Foto de Alexey Filippov | Tradução por Victoria Valez

“Na chuva. No frio. De noite.”, por Ángel Di María

Tradução do texto “Bajo la lluvia. En el frío. De noche”, de Ángel Di María para o The Player’s Tribune.

Lembro de quando eu recebi a carta do Real Madrid. Rasguei antes mesmo de abrir.

Isso aconteceu na manhã da final da Copa de 2014, exatamente às 11. Eu estava sentado na maca, prestes a receber uma injeção na perna. Tinha distendido um músculo nas quartas-de-final, mas com a ajuda dos anti-inflamatórios já conseguia correr sem sentir nada. Eu disse para os preparadores as seguintes palavras: “Se eu gritar, me deixem gritar e continuem mesmo assim. Não me importa. Só quero poder jogar.”

E lá estava eu, fazendo gelo na perna, quando o médico Daniel Martínez entrou na sala com um envelope nas mãos e disse: “Ángel, olha, esse papel veio do Real Madrid.”

“Como? O que você quer dizer?”, falei.

Ele me respondeu: “Bom, eles disseram que você não está em condições de jogar. E estão nos forçando a não deixar você jogar hoje.”

Na hora eu entendi o que estava acontecendo. Todo mundo já tinha ouvido os rumores de que o Real queria comprar o James Rodríguez depois da Copa, e eu sabia que iam me vender para dar lugar a ele. Eles não queriam que seu jogador se lesionasse antes de ser vendido. Simples assim. Esse é o lance do futebol que as pessoas nem sempre vêem.

Pedi pro Daniel me dar a carta. Nem cheguei a abrir. Só rasguei ela em pedacinhos e disse: “Pode jogar fora. O único que decide, aqui, sou eu.”

Não tinha dormido muito na noite anterior ao jogo. Em parte porque os torcedores brasileiros ficaram soltando fogos de artifício e rojões madrugada adentro, mas também porque acho que mesmo que tudo estivesse em silêncio, eu não ia conseguir dormir. É impossível explicar a forma como você se sente antes de uma final de Mundial, quando tudo com o que você sonhou um dia acontece bem na frente dos seus olhos.

De verdade, eu queria muito jogar naquele dia, mesmo que isso acabasse com a minha carreira. Mas também não queria dificultar as coisas para o time. Então eu acordei bem cedo e fui falar com o nosso técnico, Alejandro Sabella. Nós tínhamos uma relação muito próxima, e se eu chegasse e dissesse pra ele que queria jogar, certamente ele ia sentir que tinha que me botar. Por isso que eu disse, honestamente, com a mão no coração, que ele devia escalar o jogador que ele sentisse que era o certo.

“Se sou eu, sou eu. Se for outro, é outro. Eu só quero ganhar a Copa. Se você me chamar, vou jogar até me arrebentar”, eu disse.

E aí desatei a chorar. Não pude evitar. Aquele momento tinha me balançado, era normal.

Quando fizemos a reunião técnica antes do jogo, Sabella anunciou que Enzo Pérez ia ser o titular, porque estava com o físico cem por cento. E, bom, ele joga, tudo bem. Mesmo assim tomei mais uma injeção antes da partida, e depois mais uma durante o segundo tempo, assim eu estaria pronto para jogar, se me viesse a chance de entrar em campo.

A chance nunca veio. Perdemos a Copa do Mundo. Foi o dia mais difícil da minha vida. Depois do jogo, a mídia começou a dizer coisas ruins sobre o porquê de eu não ter jogado. Mas o que eu estou dizendo pra vocês é a mais pura verdade.

O que ainda fica na minha cabeça é esse momento em que eu fui falar com o Sabella e caí no choro na frente dele. Sempre vou ficar me perguntando se ele pensou que eu estava chorando porque estava nervoso.

E, na verdade, não teve nada a ver com nervos. Eu estava é emocionado porque tudo que aquilo significava para mim. Estávamos muito perto de conseguir realizar o sonho impossível.

