#1: Listando Meus Filmes Favoritos

Ou “Quais Filmes Formaram Minha Personalidade”

Escrever um primeiro texto é complicado.

Tem que ser uma introdução do site, uma apresentação do autor e mil outras coisas. Isso quando se escreve com o pensamento de que “o primeiro texto é importante”, porque muitas vezes um primeiro texto é só um primeiro texto. Mas não queria que fosse só isso. Eu queria que meu primeiro texto fosse importante, e mais do que isso, que ele fosse interessante.

Foi quando pensei, por que não fazer uma lista dos meus filmes favoritos?

E é óbvio que você pode estar revirando os olhos porque todo mundo um dia já fez uma lista dessas. Talvez nem todo mundo tenha escrito uma, mas não é como se fosse uma ideia inovadora. 99% de quem escreve sobre cinema, ou só curte mesmo, já fez ou pensou em uma lista dessas. A questão é que me enquadro no 1% que nunca chegou a pensar demais nisso pra sequer elaborar um top 10, então pra mim é algo novo.

Foi difícil e tive que me esforçar pra encontrar filmes que significassem o suficiente para entrar nessa lista, mas conforme ia anotando alguns títulos, ficou claro que essa lista não só fala dos meus filmes favoritos, mas também da minha relação com o cinema. É uma história sobre crescer e evoluindo assistindo filmes, porque nada muda mais a vida de alguém como a arte. E sinto que seria uma pessoa totalmente diferente se não tivesse visto esses filmes em momentos específicos da minha vida. Por essa razão, essa é uma lista especial pra mim e uma que justifica a ideia de um primeiro texto importante.

Espero que gostem.

1. Procurando Nemo (2003, Dir. Andrew Stanton)

Era óbvio que o meu primeiro filme favorito seria uma animação.

O problema é que estava confuso se escolhia Monstros S.A ou Procurando Nemo para ocupar esse posto, e o segundo só venceu porque vi tanto o DVD dele na locadora que quebrei. Sim, ainda peguei esse tempo. E é justamente pela minha primeira memória sobre filmes ser alugando o DVD de Procurando Nemo, que ele figura na primeira posição.

O segundo motivo é que ele conta uma história atemporal. Assim como fiz com o restante dos títulos, tive que rever para ver se o filme era bom mesmo ou se era apenas uma memória afetiva, mas na real a Pixar já tinha lançado a braba no ano anterior com Monstros S.A e aqui eles só elevaram ainda mais o nível com uma história clássica de pai e filho. Nos primeiros cinco minutos já estava chorando com a morte da mãe do Nemo (já que ser órfão é essencial em um filme da Disney), o que demonstra o tamanho da força emocional que a história possui.

Não é por outro motivo que Procurando Nemo ganhou o Oscar de Melhor Filme Animado em 2004, além de ser indiciado em Melhor Roteiro Original, perdendo pra Lost in Translation da Sofia Coppola. Vale citar, aliás, que esse foi o primeiro Oscar da Pixar, que já tinha sido indicada anteriormente, mas só ia pra premiação esquentar o banco. Provavelmente os netos dos velhos da academia gostaram de verdade do filme, tornando Procurando Nemo um clássico instantâneo desde sua estreia.

Meu amor para com ele veio porque sempre tive uma fascinação pelo mar. Por viver em uma cidade litorânea, eu (quase) sempre vou à praia e é um dos lugares em que mais me sinto em casa. E desde criança o background marítimo de Procurando Nemo sempre me atraiu mais do que o de outros filmes como Monstros SA ou até mesmo Toy Story, visto que o visual dele permanece muito bom até hoje (sim, Toy Story você envelheceu mal!). Lembro que na época meu pai até tinha um aquário em casa, mas ele não durou muito. Até hoje amo peixes, mas nunca criei um Nemo. Prefiro eles no oceano mesmo.

De qualquer forma, foi Procurado Nemo que me fez gostar de filmes. Sendo o primeiro que me despertou aquela vontade de ir na locadora em busca de repetir a dose. Eu ainda não entendia nada da indústria ou de filmes em si, mas sabia que tinha gostado daquele. Era um começo.

Um excelente começo.

2. Scooby-Doo (2002, Dir. Raja Gosnell)

Se me perguntassem qual era meu desenho favorito da infância, responderia imediatamente Scooby-Doo.

