Borehá Juma foi separada da filha por suposta adoção


KÁTIA BRASIL, da agência Amazônia Real

DE CANUTAMA (AM) — A indígena Borehá Juma, 34 anos, tem quatro filhos do casamento com o Erowak Uru-eu-wau-wau, mas no fundo dos olhos ela tem uma tristeza que não passa: a saudade da primogênita adolescente de 16 anos.

A menina nasceu em 1998 de um relacionamento de Borehá com um pescador não indígena e morador da Vila Nossa Senhora do Carmo do Assuã, localidade vizinha da Terra Indígena Juma, no município de Canutama, sudoeste do Amazonas.

Borehá Juma afirma que, em 2006, entregou a garota para um casal de missionários da Jocum para que ela estudasse em Porto Velho, capital de Rondônia. Na ocasião, os Juma moravam na aldeia dos índios Uru-eu-wau-wau, na região do Alto Jamari, em Guajará-Mirim (RO).

A indígena diz que nunca mais viu a filha e negou ter autorizado a adoção dela ao casal de missionários.

A Jocum (Jovens com Uma Missão) é uma organização evangélica norte-americana que atua no Brasil desde 1975 e tem ações de religião e educação em várias comunidades indígenas da Amazônia.

Numa pesquisa na internet, a reportagem da agência Amazônia Real encontrou no site da 3ª. Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte (MG), um relato da adolescente e uma fotografia dela com o casal de missionários da Jocum, Dionéia e Luiz Freitas. Em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente, a foto não será publicada, assim como o nome da menina.

No relato, a garota diz que partiu da aldeia dos Uru-eu-wau-wau “aos dez anos porque estava tendo uma vida perigosa e não fazia parte daquela tribo”, mas não deixou claro se sofreu algum tipo de violência e se foi adotada legalmente.

“A única pessoa a quem eu pertencia era a minha mãe e eu não fazia parte daquela família, então eles podiam fazer qualquer coisa comigo. Os meus irmãos eram totalmente diferentes de mim, eram bem recebidos e bem cuidados, não tinham nenhum problema! Agora minha história foi transformada, moro com os missionários Luiz e Dionéia na Jocum em Porto Velho e sou muito feliz por estar aqui!”, afirma a adolescente.

A menina completou dez anos de idade em 2008. Naquele ano, segundo Borehá Juma, a adolescente já não estava mais com a família indígena.

Borehá com a filha em 1999 (Foto: Edmundo Peggion/ISA)

Borehá fala pouco o português. Para contar à reportagem da agência Amazônia Real o que aconteceu com a menina, a cacique Mandeí Juma fez a tradução do Tupi-Kagwahiva numa entrevista reservada e permitida apenas com gravação em áudio, que aconteceu no dia 20 de novembro último, na aldeia, em Canutama.

A indígena Borehá negou que a filha tenha sido gerada de uma violência sexual, conforme denunciou a Funai (Fundação Nacional do Índio), em 1998.

“Quando fiquei grávida dela, em 1998, os Juma viviam num completo abandono pela Funai. Nós morávamos na estrada. Ficávamos na ponte (da vila) 20 dias. Voltava para aldeia. A Funai dizia que a gente não podia se envolver com branco. O branco não me forçou, não teve violência. Eu gostei dele. Dessa relação nasceu minha filha, mas ele (o pescador) não quis a gente”, disse Borehá.

Grávida, Borehá casou-se com Erowak Uru-eu-wau-wau, em 1999. Eles foram morar na aldeia do povo dele no Alto Jamari, em Guajará Mirim (RO). “Erowak me aceitou assim, foi normal. Depois ela (a menina) cresceu e ficou com a gente até os oito anos de idade”, disse.

Borehá afirmou que, em 2006, aceitou que a menina estudasse com o casal de missionários da Jocum, Dionéia e Luiz Freitas, em Porto Velho.

“Eles conversavam muito na língua da gente no Alto Jamari e ensinaram as crianças a ler e escrever. Nós mandamos a menina para estudar com a Dionéia e o Luiz. Aí quando chegaram as férias, ela (a menina) não retornou mais para aldeia. Eu quero ela de volta.”, disse Borehá.

