O caçador de mariposas

Foto: Juliana Almeida

Quando estava a caminho do Indepente Disso (feira de produtores independentes em Recife), me sentia ansiosa por não saber o que me esperava lá (era a primeira edição). E nunca que eu pensaria em encontrar um livro desses, encapado com papelão, pintado a mão e escrito com amor, com medo… dá para sentir entre as estrofes, através da voz inventada para o filho, as incertezas do pai e de como o menino continua em seu próprio mundo.

“(pai, meu prcinípio é ser sem fim e essa voz que me invanetste essa fsara é tmbaém snhoo)”

Aleph tem seis anos, gosta de girar e é altista. Ainda não fala, e O Caçador de Mariposas é foi escrito por seu pai em forma de conversa e versos sobre o que eles vivem. Wellington de Mello, além de pai e autor, é editor da Mariposa Cartoneira*, e foi ele quem me vendeu o livro que é, em todos os sentidos, único. Quando soube que a história era dele, me escapou dos lábios a pergunta:
– E como é ter um filho que está sempre no próprio mundo?
Mais do que as palavras em si, chegaram até mim o sentido, um resumo da história:
– A gente está sempre aprendendo, e o livro traz muito dos ensinamentos que Aleph me dá. A gente se preocupa com o que vai ser dele, no furturo, quando não estivermos mais aqui.

E é por entre os versos que fui construíndo a história de Aleph,
mas não ouso dizer que o conheço,
Só posso dizer que o sinto aqui, por entre as linhas.

É uma história que me tocou de uma forma difícil de descrever, então desculpem qualquer falta de sentido, mas a indico para pais e filhos. Todos.

*Mariposa Cartonera é uma editora de livros únicos. Eles encapam os livros com papelão reciclado e criam as capas cada uma a sua maneira de modo a não ter nenhum livro igual a outro. Há ainda uma numeração pra cada exemplar e se você tiver sorte de comprar com o autor, pode pedir um autografo junto.


Era 11 de outubro de 2014, aquele sábado. Era o primeiro (?) evento que eu frequentava sem nenhum conhecido, e cheio de jornalistas. Fui sozinha. Uma feira, evento aberto. Tinha pesquisado quem estaria por ali, visto fotos, lido um pouco. Nenhuma preparação profissional. Haveria um debate sobre o jornalismo independente, sobre revistas alternativas e se havia espaço para elas. Me interessava e fui. Participei, troquei ideias, ganhei revistas. Comprei algumas coisas. Faltava (e ainda falta) mais conhecimento de mundo, mais bagagem. A gente viaja através dos livros e é mágico e seguro. Ir a lugares assim, sem conhecer ninguém, se arriscar, se expor… vá, faça. A gente precisa começar de alguma forma.

Esta resenha eu escrevi naquela mesma tarde. Comprei o livro, li ali mesmo e escrevi. Usava um tablet no lugar de um smarthphone #aestranha. Fazia selfies e usava o whatsapp por ali (relutante à tendência). Dezoito anos. Era a primeira vez que conhecia de perto uma história feito a deste livro. Não sabia que alguns autistas podiam nunca chegar a falar. Sem nenhum anúncio físico, poucos entendem ou mesmo sabem o que é o distúrbio. Eu mesma não sabia e o que sei hoje ainda é pouco. Dois de abril é o Dia Mundial do Autismo. Já estagiária num jornal este ano, fiquei encarregada de fazer uma matéria sobre o assunto. Nem foi do dia pra noite. Foi de 08h às 12h, com algumas horas extras e muito esforço. Eu estava sensível naquele dia, próximo à data. Fiz o melhor que pude. Juro. Queria ter feito mais.