Foto de Matilde Campodonico | Tradução por Victoria Valez

“Uma Carta para Eu Mesmo aos 9 Anos”, de Edinson Cavani

Tradução do texto “Carta a mí mismo de pequeño”, de Edinson Cavani

Querido Edinson de 9 anos,

Escrevo estas palavras para o moleque que todos no bairro conhecem por “Pelado”*.

Quando você era bebê, não tinha muito cabelo. Foi crescendo bem aos poucos. Uma merda, mas não tinha muito que desse pra fazer a respeito. Então, graças à criatividade da família, você sempre foi o “Pelado”.

Bom, fico muito feliz em te dizer que, nos próximos 20 anos, o futebol vai mudar a sua vida em vários sentidos. Alguns muito bons, outros nem tanto. Mas o futebol vai ajudar você a se livrar desse apelido chato.

Tem um jogador chamado Gabriel Batistuta. Você ainda não sabe quem ele é, porque a única coisa que você tem paciência para sentar e assistir na TV é Tom & Jerry. O teu irmão mais velho, o Nando, vai ser o primeiro a se inspirar no Batistuta. Vai começar a não querer mais ir no barbeiro. E a usar o condicionador de cabelos da mãe. E pouco a pouco vai ficar cada vez mais parecido com o magnífico Batigol. Quando ele estiver correndo num campo de futebol com o cabelo comprido puxado pra trás e preso num elástico, essa vai ser a coisa mais legal que você já viu.

E vai chegar uma hora que é você quem vai dizer pra mãe: “Não quero mais cortar o cabelo”.

Você vive na rua, com uma bola nos pés. Do jeitinho sulamericano. Não conhece outra coisa. Além do mais, o que é que tem pra se fazer dentro de casa? Nada divertido. Nada interessante. Não tem um PlayStation. Nem uma TV grande. Você não tem nem ao menos um chuveiro quente. Ou calefação. No inverno, teu aquecedor vão ser quatro cobertores. Quando precisar tomar banho, vai ter uma garrafa térmica com água que você vai esquentar na cozinha usando querosene. É muito importante que você entenda como combinar a água fria e a quente. De pé na banheira, você vai aprender a ser um alquimista.

E, no entanto, pra você isso é um luxo. Ou por acaso você não lembra da sua primeira casa? A que não tinha banheiro. Aquela casa, onde sempre que ficasse apertado, não tinha jeito a não ser sair na rua e ir até aquele barraquinho!

Posso te contar um segredo? Hoje em dia, quando me lembro dessas coisas, não me sinto nada mal. Por alguma razão isso me enche de energia. Me dá coragem. É uma linda memória.

Não se preocupe com o que você tem ou deixa de ter em casa. Você tem é que continuar vivendo a vida no Sol, Pelado.

Além do que, qual é o sentido de ter posters de futebol colados na parede? A cada dois ou três anos, quando alguém mudar de emprego ou quando a família não conseguir mais pagar o aluguel, vocês vão ter que se mudar pra outro lugar. Mas sabe o que é o bom? Que em cada nova casa, não importa o endereço, você sempre vai ter um campinho lá fora. E também uma bola. Não existe proprietário no mundo que possa te tirar isso, eu garanto.

A coisa mais importante do mundo pra você nesse momento, se me lembro bem, é o Gol do Picolé.

O Gol do Picolé é um negócio mágico. Preciso falar com alguém do PSG sobre o Gol do Picolé. É genial. Motivação pura. A ideia foi de um dos organizadores do campeonato juvenil de Salto. Como você faz para manter um bando de moleques de seis anos motivados, não importa a quantas anda o jogo?

Você cria uma regra dizendo que o menino que fizer o último gol do jogo ganha um picolé.

O placar podia estar 8–1, não importava. Era uma corrida contra o tempo. Marcar o último gol do jogo. E a sensação ao ouvir o juiz dar o apito que marcava o fim da partida quando era você quem tinha feito o Gol do Sorvete… Incrível! Uma alegria enorme. Será que é de chocolate? Será que vão te dar um desses do Mickey Mouse? Fosse o que fosse, durante todo o aquele dia, você seria como um rei.