As paredes da nossa casa, a princípio, eram brancas. Mas nunca lembro delas sendo brancas. No começo eram cinzas. Depois acabaram ficando pretas por causa da poeira do carvão. Meu pai trabalhava com carvão, mas não trabalhava nas minas. Alguma vez você já viu como é feito o carvão? Os sacos que você compra em qualquer mercado para fazer o seu churrasco vêm de algum lugar, e a verdade é que a carvoaria é um trabalho muito sujo. Meu velho costumava trabalhar sozinho debaixo de um teto de chapa no nosso pátio, e depois ainda precisava ensacar todos os pedaços de carvão para poder vender no mercado. Bom, não era só ele. Ele tinha seus pequenos ajudantes, sabe? Antes de ir pra aula, minha irmãzinha e eu acordávamos para ajudar. Tínhamos 9 ou 10 anos, que é a idade perfeita para ensacar carvão, porque você pode transformar isso numa brincadeira. Quando o caminhão chegava, tínhamos que passar pela sala com os sacos para chegar até a porta da frente. Não tinha jeito, a casa acabava totalmente preta.

Mas era com isso que nós comíamos, e foi assim que meu pai conseguiu evitar a gente perdesse a casa.

Durante um tempo, quando eu era pequeno, meus pais iam bem. Mas aí meu pai deu por fazer uma boa ação para alguém, e isso mudou a nossa vida. Um amigo pediu para que ele desse entrada na sua casa, e meu pai confiou nele. Mas o sujeito parou de pagar e, de um dia pro outro, sumiu. O Banco foi direto procurar pelo meu pai, que se viu afogado em dívidas tendo que pagar duas casas e ainda por cima alimentar a nossa família.

O primeiro negócio dele não foi o carvão. Ele tratou de transformar a parte da frente da nossa casa num pequeno comércio. Comprava barris de água sanitária, cloro, detergente e todos esses produtos de limpeza; depois enchia em garrafinhas e vendia na nossa sala. Se você morasse no nosso bairro, não precisava ir até uma loja comprar uma garrafa de CIF. Era caríssimo. Bastava vir até a casa dos Di María e minha mãe vendia um frasco por um preço muito mais em conta.

Tudo andava bastante bem até que um dia o rapazinho aqui estragou tudo e por pouco ainda não se matou.

Sim, é verdade. Sou filho da puta desde pequeninho!

Não é que eu fosse ruim, é só que tinha energia demais. Era hiperativo. Um dia, enquanto minha mãe estava atendendo no nosso “negócio”, eu estava brincando com o meu andador. E o portão de casa estava aberto, pra que os clientes pudesse entrar. Minha mãe se distraiu, eu comecei a caminhar, caminhar caminhar… Continuei caminhando… Tinha alma de explorador, olha só!

Fui direto pro meio da rua e minha mãe teve que correr feito doida para evitar que um carro me atropelasse. Do jeito que ela conta, foi bem dramático. Também foi o último dia do negócio de produtos de limpeza dos Di María. Minha mãe disse pro meu pai que era perigoso demais, e que tínhamos que procurar outra coisa.

Foi aí que ele ouviu falar que tinha alguém que trazia barris de carvão de Santiago del Estero. Mas o melhor é que nós nem ao menos tínhamos dinheiro para poder vender carvão. Meu velho teve que convencer essa pessoa a mandar as primeiras levar, pra que ele pudesse começar a vender a aí pagar.

Então quando minha irmã e eu pedíamos por doces ou qualquer coisa, meu pai nos dizia: “estou pagando duas casas e ainda por cima um caminhão cheio de carvão!”.

Lembro de um dia em que estávamos ensacando o carvão com meu pai, e além de fazer muito frio, chovia. Estávamos debaixo daquele teto de chapa. Era muito duro ficar ali. Depois de um tempo, eu ia pra escola, e lá era mais quentinho. Mas meu pai ficava lá ensacando o dia todo sem parar. Porque se ele não conseguisse vender o carvão naquele dia, não tínhamos o que comer. Simples assim. E eu pensava, acreditava mesmo: Vai chegar um momento em que tudo vai mudar pra melhor.

Por isso eu devo tudo ao futebol.

Às vezes ser bagunceiro tem suas vantagens. Eu comecei no futebol muito cedo, porque estava deixando a minha mãe doida. Aos 4 anos ela me levou no pediatra e disse: “Doutor, ele não para de correr um segundo. O que podemos fazer?”

E como era um bom médico argentino, claro que a resposta foi: “O que podemos fazer? Futebol”.

E foi assim que eu comecei a minha carreira futebolística.