Foram quatro adolescentes e um cachorro medroso que me fisgaram de um jeito como nenhuma outra obra tinha fisgado antes. Eu acordava cedinho pra ver os episódios aleatórios da série original na programação do Cartoon Network. Esse era um dos pontos positivos de ter televisão por assinatura, já que podia assistir Scooby-Doo no canal em que só passava desenhos ao invés de ter que esperar o Sábado Animado no SBT. Para não ser injusto tenho que admitir que a primeira vez que vi esse filme foi no canal, então obrigado Silvio Santos.

E quando o SBT não passava esse filme, eu mesmo alugava na locadora perto de casa. O primeiro sempre teve um carinho especial no meu coração, mesmo o segundo sendo mais “bem-feito” no sentido de fanservice, algo que vou explicar em futuro texto sobre a franquia como um todo.

Mas voltando ao filme, Scooby-Doo de 2002 tem algo que a sua sequência não tem. A primeira adaptação da franquia de ouro da Warner Bros não foi originalmente feita para ser um filme de classificação Livre, o que se torna óbvio quando você reassiste sendo mais velho, além das inúmeras declarações do roteirista e elenco sobre o primeiro corte da obra. Mesmo com os vários cortes e mudanças, a essência daquela reinvenção da turma clássica ainda está lá. São pequenas piadas e momentos que brincam com o que a gente espera de um filme do Scooby-Doo, como um Salsicha maconheiro ou até mesmo uma Velma possivelmente bissexual.

É aí que mora o truque de fazer essas piadas passarem despercebidas pelo público infantil, no qual fazia parte na época em que me apaixonei pelo filme. Mesmo tendo assistido a série clássica de 1969 e tudo o que veio depois, o filme era completamente diferente, apresentando uma quebra na fórmula que me deixou encantado.

Era como um sonho ver seu desenho favorito ganhando vida de uma maneira tão bem-feita, tão encaixada e até mesmo o CGI duvidoso do Scooby me parecia incrível naquela idade. E a sequência mesmo sendo muito boa, perde aquele sentimento de “a turma cresceu, eles são adultos investigando monstros e isso é ridículo” pra transformar a obra em algo realmente feito para crianças. O que não é ruim, diga-se de passagem, mas não chega a ser tão bom quanto esse filme aqui que é camp no sentido mais literal da palavra.

Afinal, que outro filme uniria um maconheiro e seu cachorro, uma nerd com problemas de socialização, um hetero top escroto e uma patricinha que luta artes marciais para investigar demônios que possuem o corpo de adolescentes em um parque temático de terror? Só mesmo a versão de Scooby-Doo que James Gunn escreveu. Um nome que ainda vai aparecer muito aqui nessa lista, mas que já me conquistara quando eu tinha apenas 10 anos. Pode-se falar o que for dele, mas o Gunn sabe arriscar nas adaptações que escreve.

E aqui, meus amigos, ele venceu!

Sem falar que esse foi o filme que por se parecer como uma grande fanfic, me apresentou ao mundo das fanfics, sendo um dos meus primeiros passos como escritor. Então tenho que dar esse crédito a ele, além de dizer aqui e agora que vou escrever um texto imenso analisando a franquia Scooby-Doo e como a Warner desperdiça o potencial dela. Além, é claro, de falar sobre os bastidores desse filme aqui, que são mais interessantes até que o próprio filme, mas…

Isso é assunto para outro texto.

3. A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005, Dir. Tim Burton)

Outro caso de empate.

Não que eu seja fã do Tim Burton, porque não sou, mas o velho sabe como fazer um filme visualmente interessante. Tanto que quando comecei a escolher títulos para compor essa lista, sabia que por mais problemático (lê-se potencialmente racista) que fosse, não podia deixar de negar a influência que ele teve na minha vida como cinéfilo. Só por isso houve um empate entre A Fantástica Fábrica de Chocolate e Edward Mãos de Tesoura, ambos protagonizados por um dos atores mais desprezíveis da indústria, ele mesmo, Johnny Depp.

A Fantástica Fábrica de Chocolate ganhou por motivos de Roald Dahl, um dos escritores infantis mais influentes de todos os tempos, tendo escrito o livro base desse filme e também o de outra adaptação que gosto muito, que é Matilda (Pois não curto tanto Convenção das Bruxas, mas é outro clássico inegável com um remake bastante duvidoso).