A indígena Mandeí Juma contou que, ainda em 2006, Borehá e Erowak Uru-eu-wau-wau foram procurar a garota na sede da Jocum, em Porto Velho.

“Nós fomos na Jocum para fazer uma visita para a menina. Aí o pessoal da Jocum disse que a menina não estava mais na escola. Nós esperamos, mas nada. Fomos para escola, e perguntamos sobre a menina. A professora disse que a criança estava na casa da Jocum”, disse.

A cacique Mandeí Juma afirmou que, depois de muita procura, conseguiu localizar, em 2007, e falar com o casal de missionários na sede da Jocum. Na ocasião, estava acompanhando Borehá e Erowak.

“Dionéia disse que não ia mostrar a criança, só na frente do advogado. Depois ela mentiu, dizendo que a menina ficou com medo de voltar para aldeia. Aí chegou um advogado. Ele fez minha irmã assinar um papel. Não sabemos como foi isso”, disse.

Segundo a cacique Mandeí Juma, a Funai sabe da situação da suposta adoção. “A última notícia que tivemos é que menina mora hoje nos Estados Unidos”, afirmou.

Em resposta à reportagem no dia 26 de dezembro, a Presidência da Funai, em Brasília, não explicou que medidas tomará sobre o caso da suposta adoção da filha de Borehá. Também não disse que se houve algum processo judicial de adoção ou se a garota foi entregue ao casal de missionários por alguma violência contra a menina.

Na nota enviada, a Funai disse que ouviu por telefone a cacique Mandeí e que ela deu outra versão à assessoria de imprensa sobre a situação da adolescente, diferente da entrevista concedida à agência Amazônia Real.

“Segundo Mandeí, há desentendimentos entre Borehá e seu marido Uru-eu-wau-wau, padrasto da menina, sobre a questão do retorno da menina para a aldeia. Mandeí não quis dar detalhes sobre os motivos, e disse apenas que um deles seria o acesso à educação que a garota tem em Porto Velho, onde reside”, disse a Funai.

Em entrevista à reportagem, o indigenista e consultor ambiental Leonardo Cruz Sousa afirmou que a Funai abriu um processo e tentou resgatar a menina do casal de missionários da Jocum, mas não obteve resultado da ação. Ele trabalhou pela ONG Kanindé com os índios Juma de 2007 a outubro de 2014,

“Nem Borehá e nem Erowak sabem ler e escrever, portanto, eles não poderiam autorizar a adoção da menina aos missionários. O processo da Funai nunca deu em nada, não se importaram muito, foi uma negligência com os Juma”, disse Leonardo Sousa.

O indigenista leu o relato da menina no site da 3ª. Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte (MG). Ele disse que há distorções em trechos do texto. “Algum missionário escreveu esse texto. Mesmo sendo uma criança indígena Uru-eu-wau-wau ou Juma nunca iria se referir a aldeia como tribo e nem a maloca, como oca, e nunca diria que, os invasores jogaram bombas, isso não tem a ver porque não aconteceu na história do povo Juma. Os invasores atiraram nos Juma”, afirmou.

Leonardo Sousa disse que estanhou a nota da Funai dizendo que “há desentendimentos entre Borehá e seu marido Erowak Uru-eu-wau-wau, padrasto da garota, sobre a questão do retorno da menina para a aldeia”.

“Acompanhei algumas vezes o Erowak procurando a menina. Ele a criou como uma filha. Ele tentava falar com a menina pelo telefone, mas o casal Dionéia e Luiz atendia as ligações e desligava. O desejo de Erowak e Borehá era levar a menina com eles para a terra Juma e lá viver juntos com todos os filhos. Eles não tiveram mais notícias da menina. A Polícia Federal e a Funai deveriam é proteger as crianças e evitar que caso de adoção ilegal ocorra com outros indígenas Juma”, disse afirmou Leonardo Cruz Sousa.

À agência Amazônia Real, o procurador do Ministério Público Federal no Amazonas, Fernando Merloto Soave, que responde pelo Ofício Povos Indígenas e Populações Tradicionais, disse que requisitará apuração do caso da suposta adoção da menina pelo casal de missionários da Jocum.

