Carta de São Paulo aos Filipenses 2,6–11

Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua proclame…

Felipe VII

Janeiro é um mês deprimente, minha mãe sempre diz. Se tivesse uma cor seria cinza; chove muito, dá enchente aqui. Então é cinza e marrom~bosta.

Voltei do RJ angustiada. Tudo errado.

Pra escrever você tem que queimar a academia interna, ou não dá.

Preciso fazer alguma aula. Do meu curriculum vazam cursos e eu ainda me sinto incapaz.

Brotou um anúncio patrocinado. Meu deus, o nome do lugar é muito pedante, eu diria pedante ao infinito e além.

Sem grana, desenrolei: fico com a menina pra ela, já que enquanto as mães trampam, a creche municipal entra em férias e as trabalhadoras que se fodam pra arrumar alguém.

Nos dois primeiros dias, banquei a tia construtivista, depois disso taquei Pepa na criança.

Cheguei bem ressabiada ~pra fuder~, o lugar fica no bairro mais pau no cú de São Paulo.

Sempre rola aquela exposição superficial, vexatória e inevitável. Meninas, mulheres e homens. Formações invejáveis. Não disse muito~preguiça.

Ouço seu nome .

“ Credo e cruz, Ave Maria, vade retro..”

Não lembro ao certo. Me marcou um texto em que se repetia algo sobre seu quarto fechado (claustrofobia). Era uma fala curta, pausada. Pensei em algo pesado, seco, caindo e tremendo. Me repeliu ainda mais.

Fui me entrosando com alguns mais por coincidência do que inclinação ~ou seriam os dois? Metrô, caminhos, vibração. Sei lá…

O historiador me encontrou indo. Fez uma observação que me pegou. Disse que meu andar era engraçado ~ele já estava observando. Eu ri, já ouvi isso tantas vezes, creio que seja por conta do balé. Acho que não, seus olhos, semicerrados assim, fazem com que seu nariz se aprume, seu queixo empine e você enxergue melhor.

Gostava muito das palavras da Clara sobre sua terra. E do Rodolfo, com seu sarcasmo embalador. A professora me nutria com idealismo.

Comeria todo mundo ali~como te disse. Menos a Antropóloga. Definitivamente, ela jamais. quando ela abria a boca, dava vontade de morrer: M O R R E R.

Entre tanta merda esnobe. No dia do SINHASINHA, a vontade de morrer transmutou pra vontade de matar e posso garantir que foi coletivo.

Apesar disso, foi no espaço da fala dela, que meu olhar vagueou.

Nunca nenhuma palavra trocada, éramos um dos mais silenciosos. Você mais. Qual o assunto do exercício, eu não me lembro. A gente escreveu sobre e pudim, você concluiu. Em seguida fez uma crítica sobre meu texto; me admirei. Tem que ser atrevido antes de ser crítico. Seu dedo na minha na minha escrita, fitei as mãos.

Era a caralha da Doutoranda Sinhazinha USPiana emitir um som, eu já pegava meu barco e fugia pra vista, aquela ilha alumiada e convidativa do seu olhar.

[continua]

Felipe I

Aquela sim era uma casa de . Eu não fazia parte daquilo, enquanto visitante eu queria muito.

Cheguei e subi. Banheiro, o box marrom, a porta de vidro fumê aberta. Você entretido com os Power Rangers. Eu hipnotizada.

Foi o primeiro pau da minha vida. Me carregaram, sua vó entendeu. Eu estava tirando a roupa pra brincar de Power Ranger junto. Eu era rosa, lembra?

Você penetrou como o sol da manhã
E em nós começou uma festa pagã
Você libertou em você a infernal cortesã
E em mim despertou esse amor
Atormentado e mal de Satã

[continua]

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