Juntando a história excêntrica de Dahl e as firulas visuais de Burton, não tinha como esse filme dar errado, e na revisão dele fiquei besta da mesma forma que fiquei quando vi o filme pela primeira vez. E não é novidade que esse também passava muito no SBT, então obrigado pelos mimos, Silvio Santos, você fez tudo pela comunidade cinéfila.

Reconhecendo o racismo de Burton e as centenas de problemáticas do Depp, o que se pode dizer desse filme é que ambos estavam com sangue nos olhos quando embarcaram nesse projeto. Fica nítido quando um diretor está se divertindo com o material que está adaptando, quando ele pega a essência e expande ela em cima de novos conceitos que fazem sentido. Foi isso que Tim Burton fez ao reimaginar o Willy Wonka, originalmente interpretado por Gene Wilder, para uma versão mais cínica interpretada por Depp.

Era óbvio que aquela história inocentemente sombria não ia funcionar em 2005 como funcionou em 1971, e Burton foi muito esperto em atualizá-la com sua estética dark but not too much, dando um visual camp para uma história que precisava ser camp para funcionar. O melhor de tudo é que o mundo de Wonka coexiste no mundo normal, e o filme nos mostra isso revelando as diversas capitais que consomem os produtos do chocolateiro mais inteligente do mundo. Esse sempre foi um toque que apreciei desde pequeno.

No entanto, a melhor coisa do filme pra mim é a expansão que Burton faz no final. No original, que fui atrás de assistir quando criança, o Wonka dá a fábrica pro Charlie e todo mundo termina feliz que nem um comercial de margarina. Já no remake do Burton, o Willy Wonka quer um herdeiro que não ligue pra própria família, assim como ele. E aí o terço final do filme é todo dedicado pro Charlie mostrando o valor que é ter uma família pro Wonka, que dá a fábrica pro menino, mas ganha uma família em troca. Uma final muito melhor na minha opinião.

Por isso e pela estética, A Fantástica Fábrica de Chocolate é um filme que lembro de no mínimo 5 cenas memoráveis. Eu amo a forma como o Burton conta a história visualmente e foi aí que eu percebi que gostava de filmes exagerados como esse. Tanto que um dos mais importantes pra minha vida como cinéfilo é um que tenho certeza que o Burton dirigiria se ele tivesse mais sensibilidade e maturidade como artista, que é The Royal Tenenbaums do Wes Anderson.

4. Kill Bill Vol. 1 & 2 (2003/2004, Dir. Quentin Tarantino)

Agora, vamos falar sobre o MEU FILME FAVORITO DE TODOS OS TEMPOS.

Kill Bill é um que conheci por uma cena específica. Que é a cena em que O-Ren Ishii decapita a cabeça de um de seus asseclas pelo desrespeito que ele cometeu contra sua origem e gênero. Claro que quando vi pela primeira vez não sabia de nada do contexto, mas três coisas naquela cena me encantaram. Lucy Liu, sua katana e o sangue.

Com um pouco mais de idade (lembrando que agora estamos na minha fase pré-adolescente), fui atrás de saber que filme era aquele e me deparei com Quentin Tarantino. Um dos diretores mais aclamados da indústria por filmes como Cães de Aluguel e Pulp Fiction. Eu não me interessei muito por eles. Kill Bill era a joia que queria da filmografia dele. Na primeira vez que assisti, bati o olho e disse “ISSO É CINEMA”. Óbvio que essa cena não aconteceu, mas é o que sinto toda vez que reassisto.

Kill Bill é um filme bastante feminino, o que julgo como sendo o que mais chamou minha atenção. Eu sempre vivi num universo muito feminino, então ver 4 horas de filme sobre uma assassina se vingando de seus comparsas me atraia de uma maneira que até hoje não consigo explicar. Talvez seja pela temática de maternidade abordada no longa. A Noiva de Uma Thurman é uma força da natureza e sem dúvidas é uma das minhas performances favoritas de qualquer filme. Fora ela, Daryl Hannah tá monstruosa como Elle Drive, Lucy Liu fria e hipnótica como O-Ren Ishii e Vivica. A Fox lendária como Vernita Green no pouco tempo de tela que possui. A cereja do bolo, por mais confuso que seja, é justamente o único homem que se destaca nesse filme. Bill, interpretado por David Carradine, é um vilão que não precisa de muita coisa pra ser ameaçador. Ele promete e ele faz.