Eu era obcecado. Era tudo que eu fazia. Jogava tanto, mas tanto, que a cada dois meses minhas chuteiras descolavam. Minha mãe colava elas com Poxiran, porque não tínhamos dinheiro pra comprar pares novos. Quando eu tinha 7 anos já devia ser bastante bom, porque depois de marcar 64 gols para o time do meu bairro naquele ano, minha mãe veio e disse: “O pessoal do rádio quer falar com você”.

Fomos para a rádio pra que eles fizessem uma entrevista comigo. Eu era tão tímido que só conseguia dizer “sim”.

Naquele ano, meu pai recebeu uma ligação do técnico do Rosario Central. Ele disse que queria que eu jogasse lá. É uma situação muito engraçada, porque meu pai sempre foi fanático pelo Newell’s Old Boys. Minha mãe era torcedora do Central. Se você não é de Rosário, não vai conseguir entender nunca a paixão e a rivalidade entre os dois. É a morte. Cada vez que se disputava um clássico, meus velhos gritavam feito loucos, botavam os pulmões pra fora a cada gol, e quem ganhava passa um mês zombando do outro.

Assim que imaginem o quão emocionada a minha mãe não ficou quando soube que me chamaram no Central.

Meu pai tinha suas dúvidas: “Ah, não sei, é meio longe. São 9 quilômetros! Não temos carro. Como vamos levar ele até lá?”

E foi aí que nasceu a Graciela.

Graciela era uma bicicleta amarela, enferrujada, com a qual minha mãe me levava todos os dias aos treinos. Tinha um cestinho na frente e espaço para levar mais uma pessoa atrás, mas o problema é que minha irmãzinha também precisava ir com a gente. Aí meu pai cortou com a serra um pedaço de madeira pra colocar de cada lado do cestinho, e minha irmã ia sentada ali.

Então imaginem isso: uma mulher atravessando toda Rosário de bicicleta, com um moleque na garupa e uma menininha na frente, mais uma mochila esportiva, com minhas chuteiras e alguma coisa pra comer. Subindo. Descendo. Passando pelos bairros mais difíceis. Na chuva. No frio. De noite. Não importava. Minha mãe só continuava pedalando.

Graciela nos levava onde tivéssemos que ir.

Mesmo assim, a verdade é que o tempo que eu passei no Central não foi fácil. Pra falar a verdade, acho que se não fosse pela minha mãe, eu teria largado o futebol. Não uma, mas duas vezes. Quando tinha 15 anos e ainda não tinha dado aquele estirão, tínhamos um técnico que era bastante pirado. Ele gostava dos jogadores mais físicos e agressivos, e veja bem, esse não era muito meu estilo. Um dia eu não pulei durante um escanteio. No fim do treino,ele reuniu todo mundo, se virou e olhou pra mim.

“Tu é um frouxo, um desastre. Nunca vai chegar a lugar nenhum. Vai ser um fracasso”, ele disse.

Ele acabou comigo. Antes mesmo que terminasse de falar, eu já tinha desatado a chorar na frente de todos os meus companheiros, e assim que fomos liberados eu saí do campo correndo.

Quando cheguei em casa fui direto pro meu quarto chorar sozinho. Minha mãe se deu conta de que alguma coisa tinha acontecido, porque toda vez que eu voltava de um treino, o primeiro que eu fazia era largar as minhas coisas e sair pra rua pra continuar jogando bola. Ela entrou no meu quarto e perguntou o que era. Fiquei com um pouco de medo de contar toda a verdade, porque eu tinha receio que ela pegasse a bicicleta e fosse pedalando até o Clube só pra peitar o técnico. Ela era uma pessoa muito tranquila, mas se você tocasse numa das crias dela, nossa… cara, era melhor correr!

Falei que tinha me metido numa briga, mas ela viu que era mentira. Então ela fez o que todas as mães do mundo fazem nesses casos: ligou pra mãe de alguém do time para saber o que tinha acontecido.

Quando ela voltou pro meu quarto, eu continuava chorando e falei que queria largar o futebol. No dia seguinte, não conseguia nem sair de casa. Não queria ir pra escola. Me sentia humilhado. Mas minha mãe sentou na minha cama e disse: “Você vai voltar, Ángel. Vai voltar hoje. E você vai mostrar uma coisa pra esse aí.”

