V V Brown (fonte: renownedforsound.com)

Eu sou daquelas pessoas que tem múltiplos gostos, em qualquer área da vida. Seja relacionado a música, a filmes e séries, a leitura; basicamente eu tenho potencial para me interessar por qualquer coisa. Acho que até por isso eu me identifiquei com a área de design. As suas multi e interdisciplinaridades encontraram um lugar quentinho no meu coração. Talvez eu seja aquela pessoa que os outros gostam de chamar de eclética. O que eu nunca entendi é que a palavra sempre foi associada àquele que gosta de “coisa ruim” porque gosta de qualquer coisa. Aquele que se diverte ao som de Molejo, canta com o Pearl Jam, rebola com a Mc Carol mas também é fã daquele cantor que usa maquiagem de glitter na cara enquanto dança no meio de um deserto de areia cor de rosa. Ah, e não esqueçamos os concertos de música erudita na madrugada da Tv Cultura.

Mas é disso tudo mesmo que eu gosto e mais um pouco. E estou muito feliz com isso. Quando eu saí daquela fase adolescente escrota que se achava melhor do que os outros por ter orgulho de dizer “não gosto de pagode nem de funk” — mesmo tendo crescido ouvindo tudo isso — foi quase uma libertação. Me abri para a pesquisa, para o procurar sempre algo novo para ouvir e à primeiridade que cada música desconhecida me trazia. E o melhor é quando, depois de muito tempo em novidade, volto àquelas músicas que haviam sido esquecidas e que hoje me soam como boas lembranças.


Mas o que vim falar na verdade, com tudo isso, é sobre um exercício de pesquisa musical que tenho feito: a procura por artistas negros. Pode parecer um tanto estranho (para quem é branco) esse tipo de especificidade, já que geralmente procuramos algo para ouvir baseados em estilos ou pela vibe do nosso dia. Começou como um exercício racionalizado quando me deparei que me recordava de pouquíssimos nomes negros, comparados ao número de artistas brancos que conhecia. Quando também eu me dei conta que a maioria dos negros e negras que eu conhecia na música só tocavam “música de preto”, não saiam do círculo samba-funk-axé-rap-jazz-soul e derivados. Será que existiam negros tocando sei lá, anarcopunk? Eletroclash? Aquela vertente mais obscura da música eletrônica que eu nem sei pronunciar o nome? Pensando nisso agora, me parece bastante ridículo esse meu questionamento inicial. Mas é que junto com esse, outros questionamentos começaram a aparecer:

Se esses artistas negros e negras existem, por que eles não chegam até mim?

Shamir (fonte: www.buro247.com)

Por que quando eu imagino aquela figurinha da banda hipster que dança num deserto de areia cor de rosa com maquiagem de glitter na cara a imagem mental que me aparece é a de uma pessoa branca e magra?

Bem, acho que estamos cansados de saber o quanto o mundo é racista. A mídia é racista, o mercado é racista, toda e qualquer relação social é potencialmente racista quando estamos sujeitos aos discursos construídos por grupos raciais hegemônicos. Então, na real, não é difícil responder a estas perguntas. O que é difícil mesmo é todo o caminho que fazemos até o momento do questionamento, até o momento que nosso chão se abre, até o momento que nossa cabeça explode ao percebermos que nunca percebemos uma coisa tão descarada, que de tão óbvia sentimos raiva de nós mesmos. De nunca termos ido atrás, de termos perdido tanto tempo trepando ao som de Portishead mas, provavelmente, termos muito menos ouvido falar no nome de Nicolette.

E é tão irônico pensar que um dos estereótipos para o negro é o do “negro cantor” e do “negro dançarino”.

Mas aquele cantor de estilos específicos, dançarino de estilos específicos. Das rodas de samba, do fundo daquele barzinho obscuro, das bundas e dos passos exóticos. Tudo no seu devido lugar.

Mas calma, se nos deixamos levar pela mídia racista as consequências ainda são reversíveis, por pior o estrago que tenha sido feito e por mais duro que seja esse caminho. E o que minha pesquisa revelou é que sim, existem esses artistas. E eles são divinos! E aquele exercício que começou racionalizado, agora virou natural, fluído e incrível, porque eu consegui perceber e entender a riqueza e a beleza da música negra fora do círculo, e com isso entender e admirar muito mais a que está dentro dele.


Queria deixar aqui alguns artistas negros que tenho encontrado por aí e ouvido até enjoar, e que você pode encontrar clicando neste outro link aqui.