguinte após pesquisa no Google.

Tem noites na vida que a tal mítica porra da “magia” simplesmente… Acontece.

A film by Robert Rodriguez

AS CRIANÇAS DO TITICACA
 
O Dino é um piá como qualquer outro de sua idade — aproximadamente três anos. Ele fala de um jeitinho amável, brinca, corre (pra caralho!) e interage com o carente mundo adulto com aquelas mise-en-scènes fofas que deixam geral querendo afofá-lo até o Brasil melhorar.

Há algumas tantas diferenças, no entanto, que fazem do Dino um molequinho que rigorosamente nada tem a ver com os garotos da sua geração.

Entre as principais, ele é um dos uros, e vive com os pais em uma das ilhas artificiais no lago Titicaca, em Puno, no Peru, em meio às águas navegáveis mais altas do planeta (4 mil metros acima do mar).

Ele ocupa uma pequena propriedade que flutua sobre junco. Lá sua subsistência é garantida pela pesca do peixe-rei, da caça e dos trabalhos manuais feitos pela família a partir do mesmo material que ergue o seu lar.

Aos turistas que desembolsam para um passeio (com lancha, guia e o kct a 4) rumo a tal pitoresca sociedade andina, Dino cumpre profissionalmente seu papel de criança fofinha. Ele corre para abraçar aleatória e carinhosamente pessoas as quais nunca viu e jamais irá rever. Feito isso, sai em disparada (que frequentemente resulta em tropeços e tombos nas palhas) às gargalhadas.

O eterno conflito de gerações ou “sai pra lá, 9vinha!”

O sucesso entre os adultos é tanto que nem a mais vil alma (como eu, no caso) se recusa a adquirir algum “regalito” artístico feito por seus pais (ou talvez por outras pessoas responsáveis pela produção em massa de manifestações culturais legítimas).

Fui também um rosto estranho e esquecível que recebeu o abraço do Dino e não perdeu a chance pruma selfie.

Pikachico

Mas eu não esquecerei desse dia, chico. Nem de ti. Nem da tua gente.

E em meio ao trabalho, as crianças até encontram um tempo para brincar e sorrir

BALAIÃO ÉTNICO A CÉU ABERTO
 
À primeira vista, peruanos pelas ruas de Cusco ou nos sítios arqueológicos em trajes típicos são a representação da cultura quechua em sua essência.

Mas o que nem todo mundo vê por baixo dos ponchos feitos em lã de lhama ou alpaca — animais geralmente a tiracolo — é a triste prostituição étnica de um dos povos mais emblemáticos da América Latina.

Os nativos espalham-se com animais e crianças oferecendo a possibilidade de um cartão postal exclusivo, cobrando, em troca de uma selfie ou retrato, a famigerada “propina”.

Cultura agonizando em praça pública por conta da subsistência, decadência urbana ou apenas “hospitalidade com contrapartida”?

Não sei. Mas o peruano, como o brasileiro, claramente não vive bem com seu salário de 850 soles (em média, um sole vale 0,95 reais). Embora bela aos olhos e corações dos gringos, a mendicância travestida de cultura não encheu os olhos do chato CEO deste perfil.

A foto abaixo é meu único registro quechua “não roubado” (custou 7 soles). Não me senti a vontade em alimentar o sistema de mendicância cultural em Cusco, embora plenamente compreensível como subsistência. É foda ver um povo que tem até a língua nativa andina discriminada andando às margens da vida urbana, como fosse parte privilegiada do folclore local. Não são. E os olhos acuados atestam.

Sorriam! Vocês estão no Facebook

LA BASE VEM FUERTE

Os moleques moralizadores aí são peladeiros das ruas de Cusco. Querem nem saber de Neymar, europeus Nutella ou dos perebas locais Real Garcilaso e dos segundinos do Cienciano. O negócio deles é Alianza Lima e meter gol numa goleira de pedra improvisada contra as paredes do Mercado de San Pedro.

Perú campeón ya es una realidad!

PARA OS ANDES E AVANTE!