Voltei pro treino nesse dia e aí aconteceu uma coisa incrível. Para começar, nenhum dos outros caras do time riu de mim. Pelo contrário, eles me ajudaram. Cada bola que vinha por cima, a defesa me deixava ganhar de cabeça. Parecia que eles queriam garantir que eu me sentisse seguro. Isso que o futebol sempre é competitivo, especialmente na América do Sul. Cada um ali está tentando ter uma vida melhor, sabe? Mas eu sempre, sempre vou lembrar desse dia, porque meus companheiros viram que eu estava sofrendo e me ajudaram.

Mesmo assim, eu era muito pequeno e magrelo. Aos 16 eu ainda não tinha sido promovido, e meu pai começou a se preocupar. Uma noite nós estávamos sentados na cozinha e ele disse: “Você tem 3 opções: pode trabalhar comigo. Pode terminar a escola. Ou pode tentar o futebol por mais um ano. Mas se não der certo, vai ter que trabalhar comigo”.

Eu não disse nada. Era uma situação complicada. Precisávamos de dinheiro.

Mas aí minha mãe entrou no meio e disse: “mais um ano no futebol”.

Isso foi em janeiro.

Em dezembro daquele mesmo ano, no último mês do prazo que tínhamos estipulado, estreei na Primeira Divisão com o Rosario Central.

Daquele dia em diante minha vida esportiva começou. Mas, na verdade, a luta tinha começado muito antes. Começou com a minha mãe colando a sola das minhas chuteiras para que eu pudesse continuar usando, e pedalando com a Graciela debaixo da chuva. Inclusive quando eu estreei profissionalmente na Argentina, ainda era uma luta. Acho que as pessoas que não são da América do Sul não vão conseguir entender como é. Faz falta viver certas coisas para acreditar nelas.

Nunca vou me esquecer de quando tivemos de jogar uma partida pela Libertadores na Colômbia contra o Nacional de Medellín. O avião não é o mesmo de quando você joga na Premier League ou na Liga. Nem sequer é o mesmo de quando você joga em Buenos Aires. Pois então, Rosário não tinha aeroporto internacional. Você chegava naquele aeroporto pequenininho, e subia no primeiro avião do dia que estivesse ali. Não fazia perguntas.

Então nós chegamos lá para ir pra Colômbia… E na pista tinha um desses aviões de carga enormes. Sabe aqueles que tem uma rampa atrás, onde sobem carros e contêineres? Bom, esse era o nosso avião. Um Hércules.

Baixaram a rampa e aí os funcionários começaram a carregar colchões. E nós jogadores nos olhávamos entre nós como que dizendo: É o quê?

Aí subimos no avião e os caras da manutenção nos disseram: “Não, vocês vão atrás, gurizada. Aqui, usem esses protetores.”

Tivemos que usar protetores auriculares enormes para abafar o barulho, daqueles que os militares usam. Subimos e tínhamos alguns lugares e os colchões para sentar. Por 8 horas. Para um jogo da Copa Libertadores. Fecharam a rampa e tudo ficou escuro. E ali estávamos nós, nos colchões, com aqueles negócios nas orelhas, mal escutando nossos próprios pensamentos. E o avião começou a acelerar, e nós começamos a nos mover e, depois da decolagem e de irmos todos pra trás, um dos colegas de time grita: “Ninguém toca no botão vermelho! Se essa porta chega a abrir, vai tudo pra puta que pariu!”

Foi incrível. Se eu não tivesse vivido isso, seria difícil de acreditar. Mas meus colegas estão aí de prova. Aconteceu mesmo. Essa foi a nossa versão de “avião particular”. Um Hércules!

Ainda que não acreditem, essa lembrança me dá certa alegria. Quando você está tentando fazer grande no futebol argentino, você tem que fazer o que for necessário. E não importa qual seja o avião que apareça, você sobe nele sem fazer perguntas.

Depois, se a oportunidade aparecer, você pega um avião com uma passagem de ida. Para mim, essa oportunidade foi em Portugal com o Benfica. Talvez muitos hoje olhem a minha carreira e digam “Uau, ele foi pro Benfica, depois pro Real Madrid, o Manchester United e o PSG”, achando fácil. Mas não se dão conta de quanta coisa aconteceu nesse meio tempo. Quando cheguei no Benfica, mal joguei duas temporadas. Meu pai largou o trabalho para ir pra Portugal comigo, e teve que ficar separado da minha mãe por um oceano de distância. Algumas noites eu ouvia ele falando ao telefone com ela, e ele chorava de tanta falta que sentia.

