Xênia França e a banda Aláfia (Créditos: Divulgação)

A minha pesquisa pessoal pela música negra| pt. 2

Fique a vontade para ler a pt. 1 deste texto aqui.


Por mais dolorido que seja o caminho, nos vermos nos que fazem diferente, nos que fazem aquilo que sonhamos fazer importa. E é por isso que gostaria de deixar aqui uma lista de alguns artistas negros que estão um pouco fora daqueles estilos musicais que o racismo insiste em associar diretamente a nossos corpos, como citei no texto anterior. Não pretende ser uma lista de “melhores” mas apenas as minhas descobertas pessoais mais recentes e que andam no meu replay há algum tempo. Dessa vez eu não dei prioridade para as mulheres negras, mas prometo que faço uma lista só para elas (a nós).

  1. Nicolette

Citei a Nicolette no texto anterior fazendo um paralelo com Portishead. É que para quem curte trip hop provavelmente já deve ter ouvido a voz maravilhosa dela nas faixas “Sly” e “Three” no álbum Protection do Massive Atack — que tem o Tricky como vocalista, também negro mas muito mais conhecido pela popularidade da banda. Um som forte, político e bastante singular.

2. Shamir

Eu tenho uma playlist de músicas dançantes no Spotify e a vontade que eu tenho é de colocar todas as músicas de Shamir. Seus clipes são coloridos, divertidos e cheios de identidade negra e queer. Troquei a minha imagem mental da pessoa branca com glitter na cara do outro texto pela maravilhosidade de Shamir ❤ Foi difícil escolher uma música para indicar, então apenas ouçam todas!

3. Kele Okereke

Ou apenas Kele, é artista bastante conhecide por ser vocalista e guitarrista da banda indie Bloc Party, mas o que eu descobri a pouco tempo (falha minha) é que Kele mantém uma carreira solo desde 2010. Antes de estar mais consciente da minha identidade negra, foi uma das primeiras vezes que me deparei com a possibilidade e com a surpresa de uma pessoa negra estar a frente de uma banda (com todos os outros integrantes brancos). Como visibilidade e representatividade importam e muito, vale dizer que Kele é bissexual e algumas fontes descrevem sua identidade de gênero como queer. Seu último álbum Trick, saiu no fim do ano passado e conta com músicas tão introspectivas quanto sua personalidade.

4. VV Brown

O que eu mais gostei em VV Brown, além dessa voz capaz de abrir portais, são suas referências visuais. A mistura de um certo ar tradicional com o digital, ao Glitch (como o nome de seu último álbum). Futurista e afrofuturista.

5. Petite Noir

Petite Noir é o projeto do artista Yannick Ilunga, som que ele mesmo descreve como “noirwave”. Em entrevista para a revista Dazed ele conta: “It’s like new wave but with an African aesthetic” sobre a sua sonoridade singular. Já perdi a conta de quantas vezes escutei o álbum La Vie Est Belle/Life is Beautiful, e ainda estou longe de parar.

6. Spoek Mathambo

Pesado. É o adjetivo que mais me vem a cabeça quando ouço Control do sul-africano Spoek Mathambo. Ele conseguiu deixar essa versão de She’s Lost Control do Joy Division mais densa que a original. E o clipe tem uma fotografia incrível! Recomendo todo o álbum Mshini Wam e principalmente a música homônima. Pra mim, Afrofuturismo em seus melhores exemplos.

7. Mahmundi

Eu sou apaixonada por Mahmundi. Ela perpassa por vários ritmos, entre eletrônico, MPB, indie numa mistura linda, pessoal e as vezes introspectiva e um pouco saudosista com o pop/rock nacional dos anos 80. Torcendo para cada vez mais pessoas conhecerem essa artista linda com um trabalho lindo.

9. Pyramid Vritra

Acho que deu pra perceber que apesar da minha ecleticidade, eu gosto muito de músicas densas. Encontrei Pyramid Vritra meio sem querer e confesso que não é uma música para se ouvir em qualquer hora ou em qualquer lugar. Para mim é uma música de imersão, um rap experimental bastante profundo para ouvir com uma atenção dedicada.

10. Aláfia

Aláfia é daquelas bandas que você decora e, mais do que canta, entoa cada uma das músicas. Tem som de pertencimento, de enfrentamento e de afirmação de nossa identidade. E tem como uma dos vocalistas (única mulher na banda) a rainha Xênia França, que deu uma entrevista muito bacana para o site Risca Faca e que abre o título deste texto com toda sua beleza.

Bônus: Liniker

Provavelmente você já conhece, porque essa semana explodiu uma fascinação coletiva pelas músicas de Liniker. E mesmo tendo ouvido muito pouco ainda, a admiração foi instantânea. Conheçamos juntos esta lindeza!

Como a pesquisa não pode acabar, queria deixar também três sites bacanas que me trazem sempre ótimos artistas negros para explorar. São eles:

  • Afropunk: site já bem conhecido dedicado a divulgar o Afropunk Fest, que acontece principalmente nos EUA, mas que traz o ano inteiro novidades da música e da produção negra em geral. O Afropunk é tão icônico, que se elevou a sinônimo de estilo de vida próprio. Em inglês.
  • OkayAfrica: Neste site dá para encontrar música e produção cultural negra, principalmente relacionada a países do continente africano. Ótimo para sairmos além do circuito embranquecido, também daquele circuito EUA-Europa. Em inglês.
  • Super.Selected.: É uma revista online dedicada a moda para a mulher negra. Apesar do foco na moda, traz artigos de assuntos gerais, incluindo aí a ótima sessão de música organizada por categorias. Em inglês.

Fico por aqui, por enquanto, esperando que esta pequeníssima parcela de artistas negros possa apenas iniciar a pesquisa pessoal de cada um. E que continuemos questionando os espaços que relegam a nossos corpos negros e que ocupemos cada vez mais aqueles a que temos direito.