CAC FEELINGS

Como João e alguns alunos de arquitetura da UFPE percebem o Centro em que estudam

Estava quase terminando a minha roda de conversa com teor apurativo ainda sem saber muito bem sobre o quê escrever quando João começou o seu relato apaixonado. Perguntei de várias formas como os alunos de arquitetura da Universidade Federal enxergavam o Centro de Artes e Comunicação (CAC), como era o convívio com os alunos de outros cursos, entre si, os problemas, etc. Contudo, aquele relato foi o que me encheu os olhos e fez minha mão coçar por um lápis. João percebia o CAC como um apaixonado pela arquitetura.

Aluno do quarto período, João Ribeiro conseguiu um estágio já no primeiro semestre de arquitetura graças à sua formação prévia em Edificações, no Instituto Federal de Pernambuco. Acostumado a lidar com construções extremamente viáveis e práticas por conta dessa formação anterior, ele e outros colegas contaram que nesse curso os alunos são incentivados a experimentar e criar prédios inspiradores, mas sempre pensando no entorno.

“Você chega pra um aluno de arquitetura da UFPE e diz pra ele construir uma praça. A primeira pergunta que ele vai fazer de volta é ‘onde?’, porque a formação da gente é muito urbanística. A gente passa um ano trabalhando com um mesmo local, estudando o censo, as características próprias de cada ambiente, tudo. Num bairro que tem muito idoso, você não vai colocar um playground, por exemplo, e a gente é sempre ensinado a pensar nisso.” E ele pega o Centro de exemplo:

-O CAC é o quê?

-Centro de Artes e Comunicação — respondo.

-Pois é, e ele foi construído pensando nesse conceito.

É assim que ele começa seu relato. A partir de então puxa um ritmo que não me permite transcrever suas palavras exatas, e me transfere a árdua tarefa de manter o seu teor. João me aponta uma pequena área logo atrás de nós, no primeiro andar, e que podemos ver facilmente da sacada do corredor de arquitetura, que é acima dele. “Ali era para ser uma área de convivência, mas a reforma que fizeram barrou o acesso”. O fato de podermos ver aquele ambiente dali mostrava o conceito de comunicação em prática, conforme as ideias do arquiteto. Daquele corredor, podíamos ver o pátio externo, o “meio” andar acima do segundo em que estávamos e parte do hall. Característica essa que se repetia em vários outros ambientes.

“Há pelo menos dois caminhos para se chegar a qualquer lugar por aqui”, diz ele e me faz perceber quantas outras entradas o CAC tem. “A entrada do Aquarela [restaurante e lanchonete do prédio] não é mais usada. Ali, perto do estacionamento, tinha outra entrada. E a grade perto da parada está sempre fechada.” Inibiram os vários acessos que tínhamos ao interior do Centro. Por que razão, não se sabe.

Um pouco mais tarde, ao conversar com uma amiga minha, Rafaela Nascimento, que estuda com João, ela me diria que as salas também são um pouco espalhadas para que os alunos de diferentes cursos também possam se ver, “ele [o arquiteto] cria pátios e terraços no seu traçado que seriam pontos de encontro para se ter mais interação social.”

“O CAC é um prédio brutalista.” O brutalismo é uma tendência arquitetônica que mostra, mas para quem souber ler sua estrutura, como ele foi construído, que materiais foram utilizados, como eles são agrupados. “Você pode ver os blocos de concreto, os fios, como eles se agrupam. Mas em algumas áreas isso não é mais possível por causa das reformas”. Na roda de conversa também estava Ricardo Américo, que trabalha na atualização das plantas baixas do campus. “Várias reformas por aqui não estão nas plantas, e algumas nem são do conhecimento da prefeitura da UFPE”, ele me diz.