“Havendo provas das irregularidades, podemos acionar os meios judiciais. Existe uma ação civil pública tramitando na Subseção Judiciária de Volta Redonda contra a Jocum em razão de fatos semelhantes”, afirmou Fernando Soave, fazendo referência ao processo aberto no MPF do Amazonas para apurar a intermediação da Jocum numa adoção ilegal de um bebê da etnia Sateré-Mawé da Terra Indígena Andirá Marau, que fica na divisa do Amazonas com o Pará.

Segundo o processo, o bebê Sateré-Mawé foi retirado da mãe poucos dias após o nascimento, em 2011, e entregue a um casal de Volta Redonda (RJ) sob a justificativa de que a criança iria sofrer infanticídio.

A reportagem procurou por e-mail e telefone da ONG Jocum, em Porto Velho, o casal Dionéia e Luiz Freitas para este falar sobre as acusações de Borehá Juma, mas não obteve respostas até o fechamento desta matéria.

Representantes da Jocum em Manaus e em Porto Velho também foram procurados, mas não responderam as mensagens de telefones e de e-mails enviados.

Família de Borehá reunida no tapiri tradicional da aldeia (Foto: Odair Leal/AR)

Os índios Juma e Uru-eu-wau-wau são falantes do Tupi-Guarani e denominados Kagwahiva, povos que vivem no entorno da rodovia Transamazônica, na Amazônia Ocidental.

Os Juma estavam em risco de extinção até 1998 devido aos sucessivos massacres que sofreram na década de 60, doenças e violência de não indígenas.

Hoje, são considerados índios em alta vulnerabilidade social e cultural pela Funai (Fundação Nacional do Índio). Eles vivem numa terra demarcada de 38, 3 mil hectares em Canutama, no sudoeste do Amazonas.

O Relato da filha de Borehá no site da 3ª. Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte (MG)

* Transformando histórias — De lá daquela tribo

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“Os Uru Eu Wau Wau, de Rondônia, deixaram a outra tribo que se chamava Juma se juntar a eles, porque houve tragédia no Juma do estado do Amazonas. A causa de morte no Juma foi que os moradores queriam a terra para eles, pois aquele lugar era muito lindo! Então para conseguir isso, eles jogaram bombas na maloca (oca) e mataram quase todos.

Aqueles que sobreviveram não ficaram vivos por muito tempo e acabaram morrendo. Só ficaram seis pessoas vivas, entre eles, minha mãe, minhas duas tias e meu avô, o único homem da família que conseguiu sobreviver.

Quando essas seis pessoas chegaram aqui em Porto Velho, ficaram numa casa da Funai. Lá, nessa casa, estavam três homens solteiros da tribo Uru Eu Wau Wau. As três mulheres eram muito lindas e eles se casaram com elas, mas tinha uma coisa: a minha mãe quando veio para cá estava grávida de mim.

Então eu nasci e cresci lá na tribo Uru Eu Wau Wau. Eu vivi lá até os dez anos e então chegou o tempo de sair de lá. Eu estava tendo uma vida perigosa, porque eu não fazia parte daquela tribo. A única pessoa a quem eu pertencia era à minha mãe e eu não fazia parte daquela família, então eles podiam fazer qualquer coisa comigo. Os meus irmãos eram totalmente diferentes de mim, eram bem recebidos e bem cuidados, não tinham nenhum problema!

Esta tribo está localizada perto de uma cidadezinha chamada Monte Negro que fica a alguns quilômetros de Ariquemes, no estado de Rondônia e estão tendo os costumes mudados porque pessoas de cidades estão dando coisas que estão fazendo diferença na cultura deles. Isso não é bom!

Agora minha história foi transformada, moro com os missionários Luiz e Dionéia na Jocum em Porto Velho e sou muito feliz por estar aqui!”

* O texto com o relato da menina foi postado sem data e horário. No dia 14 de janeiro de 2015, o documento foi retirado da página da 3a. Igreja Presbiteriana.

Leia também:

Veja o documentário:

O guerreiro Aruká e a sobrevivência dos Juma na Amazônia

* A reportagem especial com o povo Juma faz parte do projeto “Amazônia Real — promovendo a democratização e liberdade de expressão na região amazônica” e recebe financiamento da Fundação Ford, por meio do programa “Promovendo Direitos e Acesso à Mídia”.

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