É claro que você não é um menino da capital, Pelado. Os meninos de Montevidéu vivem num mundo diferente. Um mundo que você nem sequer sabe que existe. Um mundo de chuteiras Adidas, de passeios de carro e grama verde. Em Salto tudo é diferente. Por algum motivo todos querem jogar descalços. Alguns meninos começam os jogos com as chuteiras, mas depois, no intervalo, já estão todas empilhadas em um canto e todo mundo está correndo com os pés no chão. Se eu fechar os olhos agora mesmo, ainda posso sentir a terra na sola dos pés. Ainda posso sentir meu coração disparado, correndo atrás da bola, sonhando com o picolé.

Você vai levar esses sentimentos contigo por toda a vida, porque você é sulamericano. Do Uruguai. De Salto. Você vive o futebol de um jeito diferente.
 A benção e a maldição dos uruguaios é que não podemos descansar nunca. É a história do nosso futebol, é a história do nosso país. Quando vestimos a celeste, sentimos o orgulho da nossa história.

Temos que correr atrás sempre, dale, dale, dale. E lá vamos nós.

Quais são os teus sonhos, Pelado?

Nem lembro deles direito. O tempo os transformou em memórias difusas.

O teu sonho é jogar em Montevidéu, como o Nando? Você vai. E quando conseguir, vai se sentir como se estivesse jogando na Champions League.
 O teu sonho é jogar na Europa? Você também vai. E vai ganhar dinheiro o suficiente para mudar a vida da tua família.

Teu sonho é jogar uma Copa do Mundo? (Não vou estragar a surpresa. Só vou dizer que em 2010 vai ser El Loco.)

O teu sonho é ter muita grana, dirigir carros incríveis e dormir em hotéis chiques? Bom, Pelado, você vai ter tudo isso.

Mas preciso te dizer uma coisa. Isso não vai te fazer necessariamente feliz.

O que você tem agora, com 9 anos de idade, é algo que eu, hoje, sinto muita falta.

Você não tem um chuveiro quente. Não tem uma moeda no bolso. Não tem nem cabelo direito. Mas você tem algo mais. Algo que não tem preço. Você tem a sua liberdade.

Sendo criança, você vive a vida com uma intensidade e paixão que é impossível de ter quando se é adulto. Nós tentamos nos agarrar nisso enquanto crescemos, mas vai indo embora. Escorre pelos nossos dedos. São muitas responsabilidades. Muita pressão. É muita vida vivida dentro de casa.

E sabe como é a vida agora, aos 31 anos?

Você vai de um hotel para um ônibus e dali pra uma concentração de treino. Depois da concentração, outro ônibus e um avião. Do avião para outro ônibus. E desse ônibus para um estádio.

Em muitos sentidos, você está vivendo um sonho. Mas em muitos outros, você também é prisioneiro desse sonho. Não dá pra sair pra rua e sentir o Sol. Você não pode tirar as chuteiras e jogar na terra. Vão acontecer coisas que vão tornar a vida complicada. É inevitável.

Quando se é moleque, você tem essa sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem muitas posses.

Quando você cresce, percebe que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem sabedoria para viver a vida.

Quando você conseguir entrar no futebol profissional, vai ter tudo que puder imaginar. E vai ser extremamente grato por isso. Mas preciso ser sincero contigo, Pelado. Existe só um lugar onde você vai poder ter essa tal liberdade plena. E dura 90 minutos, se você tiver sorte.

Quando você colocar as chuteiras, não importa se você estiver jogando no campinho de Salto, na grama verde de Napoli ou diante de milhões de pessoas no Mundial. Quero que você lembre das palavras do pai.

O que ele sempre diz, sempre que você vai jogar?

Eu sei que você sabe.

Ele diz: “No momento em que você cruza a linha de cal e entra em campo, é só futebol. Nada do que acontece fora da linha de campo vai te ajudar com o que passa dentro dela. O resto deixa de existir.”

Se você ouvir essas palavras e realmente acreditar no espírito do que te dizem, então, mesmo que a pressão seja enorme, mesmo que você esteja jogando diante de milhões de pessoas… Você vai entrar em campo e sentir como se estivesse jogando descalço.

Vai sentir a terra grudada na sola dos pés.

Vai sentir o coração disparado e correr atrás da bola, como se valesse o maior troféu do mundo. Como se você estivesse jogando por um picolé.

Sinceramente,

Edi

Em PT-BR, o apelido do Cavani seria “Careca”.