Meu período sabático — decisão
Decidi fazer dos próximos dois anos meu período sabático. A ideia, na verdade, nem sempre foi essa. O plano de ingressar no mestrado em 2017 teve início antes mesmo de me formar na graduação. Claro que não pensava em 2017 em si, mas em um futuro próximo. Já no início do meu curso de Letras, em conversas com meus colegas da FALE/UFMG, eu sempre dizia que queria ter uma experiência profissional antes de ingressar no mestrado, porque, para mim, seguir a carreira acadêmica sempre foi um caminho sem volta, ou seja, um caminho que tomaria e que não abriria mão depois de um período. Mas para seguir esse caminho, eu queria antes ter uma experiência diferente no mercado de trabalho, como profissional da minha área e não como professora universitária. Essa vivência na área — seja como revisora, seja como tradutora — sempre foi para mim essencial para que, futuramente, eu pudesse passar um pouco aos meus alunos do que vivi, do caminho que segui e que existem possibilidades além daquela de emendar graduação-mestrado-doutorado.
Meu plano era esse, sem saber muito bem como funcionaria, sem ter consciência da minha imaturidade naquele período e sem vislumbrar as dificuldades que é mudar o rumo da carreira assim, mesmo dentro da mesma área. Mas enfim… Mal defendi minha monografia em 2013 e, menos de um mês depois, já fui contratada CLT como revisora de textos em uma empresa pequena, relativamente perto da casa da minha mãe e que, posteriormente, seria ao lado da minha casa. Depois que me casei, em setembro de 2014, eu ia e voltava do trabalho a pé, almoçava em casa, passeava com meu cachorro e ainda cochilava antes de voltar para o turno da tarde. Tudo isso sem pegar trânsito e garantindo minha atividade física diária. Mas esse era meu primeiro emprego, que me possibilitou inclusive arcar financeiramente com uma especialização nessa área, o que para mim foi ótimo, pois me dediquei à minha atuação profissional cursando uma especialização condizente com minhas atividades diárias.
Esse foi um período incrível para mim, de muito aprendizado e de muita motivação. E essa motivação foi tanta que desejei mudar de empresa em busca de um maior reconhecimento profissional. Em fevereiro de 2015, pedi demissão do meu primeiro emprego e comecei a trabalhar em uma empresa maior, infinitamente mais longe de casa (preciso pegar dois ônibus para ir ao trabalho) e que prometia tudo que eu desejava. Mas com o tempo, percebi que o problema não estava com a empresa antiga,muito menos com a nova, mas com o ritmo de trabalho em escritório que, para mim, é muito desgastante e eu não gosto desse tipo de rotina em que o companheiro de trabalho mais próximo é um computador. Eu gosto de ser revisora, gosto da certeza de que não sei tudo de gramática e de ortografia, mas gosto ainda mais de saber como pesquisar tudo o que preciso para exercer minha função, que aliás me paga muito melhor como freela do que como contratada. Eu gosto de sair de casa para trabalhar, gosto do meu trabalho atual e da empresa, mas percebi que não quero passar a vida fazendo somente o que faço hoje. Eu sinto falta de lidar diretamente com pessoas. Aquele plano inocentemente elaborado por mim na graduação parece fazer sentido agora, e a forma de o executar também, mesmo que o resultado final seja bem diferente do imaginado.
Antes, eu não tinha muita ideia de como teria uma experiência profissional pré-mestrado. Hoje eu sei que manter uma jornada de 44h semanais e um mestrado são incompatíveis, e que não há flexibilidade de horário capaz de lidar com isso. Com a exigência de cursar 8 créditos semestrais (equivalente a duas disciplinas por semestre, ou seja, passar duas tardes que seriam de trabalho em uma sala de aula), publicar artigos e participar de congressos, participar de estágio de docência na graduação e escrever a dissertação, essas 44h semanais exigidas pelo empregador parecem ser, também, exigidas pelo mestrado. Como o dia ainda possui apenas 24h, a matemática nesse caso fica evidente até para mim que sou formada em Letras: algum dos dois vai sair perdendo, e é preciso decidir qual. Sei que tem muita gente se consegue conciliar e que para essas pessoas dá tudo certo. Só tenho a dizer “meus parabéns” e seguir com o que acho melhor para mim.
Depois de muito refletir, decidi que tiraria o período do mestrado como sabático. É uma escolha que estou fazendo e que muitos não entendem por acharem que ficarei à toa, por conta de Netflix e de ler um livro ou outro. Mas o que tem por trás da minha decisão são meses de preparo e planejamento, tanto financeiro, para conseguir me manter nesses quase dois anos sem carteira assinada, quanto de uso do meu tempo, quando não tiver mais a obrigação de 44h semanais com uma empresa. O que vejo em tudo isso é que terei o tempo que preciso para cursar um mestrado com excelência, terminar meus estudos de francês que pararam na minha graduação, poder me dedicar aos trabalhos de freela que eventualmente aparecerem, aos estágios de docência, aos passeios com meu cachorro, às caminhadas matinais, às leituras vespertinas… É inacreditável o que se pode fazer quando o tempo não é todo consumido com o trânsito e com um dia de trabalho em empresa, que todos nós sabemos que nem sempre é de tanto trabalho assim e que costumam haver períodos bem ociosos que parecem consumir mais nossa energia do que os de pico de trabalho.
Cada real guardado, para mim, representa o alívio de ter a própria carreira nas mãos, sem me deixar levar pelo estresse e pelo desespero de ver que a vida em uma empresa nem sempre caminha a passos largos como nossos sonhos. Às vezes, nem caminha. Em alguns momentos da vida profissional, precisamos decidir e planejar o que é melhor para nossas vidas, e não o que convém aos outros. É preciso retomar também aquele espírito de calouro, que quer chegar ao topo sem ter muita ideia de como; mas segundo a minha experiência até agora, essa chegada é construída no dia a dia e é nele que traçamos nosso próprio caminho. Então, bora caminhar!