O arquiteto Reginaldo Esteves, que desenhou o CAC*, deixou incríveis possibilidades de ampliação. Novos blocos podem ser construídos sem prejudicar o conceito da obra. Porém, as reformas não são um consenso no grupo de arquitetura. Os banheiros “de shopping” são um caso polêmico. Izabella Lafaiete, também estudante de arquitetura, me diz que o centro é “mal projetado nos mínimos detalhes”, no que se refere ao conforto. Os novos banheiros seriam, então, um ponto positivo, apesar de não conversar com o entorno. “Ele não conversa, mas as pessoas gostam dele. Se ele conversasse e tivesse uma pegada mais brutalista, ninguém gostaria”.

Embora os alunos percebam o prédio como um local que promove a comunicação entre pessoas de outros cursos, é consenso que nas rodas de conversa sempre terá um grupo maior de arquitetura e gatos pingados de gente de fora. “Nós temos muitas cadeiras [disciplinas] e projetos. Rafaela chegou a pagar 18 cadeiras semestre passado”, conta Beatriz Santana, que é do mesmo Grupo de Estudo que Rafaela e Izabella “como elas são por módulos, 15, 30 horas… É tudo muito prático, tem muito trabalho pra fazer. A gente tá sempre correndo”.

Eu pergunto pra ela se então dá tempo de experimentar um pouco do CAC. “A gente olha uma exposição que esteja no hall, tem gente que participa mais que outros, mas é raro pra gente parar pra olhar uma apresentação de teatro [comum pelos corredores]”. Nada que fuja muito do normal, penso. E em pouco tempo passamos a falar de outros assuntos.

*O Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco foi criado em 1975.

21.09.2015

Fiz esse texto para a cadeira de Redação 1. A professora, Adriana Santana, muito querida, fez o seguinte comentário: “A matéria ficou ótima, Juliana, e as fotos compõem bastante o texto. Sinto falta, contudo, de alguns dados, a exemplo do nome da equipe de arquitetos e a data de fundação”.

Reginaldo Esteves, diplomado em 1954 pela Escola de Belas Artes de Pernambuco e professor da Escola de Engenharia de Pernambuco, desenvolveu, em sua terceira fase8 (sua obra tardia), uma produção marcada por volumes imponentes que têm como principal característica grandes balanços e amplos espaços internos. Entre seus projetos, podemos citar o SCFC — Santa Cruz Futebol Clube (1973); a Celpe — Companhia Energé- tica de Pernambuco9 (1972); o CAC-UFPE — Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (1973), onde desenvolveu um sistema interno de passarelas e níveis distintos que se assemelham ao de strata, adotado por Denys Lasdun em seus projetos (CURTIS, 1997, p. 542–545). Esse sistema marcou a Arquitetura brutalista inglesa no período e tem a finalidade de tornar os espaços mais complexos devido aos altos e baixos, conferindo pessoalidade à edificação, e pode ser visto no CAC-UFPE, que é marcado com placas de concreto, que ora servem de vedação, ora de brises. Os altos e baixos e as passarelas desencontradas propostas pelo strata geram um interessante jogo de luz e sombra nas fachadas de concreto desencontradas (FIG. 17).

Texto publicado no Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, v.21, n.28, 1º sem. 2014 — Existe algo atrás da porta: o brutalismo em Pernambuco, de Aristóteles de Siqueira Campos Cantalice II

Conforme é caracterizado no próprio artigo: O brutalismo foi uma tendência arquitetônica que se desenvolveu entre as décadas de 1950 e 1970 e que se expressou pela exposição dos materiais, o resgate aos materiais tradicionais e a adoção de jogos mais expressivos de volumes. Entretanto, hoje está cada vez mais claro que nunca houve um estilo brutalista fechado e com intenções programáticas, mas sim uma “nova sensibilidade” construtiva que procurava voltar-se para o saber-fazer de suas regiões, estabelecendo uma maior relação com a cultura de construção local como forma de se distanciar do internacionalismo do Movimento Moderno (CURTIS, 1997).

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.