Justamente por isso, esperava que ele tivesse a morte mais violenta do longa. Eu queria que a Noiva acabasse com ele, mas quando chega no final do Volume 1 e ele revela que a filha da Noiva tá viva, ah, meus amigos… Aquela cena acabou comigo. O Volume 2 então veio pra humanizar ainda mais a figura daquele monstro, e mesmo que na primeira vez que tenha assistido o filme, tenha achado a luta da Noiva contra o Bill anticlimática, sabia que havia muito mais ali. Era um tipo de sentimento que você só entende quando cresce e amadurece. Claro que jovens sempre vão gostar mais de lutas e sangue, e o Volume 1 é o favorito de muitos por causa disso, mas é na melancolia do Volume 2 que eu vejo a maior beleza desse universo do Tarantino.

Em filmes de vingança, quase nunca há um final feliz. Então quando a Noiva termina chorando no chão do banheiro, extremamente feliz por ter completado sua vingança e ainda pode estar do lado da filha, eu como espectador tinha alcançado o nirvana. Era uma história redondinha que me dava todo um leque de emoções, mas que terminava com a melhor de todas. Alegria.

É irônico que descrever esse filme como alegre, mas é Kill Bill é meu comfort movie.

Fora essa conexão emocional, foi a primeira vez que me atentei em elementos técnicos.

Kill Bill tem planos sequências, uso de preto e branco, não-linearidade narrativa e diversas inspirações cinematográficas que me fizeram sentir uma paixão genuína pela sétima arte. Foi vendo e revendo que decidi que um dia queria trabalhar com filmes. Tanto é meu amor por esse longa, que cheguei a traduzir o roteiro dele que é bem… diferente. Em um futuro texto irei mostrar o que isso significa.

De qualquer forma, Kill Bill foi o filme que mudou minha vida e que me fez virar gente. Eu já sabia que gostava de cinema, mas precisava descobrir qual era meu tipo de filme e bem… É ESSE!

5. Madrugada dos Mortos (2004, Dir. Zack Snyder)

Tenho que confessar… Sou Snydete.

Eu sei, eu sei. Ele faz filmes de qualidade duvidosa, e até mesmo os melhores da carreira dele como Watchmen e 300 são cheios de problemas. Isso é algo que reconheço, mas que não me impede de gostar dos filmes dele na DC. Sim, eu amo O Homem de Aço, Batman v Superman e Liga da Justiça (A versão com 4 horas, óbvio). Essa era a visão que ia gostar de ver, porque o Snyder sabe como ninguém juntar tudo numa obra pra fazer algo épico, o problema é que ele é um diretor afobado. Uma característica que não funciona em um universo compartilhado, mas que se dá muito bem em um filme que precisa de uma direção afobada e frenética como esse aqui.

Extermínio (28 Days Later) foi a revolução dos filmes de zumbi. Ele que praticamente inventou o conceito de zumbi que corre pra caralho até conseguir infectar a próxima vítima. Demorou anos até que The Walking Dead trouxesse de volta o interesse nos zumbis lentos, mas até lá, houveram duas produções que são as melhores do gênero pós Extermínio. Madrugada dos Mortos e Guerra Mundial Z. Escolhi a primeira porque foi a que vi primeiro, no DVD, alugado e tudo mais. Já a segunda vi no cinema e por ser uma adaptação, não tem tanto contexto histórico como Madrugada dos Mortos, que é um remake do filme de 1978 que chegou aqui como Despertar dos Mortos.

Ironicamente, Madrugada dos Mortos é um filme roteirizado por James Gunn, que já apareceu aqui nessa lista com o filme do Scooby-Doo. Ele quem escreveu o roteiro base do filme, mas deixou o projeto quando o chamaram pra roteirizar Scooby-Doo 2, fazendo com que outras pessoas tivessem que assumir as reescritas. Felizmente, o que se vê aqui é um filme bastante sólido e digo isso porque o Snyder tinha uma visão bem única pra esse projeto. Seja ele um diretor bom ou ruim, o que importa é que ele tem coragem. E sempre repito que a arte pode ser tudo, menos chata. Madrugada dos Mortos é trash, é camp, é besta, mas ele definitivamente não é um filme chato.

