Sobre ser mulher e não ter cabelos

Este texto foi originalmente publicado no meu Tumblr e resolvi agora colocar aqui também, com algumas modificações. Há algumas semanas atrás li na newsletter da escritora Aline Valek (alô de novo, Aline!) um texto onde ela contava sobre sua experiência de ter raspado o cabelo. Esse é um assunto que eu há muito tempo também sentia vontade de abordar, então lá vai:


Acho que, salvo exceções, a decisão de uma mulher (cisgênero, porque é como eu me identifico) em raspar o cabelo é um marco em sua vida. É óbvio e não é surpresa para ninguém que minimamente presta atenção no mundo ao seu redor, que o cabelo é um dos, senão o maior, símbolo de feminilidade nesse raio de mundo louco. É praticamente um atestado: quanto maior é seu cabelo, maior deve ser seu apego ao padrão de mulher ideal. Pode ser que você não almeje ou nem pense nisso, ou como a maioria de nós, esteja bem longe desse padrão. Um grupo, seja ele seu círculo de amizades ou a Sociedade como um todo vai te colocar dentro de rótulos e estereótipos bastante delimitados, mesmo que as vezes a nossa intenção seja fugir deles. Dito isso, já dá pra imaginar o quanto essa decisão que é totalmente individual, mexe não só com a visão que temos sobre nós mesmos como com a visão que o outro tem de nós (e que geralmente são incompatíveis).

Mas tá então, qual o real motivo de cada vez mais mulheres rasparem os cabelos? São muitos: por motivos estéticos (sim, por mais que você não aceite mulheres podem se sentir bonitas sim sem cabelo); para tentar desconstruir valores de feminilidade que não estão de acordo com o que acreditam; ou, se você é negra como eu e alisava o cabelo, para passar pela transição capilar (o chamado Big Chop, retira toda a parte com química do cabelo rumo à textura natural dos fios). Aliás, isso é uma coisa engraçada nas pessoas negras que encontro por aí: tenho a impressão de que por me verem careca elas pensam que eu estou num processo de transição capilar eterno, e que de quinze em quinze dias eu faço um big chop. A maior ironia é que eu nunca fiz química com a intenção de alisar, ou mudar a textura dos meus cabelos em minha vida (eu fiz chapinha uma vez, mas isso é outra história).

Quer ironia maior ainda? Eu nunca nem escolhi raspar a cabeça.

É, eu não escolhi raspar o cabelo da primeira vez que o fiz. O câncer e a quimioterapia decidiram que eu deveria ficar sem cabelos. Apesar de ter vindo de brinde junto com um tratamento que me deixou bagunçada das mais diversas maneiras, eu aprendi muita coisa nos 9 meses que fiquei praticamente sem sair de casa. Ficar sem cabelo não foi de longe a pior das coisas que me aconteceu. Pelo contrário, ficar sem cabelo foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Todo este tempo livre me deu oportunidade de ler, me aproximar de muitas coisas e pensar sobre muitas coisas, de me conhecer das mais diversas maneiras, de construir novas visões sobre meu próprio corpo.

Cara pálida e inchada do fim do tratamento com os cabelos já começando a crescer. Me candidatando pra uma banda punk feminista

Eu nunca fui uma pessoa próxima a padrões estéticos. Tirando o fato de ter sido sempre magra a vida inteira (coisa que me fez ignorar ter perdido 6 quilos antes de descobrir que estava doente), eu não sou uma pessoa que é “bonita” dentro do que a sociedade espera. Depois de uma época, na adolescência, que eu corri muito para estar dentro destes padrões, eu resolvi assumir que nunca estarei dentro deles (na verdade quase ninguém no mundo).

Nunca estarei e hoje não quero mais estar. Gosto de ser “estranha”.

Toda vez que raspo meus cabelos eu me sinto renovada de alguma maneira. É um ato de assumir-se e reassumir-se na linha de frente das minhas escolhas, do meu corpo. É desconstruir as noções de beleza que ninguém alcança e das quais não precisamos alcançar. Desconstruir minhas noções de gênero, de ser mulher cis e até gostar de as vezes não “parecer ser uma mulher”. Desconstruir a importância que o olhar dos outros têm sobre mim e o quanto isso me influencia. Desconstruir os rótulos que grudam na nossa testa por agirmos assim ou assado, vestirmos isso ou aquilo.

Não vou dizer que estou sempre 100% do tempo satisfeita comigo mesma. Vez ou outra ainda desejo ser alguém dentro da noção de “normalidade”, não ser de certa maneira um tanto estranha. Isso me demanda muita energia e me faz sentir a maior parte do tempo cansada. Dependendo do meu estado de espírito, me chateia muito o fato do meu pai me perguntar quase toda vez que nos encontramos quando vou deixar o cabelo crescer, ou quando as pessoas se espantam por eu ter raspado o cabelo novamente. Bem, se eu quero manter o corte, nada mais lógico que eu faça o que deva ser feito para isso.

O problema é que as pessoas nunca esperam que você queira, ou goste de ser careca por muito tempo, se ache bonita sendo careca. Para elas esta sempre vai ser uma fase em que você esteve um pouco rebelde, e que hora ou outra você vai se arrepender e se render aos longos cabelos esvoaçantes novamente. Afinal, ninguém faz o mesmo tipo de perguntas para homens, porque deles já é esperado que mantenham os cabelos curtos ou raspados.

Mas a verdade é que eu nunca em tempo algum me senti tão bonita, e o que é melhor, com base nas referências de ser eu mesma e não de ser um outro que nunca serei.