Os incas tinham o costume de soprar três folhas de coca em direção aos quatro cantos do mundo antes de subir uma montanha. O motivo? Além da simbologia peruana — Deus, como essa gente gosta de representações místicas! — , a reverência se valia de máximo respeito e c* apertado diante de tal titã da natureza.

Essa galera sabe o que respeito a um titã natural quer dizer

Como um ancestral andino cagado, arrisquei o meu subindo a montanha Winikunka (altitude de 5,2 mil metros), também conhecida como Cerro Colorado ou Rainbow Mountain, que fica no distrito de Pitumarca (longe pra caralho de Cusco). Para chegar ao cume são 7 quilômetros de trilha (2 km de subida) em meio ao tresloucado clima peruano, que pode incluir no mesmo dia frio e calor intensos/sol e chuva.

A quebrada dos pampachiris
Um balão de oxigênio e um cigarro, por gentileza

No caso deste dia… bem, teve de tudo. Inclusive neve — que começou a cair forte logo que fitei a Cordilheira dos Andes pela primeira vez de perto. Foram quase quatro horas para subir e pouco menos de três para voltar. Nada mal prum pré-coroa judiado e sedentário. CHUPA, JUVENTUDE FIT!

Antes de morrer, sorria

“El mundo es como eres”

Agora, um relato que desconstrói uma vida de total descrença ao culto ao sobrenatural (a forma como me refiro à religião). Um dia antes de subir os Andes, fiquei um tanto quanto impressionado com uma das principais simbologias incas: a Chacana.
 
A cruz andina, como também é conhecida, de modo bem superficial representa os três mundos espirituais: 
 
Hanaqpacha: o superior mundo dos espíritos, representado pelo condor 
Kaypach: a face da terra, onde vivemos. Representada pelo puma 
Ukhupacha: o “underground” para onde vão os que já bateram as botas, representada pela serpente

É, eu também entendi chonga nenhuma

E o círculo central?
 
 — É o vazio do conhecimento — explicou o guia em meio a um sítio arqueológico. 
 
Aquilo me pareceu de uma filosofia filhadaputamente sofisticada e me acertou em cheio. Como bom turista que soy, adquiri um colar. E fiquei a matutar sobre na volta ao hotel. Inclusive fiz pesquisas no oráculo pós-moderno da civilização webniana: o Google.
 
Corta para a montanha. Cá estou sofrendo com meu primeiro “soroche” (ou, como Galvão Bueno costuma fazer referência em transmissões de jogos da Libertadores, a mítica “altitude”). Penso se vou aguentar o tranco enquanto vejo uma senhora quéchua, calçando apenas sapatilhas, a puxar a todo gás um cavalo com um turista batendo frenéticas selfies sob o lobo do pobre equino Andes acima.

“Falta muito?”

Penso nos condores que testemunharam (literalmente cagando e voando) a história do alto do teto da América do Sul, colorido naquele dia por tons de cinza de um dia chuvoso e frio. Quase perdendo os sentidos, mas ainda tomado pela adrenalina de alcançar o cume, me sinto oscilar entre os três mundos espirituais, como fosse uma criatura dos céus, da terra e do subterrâneo. Mas, ao mesmo tempo, como um bom rapaz que não costuma fazer concessões a seus ranços, fui relutante naquele momento em assumir que vivia minha primeira experiência espiritual. Mas podia ser só a pira da falta de oxigenação no cérebro mesmo.

O dia em que fui condor, puma e serpente (risos)

Tempos depois, assistindo a uma entrevista de David Lynch, ele driblava a uma pergunta que questionava sobre o significado de suas obras surreais no cinema (que têm a sua assinatura clássica da estética do sonho) sugerindo que cada cabeça decidisse sobre sua própria sentença:
 
 — The world is as you are.
 
Saquei que o mundo poderia ser construído ao meu bel prazer e que para dar significância às coisas… bastava eu querer moldá-lo de acordo ao que sinto. E é assim que as coisas são para mim atualmente. Posso eu estar em casa ao nível do mar ou além do que julga minha vã filosofia.

Posso até ser uma criança das montanhas, se quiser