Pra começar, a cena de abertura é uma das melhores coisas do longa. Define o tom e nos insere na trama sem perder tempo. É violento e frenético, tal como os filmes de zumbi pós anos 2000 seriam. Ele também tem uma ambientação icônica que é o shopping, que considero mais bem utilizado que o original e uma vasta gama de personagens que só existem para morrer ou nos gerar situações como um bebê zumbi e um tiroteio entre um homem e uma velha em câmera lenta.

Madrugada dos Mortos é o remake que não só saciou minha sede juvenil por sangue cenográfico, como também me fez ir atrás de quem era George Romero ou de como surgiu o subgênero zumbi na cultura pop. Foi esse o filme que me fez virar fã de obras como The Walking Dead e Resident Evil (que sim, não citei como destaque do gênero, mas futuramente irei escrever uma tese para defender a franquia pois ela é injustiçada demais!), além de ser minha porta de entrada no terror.

Então, obrigado pelos mimos Snyder, mas pare de fazer filme de zumbi. Esse já valeu e já deu.

Army of the Dead NÃO É CINEMA!

6. The Rocky Horror Picture Show (1975, Dir. Jim Sharman)

Michael Rennie was ill the day the earth stood still…

Quando vi The Rocky Horror Picture Show pela primeira vez, tinha por volta de uns 13 anos e tava começando a aprender a baixar torrent. Por algum motivo, vi que esse filme era um clássico e baixei ele meio que sem saber o que ia ver. Esperava um filme de terror. Foi só quando a primeira fase da canção Science Fiction, Double Feature começou que me toquei que era um musical. Tudo bem, não é meu gênero favorito, mas vamos lá.

Terminado o filme, só tinha uma certeza. Já não era mais o mesmo.

Um pouco de contexto. Fui criado em uma família ultra evangélica, daquelas que veem teorias da conspiração em tudo. Felizmente meus pais sempre foram um pouco mais relaxados que meus tios, o que permitia que vez ou outra eu pudesse ser mais “subversivo”. Na época em que assisti The Rocky Horror Picture Show, já sabia que não gostava de ir pra igreja. A religião dos meus pais não era algo em que eu me encaixava. Talvez por isso que senti no musical de Richard O’Brien um acolhimento que nunca tinha tido antes. Ele me deu um senso de pertencimento a alguma comunidade que não me julgaria de forma negativa. (Aqui eu forcei porque os gays julgam pra caralho)

No universo do Dr. Fran-n-Furter não existe limites pro prazer. Mesmo ele sendo um vilão e passando do limite diversas vezes, não há uma figura de julgamento sobre o que ele faz. Mesmo o Dr. Scott sendo a figura conservadora do filme, até ele se deita pra energia queer que ali existe. Janet e Brad são o retrato de uma sexualidade que pode ser mais. Muito mais. O Brad especificamente foi a primeira representação masculina bissexual com quem tive contato. Rolou uma identificação imediata, e foi quando descobri que não era hetero. O melhor é que The Rocky Horror Picture Show continua sendo atual e interessante. É um filme que não envelheceu mal e que recomendo pra todos. Sendo sem dúvidas, um dos mais importantes pra minha identidade como pessoa.

E ele também me abriu portas pra gostar de musicais…. Mas só gosto de 2 fora esse e por motivos bem específicos. (Hairspray & Mamma Mia)

7. Pânico 4 (2011, Dir. Wes Craven)

Quando cheguei na minha adolescência de fato, já sabia que gostava de filmes e principalmente de filmes de terror. Apreciava muito o subgênero de zumbis, mas ainda faltava aquele algo que me deixasse apaixonado de verdade. Foi quando eu vi Pânico 4.

Lembro que foi numa maratona de Halloween do Telecine e assisti meio moscando porque Pânico 4 é o quarto filme de uma franquia de slasher. Em qualquer outra franquia é 99% de chances de você estar assistindo uma história qualquer deslocada da original, mas Pânico é aquela franquia do 1% porque sua história é contínua do primeiro até o último filme (contando já com o 5). Por essa razão, na primeira vez que assisti, perdi muita coisa por não ter assistido os outros 3. O que sabia é que tinha o Ghostface e toda vez que ele aparecia, alguém morria. Era uma estrutura narrativa que eu gostava. Pânico 4 me introduziu aos filmes slasher da maneira mais punk possível.

