The end is an illusion

Ela queria respirar mais fundo, mas não tinha como. Estava naquele ritmo na última meia hora, por toda a Av. Luís Antônio e estava confortável — todos os seus músculos ardiam e gritavam por um descanso, era inteiramente normal.

Nas quase duas horas desde que foi dada a largada, Rúbia só via seus tênis e o asfalto. Os outros corredores ficaram logo para trás enquanto ela se juntava àqueles que nem eram tão bons nem eram amadores. Se inscreveu para a maratona quase por uma promessa, só não havia santos envolvidos. Precisava provar alguma coisa para si mesma, mas não conseguia lembrar exatamente o quê. Toda a sua motivação era consumida e transformada em energia para os músculos antes de se tornar um pensamento claro. Evitava esse tipo de atividade desnecessária para economizar energia, para concentrar força na ação .

Ela estava entregue ao ritmo de seus passos.

Não podia parar agora, começava a avistar a esquina para a Paulista, a última linha do percurso! Quis ir mais rápido. Tentou. Não podia. Minutos depois, conseguiu realizar um outro tipo de ato, quase como um lampejo de todos os seus esquecidos pensamentos: esboçou um sorriso. Logo a sua frente estava a linha branca.

*

Só havia mais um espaço em branco agora. Liliane levantou os olhos e viu o professor mastigar a tampa da caneta enquanto pensava sobre suas palavras-cruzadas, distraído. Restavam mais três pessoas na sala, quando Lucas se levantou para entregar a prova. Ele sorriu pra ela desejando boas férias e saiu. Liliane sorriu para si mesma, estava acostumada a ser a última a terminar. Respirou fundo, quase de alívio, e encarrou o enunciado — apenas ele a separava de dois meses de merecido descanso.

*

O ovo brilhava. Ou seria a colher? Guilherme não sabia ao certo, mas tentava se concentrar ao máximo para não derrubar a estúpida junção. Helena também estava perto da linha de chegada e tia Cris já havia preparado a câmera para o desempate.

Naquele verão, a família tinha se divido em três equipes para a gincana. A equipe vermelha precisava desses 50 pontos finais para superar o placar da azul e vencer o mini torneio. A equipe amarela, dos mais novos, estava só se divertindo, já que as mães comemoravam cada vez que eles completavam uma tarefa. Dessa vez não tinha funcionado muito bem, mas os pais já estavam dando um banho de mangueira nos pequenos que nem ligaram tanto assim por terem quebrado o ovo.

Guilherme ligaria se fosse com ele. Vestia uma camisa vermelha — havia perdido duas das últimas provas que participara e se sentia culpado pela posição da equipe. Dependia só dele agora. Deu mais um passo. Devagar.

*

Todo mundo estava vestido de branco. Talvez uns de azul, alguém rosa saltitando por aí, muitos com brilho… mas tinha uma maré branca de gente na praia. A cantora pára a música e acompanha a contagem no telão. Todo mundo acompanha a contagem a plenos pulmões. Chegamos no um e todo mundo grita. A câmera gira e captura imagens nítidas e tremidas de casais se beijando, gente pulando ondinha, um bêbado levantando uma taça de qualquer espumante.

“E… Corta!”, grita o diretor. Alguns vêm falar com ele, dizendo que a sequência de imagens ficou boa. “De fato, muito interessante e perspicaz”, comenta um que só esqueceu de portar o monóculo para a tarefa de puxa-saco intelectual, pensa o diretor. Flora o abraça e diz que a campanha ficou muito boa. Ele sorri e lembra que ainda não acabou. Falta uma última imagem, uma série de imagens. “O fim é só uma ilusão”, escreve em vários idiomas na última cena, que passa rápido, só para quem de fato quiser perceber. Mas ver, todos verão. Em cada item cenográfico, no enunciado da prova, entre o número de inscrição de Rúbia, no entalhe da colher, todos saíram com essa ideia rondando seu inconsciente. “É um bem que faço”, e ri consigo mesmo.


Prosa. 26.12.2015

De férias. Sem estágio. Ainda com bolsa. Feliz.