Dois meses de home office e uma experiência para uma vida inteira

Sempre vejo textos por aí, ou elevando o home office a condição de uma das mil maravilhas do mundo atual, ou então destruindo todas as expectativas dos pobres assalariados de ter condições de trabalho mais humanas ao migrar para este categoria de trabalho. Como dizem por aí, é sempre oito ou oitenta. Em apenas dois meses neste esquema eu já pude perceber que não é nem um nem outro, mas sim uma experiência bastante diferenciada e individual.
Eu não posso dormir a hora que eu quiser do meu dia. Eu não posso trabalhar sempre de pijamas e, eu não consigo sempre fazer mais que 1 hora de almoço (as vezes faço menos do que isso). Eu preciso calcular dentro do meu tempo de trabalho, se eu preciso sair para ir ao mercado, o que eu preciso fazer de almoço e dinheiro, esse nem sempre tenho a mão para eu poder comer fora quando o dia está um caos. Ou seja, tudo deve ser muito bem planejado. Coisa que, sinceramente, ainda estou aprendendo e me adaptando.
Um dos problemas que mais venho encontrando neste percurso é a dificuldade de alguns clientes entenderem que não é só porque seu escritório/estúdio/ateliê/outros se encontra em um cômodo da sua casa, que você não tem um horário fixo de trabalho. Ou pior, que você trabalha 24 horas em todos os 7 dias da semana. Hoje por exemplo, é um sábado. Recebi a ligação de uma cliente logo de manhã cobrando mensagens não visualizadas que foram enviadas depois das 18hs do dia anterior. Ou seja, ela não considerou nem por um momento que ontem, depois das 18hs de uma sexta-feira eu tenha, porventura, encerrado meu expediente e saído para comer alguma coisa depois de um dia inteiro de trabalho. Aí você se pergunta: “como você está aqui escrevendo este texto, se você deveria estar trabalhando neste momento?” E nesta eu te respondo. Pirraça. Vingança mental. Um pouco de imaturidade profissional, talvez. Mas eu prefiro pensar que é apenas um momento de aproveitamento das oportunidades que meu modelo de trabalho próprio me permite. Afinal, eu entrei nesta exatamente para ter mais controle sobre as minhas escolhas profissionais, mesmo que delas eu ainda não fique totalmente a salvo da exploração.
Este trabalho que cito, é de longe um dos piores que já me deparei na vida. Mas, como minha mãe me disse, ela servirá ao menos para aprender como levar meu trabalho de uma maneira melhor daqui para frente.
Sinceramente, não gosto muito de textos que enumeram coisas a serem ou não feitas, assim ou assado. Mas vou aproveitar desta dinâmica de listas por um momento para registrar alguns dos mais poderosos mantras eu vou levar comigo depois desta experiência terrível.
Deixe bem claro para seu cliente o seu horário de trabalho
Se você trabalha das 8hs-18hs, se das 10hs-20hs, se trabalha de madrugada, ao domingos e feriados, não interessa. É importante que seu cliente saiba seus horários para que ele se mantenha em contato apenas dentro dos horários estipulados e te cobre apenas de serviços que não foram prestados levando em consideração o seu turno. Eu, particularmente, gosto de trabalhar no “horário comercial” já que quase tudo se baseia nele. Se preciso sair para resolver pendências bancárias, ou encontrar alguma loja aberta para comprar aquele material que falta eu consigo mais facilmente. Independente disso, não caia na cilada de trabalhar em horários de descanso simplesmente por que o cliente não para de te cobrar e não te respeita. Respeite-se a si mesmo.
Crie uma “cultura de comunicação” com seu cliente
Escolha por quais meios o cliente pode se comunicar com você e indique os termos. Eu por exemplo, gosto de me comunicar por e-mail. É mais prático, todo mundo que procura meus serviços têm acesso, eu já consigo ter as informações de que preciso registradas em um único lugar. Além disso, para o meu caso, facilita o envio e recebimento de arquivos ou links para downloads. Muita gente, por exemplo, gosta de usar aplicativos de conversa como Whatsapp ou Telegram. Eu detesto! Mas muitos clientes insistem nisso. Ao meu ver, esse tipo de comunicação te deixa exposto a cobranças do tipo que o cliente citado mais acima me fez: “você não visualizou a mensagem desde ontem a tal horário então eu resolvi vir aqui te cobrar por telefone”. Imponha-se e mais uma vez, crie limites. >> [lembrete para mudar algumas configurações do meu aplicativo]
Não trate seu cliente como um amigo
A não ser que ele seja seu amigo de verdade. Se for, aproveite para ser o mais sincero possível com ele sobre seu modelo de trabalho. Das poucas vezes que caí no erro de tratar meu cliente de maneira informal demais, acabei fazendo muito mais do que o contrato abrangia e o tempo e energias gastas com o projeto não compensaram o valores cobrados. Se seu cliente te vê como “amigão” é um pulo para ele pedir muito mais do que combinado, como “um favorzinho”, ou uma “ajudinha” e, fatalmente, quando você se recusar pode ser visto como anti profissional, ou “mercenário”, ou o insulto a sua escolha.
Explicite seu cronograma e seu compromisso com outros clientes, quando for necessário
Deixe claro para seu cliente que ele não é seu único, e que seu tempo é dividido entre outros compromissos. As reuniões não podem ser apenas na hora que ele quer mas sim quando ambos estão disponíveis. Não permita que ele te monopolize e você acabe se tornando irresponsável com outros clientes por querer atender alguns caprichos.
Considere sempre os custos de locomoção e acompanhamento de etapas as quais você não foi contratado
Não faça nada como um favor, mas considere os custos de tudo o que você vai fazer, mesmo que eles apareçam depois do orçamento inicial ter sido fechado. Diga a seu cliente que aquela atividade não constava dos serviços e que deverá ser acrescida. Pode parecer um pouco duro demais, mas o seu cliente vai sempre pensar duas ou três vezes antes de pedir que você se locomova até tal lugar do outro lado da cidade, apenas para tratar de um assunto que seria facilmente resolvido por e-mail ou com um telefonema.
Seja firme, mas não seja desrespeitoso
Mantenha-se firme, profissional. Mas tudo que é desagradável pode ser dito de maneira respeitosa. Isso é claro, se seu cliente se manter respeitoso também com você. Do contrário, não garanto nada.
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Fora isso, aproveite as vantagens que o home office pode te trazer, explore diversos modelos e formas de trabalhar. Como eu disse lá em cima, é uma experiência individual, então não leve como verdade única qualquer texto como esse meu que te diga o que e como fazer. Use o depoimento de outros apenas para refletir sobre as mil possibilidades. Estes são meus mantras, crie os seus próprios. Ah, e tire uma soneca ou adiante algum episódio daquela sua série favorita quando seu cronograma te permitir. Como a Internet adora repetir: “se organizar direitinho…”