Visitas indesejáveis

são tantos defeitos ;(

Fiz este desenho em um daqueles momentos em que se não pararmos para rabiscar qualquer coisa numa tela ou numa folha de papel temos a sensação de que iremos explodir. Acontece muito com quem desenha, acontece com a escrita com quem escreve, acho que acontece com todo mundo quando temos algo que gostamos muito de fazer. No meu caso, a ansiedade toma conta de mim dizendo que eu devia parar de arrastar aquela tarefa insuportável que eu estava só fingindo me dedicar. Comecei a rabiscar feliz este desenho e em dois segundos toda a minha falta de habilidade, e todos os anos que deixei de me dedicar ao desenho foram jogados feito um pedaço de rocha na minha cabeça, com toda a força, fazendo aquele barulho seco que geralmente fazem com que cabecinhas se virem para ver o que diabos aconteceu.

No primeiro traço que não saiu como eu esperava comecei a tremer. Não só as minhas mãos, mas a perna já estava tremendo antes mesmo de abrir o software. A necessidade de desenhar ainda estava lá cutucando o lado direito do meu cérebro, enquanto o lado esquerdo gritava o quanto eu era medíocre, que eu jamais chegaria a lugar algum. Como já estou acostumada com estes pensamentos um tanto destruidores de auto estima, tentei me concentrar e deixar a mão fluir. Os traços saíram tremidos, mais grossos do que eu gostaria e o todo do desenho revela todas as minhas falhas técnicas e toda minha instabilidade emocional. Apesar de tudo eu gostei. Gostei, porque mesmo que a cada traço eu ficasse com vontade de ver a minha pen tablet se desfazer em pedaços na parede, eu consegui terminar o meu desenho. Porque, para mim, na maioria das vezes, terminar qualquer coisa é incrivelmente difícil. Existem muitos motivos pra isso, e quase todos eles têm origem na minha ansiedade não diagnosticada (mas diariamente sentida) que é constantemente alimentada com as mais variadas porcarias.

Uma dessas porcarias, tão pegajosa como a mancha de gordura que de repente aparece naquele documento importante — geralmente quando resolvemos desafiar Murphy ao comer uma coxinha enquanto trabalhamos ao mesmo tempo — é a cobrança pessoal. Lembro de bem cedo começar a me cobrar a ser sempre a melhor naquilo que fazia. As melhoras notas, a melhor da sala, a melhor amiga, e por muito tempo a melhor companheira. E é claro, comecei também a me frustrar porque isso nem sempre acontecia.

Já considerei a possibilidade da minha cobrança pessoal ser consequência de machismo e/ou de racismo — ainda mais quando eu a conecto com alguns episódios específicos da minha vida — , mas ainda não cheguei a qualquer conclusão. Talvez seja isso o que o blog Lugar de Mulher tenha querido dizer sobre se sentir uma fraude. É um sentimento que muitas mulheres podem experimentar, se for mulher e negra ainda, assim como eu, botemos mais uma dose extra.

Mas agora, pessoalmente, me interessa muito menos saber de onde ela saiu, mas sim o que ela me deixou de herança e o que eu vou fazer com ela. Não por que não é importante mas porque, na minha vida, é mais urgente. Apesar disso, uma coisa que eu sei com toda certeza é que o mundo é uma grande latrina com uma descarga que funciona muito mal (e as vezes não funciona de jeito nenhum). Pra muita gente algumas opressões são reais e têm se mostrado de uma maneira mais explícita do que talvez tenha sido pra mim. Entender a origem de algumas coisas é importante para não deixarmos acontecer com outras pessoas.

Desculpem a minha visão assim, um tanto negativa e desesperançosa do mundo. Acho que essa é a maneira bem torta que encontrei de evitar mais frustrações do que as que eu já tenho. Por que cobrar-se tanto e frustrar-se com cada mínima coisa que se faça é bastante cansativo.

Pensando bem, na real eu acho que pouquíssimas vezes eu realmente fiz algo muito muito mal feito. Eu não me permito, não é? Como eu disse no início deste texto, uma das piores coisas que me acomete, muito pior do que fazer algo mal feito é o ímpeto de antecipar a frustração e o sentimento de fraude e sequer começar aquela tarefa. Por isso, eu sou uma das maiores procrastinadoras que eu conheço. O que claro, me faz muito mal, já que ou estou sempre trabalhando sob pressão para entregar tudo no prazo, ou eu abuso da boa vontade das pessoas que esperam pacientemente eu conseguir terminar aquela tarefa — tenho que considerar que neste ponto eu sou muito sortuda, porque até hoje nunca tive um problema muito grave com esses constantes atrasos.

Essa procrastinação, consequência da frustração que virá, não me permitiu aprofundar em diversas coisas que eu gosto muito. Eu desenho desde muito cedo, mas por evitar treinar técnicas de desenho estou ainda muito longe do meu ideal. No meu trabalho, eu sou sempre adepta a gambiarras e nunca em aprender aquele comando no software de uma maneira que vá resolver muitas dificuldades futuras. Eu comecei a fazer natação há algumas semanas e por ter um tempo de aprendizado diferente de outros alunos minha vontade é de desaparecer por algum cano abaixo. Enfim, tudo que eu faço ou preciso fazer exige um esforço imenso e inimaginável para que eu simplesmente não desista daquela tarefa.

ô de casa!

Eu tenho tentado me obrigar a encarar certas coisas. Mais do que a apenas fazê-las, mas a racionalizar que, querendo ou não, a frustração vai chegar . Assim, quando eu avistar a silhueta dela ainda bem longe eu já consiga gritar pela janela: “você não devia nem tá aqui, linda!”. Claro, ela vai ficar ali rondando, insistente como sei que é, tentando chegar perto. Quem sabe de vez em quando, eu mesma possa convidá-la para um café com leite comigo. O mais importante é que ela deve ser sempre uma visita passageira, ou que eu tenha coragem de dizer, as vezes, que naquele dia estou indisposta para visitas. Assim ela aprende a respeitar meu espaço, meu próprio tempo e a ligar avisando com antecedência que por volta de tal hora ela pode tocar a minha campainha.

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