De tão apaixonado que fiquei pelo filme, e pela reviravolta, já que o 4 tem a melhor delas, fui atrás de outros filmes parecidos. Comecei por Pânico, claro. Vi todos os 3, que também foram dirigidos por Wes Craven, e mergulhei no que veio antes deles. Sexta-Feira 13 de 1980 virou um dos meus favoritos junto com Sleepaway Camp, que tem um final problemático, mas ainda é bom. Das franquias fora Pânico, só tinha gostado de Chucky e Hora do Pesadelo, vendo um ou outro filme isolado até dar de cara com O Massacre da Serra Elétrica, que é um protótipo do gênero, mas é um dos filmais mais impactantes e crus que já vi até hoje.

Infelizmente Pânico 4 flopou nas bilheterias e condenou a franquia a viver por uma série produzida pela MTV. Acompanhei essa bendita série inteira da estreia até os especiais e bom… Era pra adolescentes e eu estava entre o público alvo. Não teria coragem de rever e por isso agradeço que dez anos depois eles anunciaram um quinto filme, que eu particularmente amei e considero o verdadeiro legado da franquia. Um sexto já tá anunciado e é óbvio que vou assistir.

Agora voltando pra Pânico 4, gosto de um aspecto em específico que é a motivação dos assassinos. A Jill orquestra todo um massacre pra ficar famosa e ela mesmo fala “não preciso de amigos, eu preciso de fãs”, sendo uma motivação mais do que crível nos dias de hoje. Emma Roberts deu o nome e nunca esqueço da minha cara de choque quando ela esfaqueou a Sidney e fingiu o próprio ataque. Foi um momento de emoção tão grande que ficou grudado na minha cabeça.

Por ser o quarto filme de uma franquia cujo gênero não é reconhecido por ter qualidade como característica principal, digo sem dúvidas que Pânico 4 é um filme injustiçado e apenas os verdadeiros fãs do terror vão apreciá-lo como deveriam. Com a chegada do 5, ele está sendo revisitado e ainda quero escrever um texto sobre as ideias originais do filme e o que ele acabou sendo. Fica pra depois, até lá…

Jill Roberts sempre viva em nossos corações! A eterna rainha, sempre a mulher.

8. Guardiões da Galáxia (2014, Dir. James Gunn)

Quem não dropou o texto quando confessei que era Snydete, vai dropar agora que irei revelar meu lado marvete.

Falando sério, acredito de verdade que a Marvel tem filmes muito bons, medianos e ruins. Guardiões da Galáxia até pode tá incluso nos muito bons, mas meus favoritos de qualidade mesmo são Capitão América 2: O Soldado Invernal e Os Vingadores: Guerra Infinita. Ponto. Claro que tem outros, mas irei discorrer em um futuro ranking quando maratonar todo o MCU de novo. E onde é que Guardiões da Galáxia se encaixa aqui já que não é o melhor filme da Marvel? Pois muito que bem… James Gunn conseguiu DE NOVO.

Continuando no roteiro, mas assumindo a direção, Gunn estabeleceu com maestria a segunda equipe da Marvel, introduziu os elementos espaciais que seriam usados na Saga do Infinito e ainda ditou o “tom e fórmula” dos próximos filmes da empresa. Três conquistas que considero surreal pra uma equipe que nunca foi a campeã de vendas da Marvel.

Porque veja bem, é muito fácil vender um filme do Batman ou do Superman, que são os heróis titulares da DC, mas a Marvel tinha a missão de vender personagens como Groot e o Rocket Raccoon, que são sim um pouco ridículos, e que precisavam de um diretor que soubesse usá-los num live-action. E caras, a Marvel foi perspicaz em escolher o James Gunn. Ele soube adaptar Scooby-Doo nos anos 2002 de uma maneira extremamente galhofa, mas que continua muito boa com o passar do tempo e se mostrou corajoso ao reinventar tramas clássicas como a de Madrugada dos Mortos. Ele só precisava se provar como diretor, já que até aquele momento só tinha feito um filme de terror meio trash e uma comédia com ares de indie, mas era exatamente isso que Guardiões da Galáxia precisava.

Alguém que não tivesse medo de ser ridículo.

Não apenas pelos méritos do James Gunn, Guardiões da Galáxia é um dos meus filmes favoritos da Marvel porque também é um dos mais divertidos. Foi um dos poucos da empresa que vi no cinema, e ainda fui acompanhado do meu pai, um quarentão que nunca leu um quadrinho da Marvel na vida. Terminado o filme ele queria mais. Acabou não se tornando Marvete, mas virou fã da equipe e principalmente da trilha sonora. Já eu, me apaixonei mais e mais por aquele universo compartilhado e me fidelizei de vez. Não sou marvete do tipo doente, mas adoro assistir os filmes e as séries e ir capturando todas as referências jogadas no caminho.

