19 de junho

Tem um tempo que já não escrevo quase nada além dos itens na lista do supermercado — que vou adiando mais e mais as compras. A geladeira e as prateleiras da dispensa estão ficando vazias. Quase já não escrevo nada além dos nomes de livros — que nunca vou comprar — na lista de “livros para ler antes de morrer”. Eu posso morrer hoje. Antes eu escrevia todo dia. Eu consumia cada vez mais espaço na minha casa com papéis soltos e pesados de tanto terem a mim convertida em palavras. As gavetas eram cheias. As prateleiras da dispensa e da geladeira também. As palavras eram cuspidas pelas canetas que minhas mãos usavam. Eu era cuspida pelo meu corpo de forma mais violenta do que eu poderia ter cuspido naquelas competições de cuspe com meus primos. Provei milhares de vezes ser mais homem do que eles. Para nós, naquele nosso tempo, a masculinidade estava na distância do cuspe. Não eram os sexos diferentes. Nem o sexo feito com qualquer pessoa — homem ou mulher — , no início de nossas vidas amorosas. Era apenas ser o melhor que poderíamos ser. E hoje, eu não sou nada. As palavras se acumulam. Eu me sinto vazia.

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