Acaso

As luzes piscavam enquanto o trem alternava entre os trilhos subterrâneos. O barulho alto de aço contra aço incomodava a todos os passageiros, precisavam dar manutenção aquele trem o quanto antes.

Bia dormia apoiada em sua mão encostada na janela. Nem mesmo a muvuca dos passageiros ansiosos por saírem do vagão e chegar primeiro a escada, como numa disputa de corrida quando se é criança, com a sutil diferença que ali ninguém brincava, conseguiu desperte-la. Passados 10 segundos da abertura das portas, era quase impossível imaginar que sua vez chegaria para subir as escadas em direção à saída.

Um rapaz alto cutucou-a levemente no ombro avisando da chegada ao terminal e saiu em disparada na disputa do primeiro lugar nessa edição da corrida de escada rolante. Ainda sem entender exatamente o que acontecia, ela agradeceu as costas daquela gentil pessoa enquanto se levantava. Caso não acordasse, estaria perdida em alguma estação longe de casa, tempos depois.

O metrô constantemente com problemas tinha se tornado um estorvo em sua rotina. Com tempo de parada cada vez maior e velocidade reduzida graças as frequentes falhas nas máquinas, tornou-se rotineiro que levasse duas ou mais horas até chegar em casa. Seus cochilos ficaram intensos já sabendo do tempo de viagem infinito.

No alto da escada percebeu que havia esquecido seu caderno de anotações dentro do trem.

Tarde demais.

O trem que partira há no mínimo 10 minutos levou todas suas anotações e poemas de um ano inteiro. Quis chorar de raiva. E chorou.


Assim que entrou no vagão Clarice avistou o caderno amarelo surrado no canto do banco. Sentou-se e abriu a caderneta em busca de alguma possível identificação do dono. Talvez aquele “B” delicadamente desenhado na primeira página indicasse a inicial da pessoa que o perdera. A julgar pelo aspecto das letras acreditou ser de uma mulher. Folheou rapidamente as páginas e percebeu que ali se encontravam diversos textos, pelo formato, poesias.

Sentindo-se culpada pela invasão, mas repleta de curiosidade, começou a ler. Não parou mais. Queria muito encontrar o responsável por aqueles escritos. Foi à viagem mais prazerosa que fizera em meses.

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