Foi por causa da Marvel que comecei a ler quadrinhos e esse é um pedaço da minha pessoa que amo. Sem falar que a cada ano a Marvel fica melhor em criar “eventos cinematográficos” que por bem ou por mal empolgam o público. Ultimato e No Way Home são a prova disso. Mas aí é pauta pra outro texto.

(No fundo sou mesmo DCnauta apaixonado, porque AMO Batman vs Superman. Me julguem!)

9. They Shoot Horses, Don’t They? (1969, Dir. Sydney Pollack)

Thinking about Filmes Cult… What a legend! RIP.

“They Shoot Horses, Don’t They?” foi um dos filmes que baixei através do finado Filmes Cults, um dos melhores no quesito de filmes antigos, porque eles sempre tinham legendas para algumas obras primas e raras. Até chegar nesse filme, foi um pouquinho trabalhoso. Ele já tinha sido postado há um tempo e eu dava prioridade a filmes mais recentes porque isso significa que era mais fácil de baixar. Só que no contexto de “They Shoot Horses, Don’t They?” haviam duas coisas que me chamavam a atenção. A primeira delas era que o filme tinha a Jane Fonda, que estava em alta pelas diversas prisões em protestos. A segunda é que a tradução do título era bem chamativa, A Noite dos Desesperados. Juntando esses fatores, pensei, porque não? E fui ver o filme.

Pra começar, o título apesar de chamativo não tem nada a ver com nada. Removendo a citação a atirar em cavalos, perde-se uma parte importantíssima do significado do ato final da obra. “They Shoot Horses, Don’t They” é um filme muito pesado sobre até onde as pessoas estão dispostas a ir por dinheiro. Só que o longa não aborda só isso, mas vai além, se valendo da transformação em espetáculo desse instinto por sobrevivência. O mesmo recheio temático que obras como Jogos Vorazes e Round 6 utilizam. Só que aqui, é claro, temos um pano de fundo histórico que é a crise de 1929.

O livro base, escrito por Horace McCoy, foi lançado em 1935, período em que os Estados Unidos ainda estavam no auge da grande depressão. É aí que o autor insere uma maratona de dança surreal em que quem sobreviver por último ganha o grande prêmio. O filme usa esse mesmo argumento e é uma adaptação até que fiel, com exceção do final. Por isso, me perdoem o spoiler de um filme de mais de cinquenta anos atrás, mas precisamos falar sobre ele.

O livro, apesar da excelente trama, não tem algo que o filme tem. Jane Fonda. Essa mulher é um furacão de atuação e isso fica óbvio toda vez que ela entra em cena. Interpretando Gloria, uma mulher desiludida com a vida e que vê na maratona uma última chance de fazê-la dar certo, Jane Fonda encarna toda uma geração que vivia desiludida naquela época. No livro, a maratona é interrompida por um assassinato e todo mundo é liberado depois de muito esforço, ganhando quase nada do prêmio total. No filme, Gloria descobre que o valor que está sendo gasto pra manter a maratona, vai ser descontado do valor de quem ganhar o prêmio, e por isso não há mais esperanças. Ela desiste. No porto, ela pede que seu companheiro na maratona dê um tiro nela. É uma cena pesada, de um final amargo e extremamente realista.

Em outras condições, A Noite dos Desesperados (que poderia se chamar A Dança dos Desesperados) poderia ser facilmente ambientada em um Brasil contemporâneo. A mensagem é a mesma: o capitalismo esmaga qualquer um debaixo dele. E um filme de 53 anos atrás continuar sendo tão atual é uma prova que o cinema é uma arte incrível. Foi com que ele que decidi ver filmes de uma forma mais profunda e não apenas assistir, mas digerir, pesquisar e entender o que aquela obra quis passar. Claro que não são todos os filmes que merecem um tratamento desses. Não é como se eu fosse assistir um blockbuster para estudar, mas “They Shoot Horses, Don’t They?” despertou meu interesse pela análise fílmica. Algo que já vinha evoluindo de muito antes e que só precisava de um estalo para se solidificar na minha personalidade.