Por vezes tudo parecia um grande erro. Não jogava, a única coisa que eu queria era ir embora, voltar pra casa.

Até que os Jogos Olímpicos de 2008 mudaram a minha vida. Me convocaram para a Seleção mesmo que eu nunca jogasse no Benfica. Nunca vou esquecer. Esse torneio me deu a oportunidade de jogar com Leo Messi, o alienígena, o gênio. Nunca me diverti tanto jogando bola como me diverti nessa competição. Tudo que eu precisava fazer era correr na direção do nada. Começava a correr e a bola chegava nos meus pés. Como se fosse mágica.

Os olhos do Leo não são como os meus ou os seus. Olham de um lado para o outro, como qualquer pessoa. Mas ele também consegue olhar pra tudo de cima, como se fosse um pássaro. Não sei como é possível, mas é assim.

Percorremos todo o caminho até chegar na final contra a Nigéria, e esse provavelmente foi o dia mais incrível da minha vida. Marcar o gol que trouxe o ouro pra Seleção… Vocês não podem nem imaginar como é.

Foi um momento de orgulho não só pra mim, mas também pra toda minha família e para todos os meus amigos que me apoiaram durante todos esses anos. Dizem que meu pai era um jogador melhor que eu, mas que quebrou os joelhos quando era mais novo e seu sonho de ser jogador acabou. E dizem que meu avô era ainda melhor do que ele, mas perdeu as duas pernas em um acidente de trem, e seu sonho morreu ali.

Meu sonho esteve perto de morrer muitas vezes.

Mas meu pai continuou trabalhando debaixo daquele teto de chapa. Minha mãe continuou pedalando. E eu continuei correndo para o nada.

Não sei se vocês acreditam em destino, mas quando eu marquei meu primeiro gol no Real Madrid, vocês sabem o nome do time contra o qual estávamos jogando?

Hércules FC.

Foi um longo caminho.

Mas quem sabe agora vocês entendam o porquê de eu ter chorado na frente do Sabella antes da final da Copa de 2014. Não estava nervoso. Não estava preocupado com a minha carreira. Nem ao menos estava triste por não entrar em campo.

Botando a mão no coração, a verdade é que a única coisa que eu queria é que conseguíssemos realizar nosso sonho. Queria que fossemos lembrados como lendas na nossa terra. E estivemos muito perto disso.

Por isso é tão decepcionante quando vejo a reação da mídia na Argentina sobre o time. Há momentos em que o pessimismo e as críticas saem de controle. Não é saudável. Somos todos seres humanos, e nas nossas vidas acontecem coisas que as pessoas não chegam a ver.

Até por isso, bem antes da final das Eliminatórias, comecei a fazer terapia. Estava passando por um momento complicado na minha cabeça, e normalmente posso confiar na minha família para enfrentar essas situações. Mas dessa vez a pressão da Seleção era grande demais, então fui a um psicólogo e isso realmente me ajudou. Nos últimos dois jogos, me senti muito mais solto e tranquilo.

Lembrei a mim mesmo que eu era parte de um dos melhores times do mundo e que estava jogando pelo meu país, vivendo o sonho que eu tinha desde criança. Às vezes, mesmo sendo profissionais, não podemos esquecer dessas coisinhas pequenas.

O jogo voltou a ser um jogo.

Acho que, nos tempos de agora, as pessoas te seguem no Instagram ou no YouTube e só veem os resultados, mas não o preço. Não sabem o que você viveu para chegar até ali. Me veem com com minha filha nos braços e sorrindo com a Champions League nas mãos e acham que tudo é perfeito. Mas talvez não saibam que exatamente um ano antes dessa foto ser tirada, ela tinha nascido prematura e passado dois meses no hospital, ligada em um monte de cabos e tubos.

Talvez me vejam chorando na Copa e pensem que eu choro por causa do futebol, quando na verdade estou chorando porque minha filha está aí nos meus braços para viver esse momento comigo.
 
Veem a final do Mundial, e tudo que enxergam é um resultado.

1–0.

Mas não enxergam o quanto muitos de nós tiveram de lutar para poder chegar até ali.

Não sabem das paredes da nossa sala, que eram brancas e ficaram pretas.

Não sabem da minha mãe pedalando com a Graciela na chuva e no frio pelos filhos.

Não sabem do Hércules.