Obrigado por tudo, Jane Fonda. Você é fodona.

10. Aquarius (2016, Dir. Kleber Mendonça Filho)

Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo

— Hoje, Taiguara

Bacurau é definitivamente mais popular que Aquarius, mas considero o segundo longa do KMF o melhor da sua filmografia.

Em 2016, eu tinha apenas 14 anos, muita energia e pouco juízo. Não compreendia metade do xadrez político nacional e muito menos era envolvido com cinema. Corta para 2019. Bacurau se torna um fenômeno da cult, conquistando o Prêmio do Júri e arrasando em uma campanha boca-a-boca nas redes sociais. Nos grupos em que estava era só que rolava. Infelizmente, não consegui assistir Bacurau no cinema e pra me redimir fui atrás dos outros filmes do diretor, caindo de cara em Aquarius.

A Sônia Braga não me era uma figura desconhecida. Sabia quem ela era porque vim de uma família noveleira, e Dancin’ Days sempre foi meu maior fascínio dessa época, sendo que até hoje choro pra Globoplay incluir a novela no seu catálogo. A atriz veterana encapsulou o filme e tornou ele algo seu. Aquarius é um filme sobre resistência, que teve que resistir a um boicote político e uma injustiça na indicação ao Oscar. Sinto que essa foi a vez em que chegamos mais perto de conseguir uma estatueta de Melhor Filme Internacional, mas graças a direita, nos lascamos mais uma vez.

Passada essa indignação que senti quando pesquisei a história do filme, Aquarius se tornou um lugar de desconforto pra mim. Era um filme muito bom, mas também era muito denso. Era um estudo de personagem cheio de camadas, não só sobre uma pessoa, mas sobre um prédio, uma classe social, uma região e diversas outras coisas. Aquarius era sobre o Brasil. Um recorte micro e macro ao mesmo tempo. Tinha uma fotografia de tirar o fôlego, atuações incrivelmente naturais e uma trilha sonora de cair o queixo. Um filme que classifico como perfeito, porque a cada vez que reassisto, descubro algo novo.

É muito raro ver um diretor alcançando tamanha qualidade logo no seu segundo filme, e o KMF conseguiu com isso. Bacurau não é nem de longe ruim, mas não chega a ser tão bom e coeso quanto esse daqui. Não que eu rivalize os filmes, pra mim toda a filmografia do KMF é incrível e cada filme tem seus defeitos e qualidades. Agora, Aquarius pra mim é de uma qualidade transcendental. É um filme que me faz ter ORGULHO de ser brasileiro (assim como Bacurau, tá? Sem polêmica!) e que me fez criar gosto pela nossa indústria.

Porque desde pequenos somos bombardeados com cultura estadunidense a um ponto de rejeitar o que nós mesmo produzimos. É aquela velha síndrome de vira-lata que muita gente se recusa a admitir que tem. Eu tinha e admito, mas foi com Aquarius que reconheci o quão ignorante era esse argumento. O Brasil é um país incrível, com décadas de trabalho e cultura que merecem ser vistos e estudados. O KMF mistura tudo isso e desperta esse interesse no espectador junto com diversas outras reflexões. E é isso que me faz achar ele um cineasta incrível, do tipo “eu quero ser ele quando crescer”.

E é injusto que desses 10 filmes só um seja nacional, mas eu seria incoerente de criar um top 10 de filmes que mais tenho ligação e negar meu bombardeio de cultura americana. Bombardeio que foi importantíssimo pro meu crescimento, mas que não precisa ser meu lugar de pertencimento. Foi através de filmes americanos que peguei gosto pelo cinema nacional, japonês, coreano e diversos outros países. Porque o que importa é o cinema em si e a arte que é gerada por cada artista que tem algo a dizer nesse mundo. A mensagem é que precisa valer a pena. E pra mim todos os filmes que estão aqui tem algo a dizer. Pode não ser pra você, mas foi pra mim quando eu os vi pela primeira vez. Foram filmes que me fizeram ser quem eu sou hoje. Claro que muitos ficaram de fora, mas essa é a parte ruim de elaborar um top 10. Sempre vai faltar algo.

Agora eu que pergunto, qual é o seu filme favorito de você? Deixe aí nos comentários junto com a história e a justificativa, porque só assim dá pra conhecer quem foi o louco ou louca que chegou até o final desse texto.

Muito obrigado e até o próximo!

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