Outro ano passa

Me deixe ser mais clara: eu não me lembro mais. Por todos os lados vejo rostos de pessoas que juro que se parecem com o seu. Todos os dias escuto vozes que me fazem olhar para trás e procurar pelos seus lábios. Todas as manhãs meu coração acorda apertado por causa de um sonho que tive em que você estava lá. Você ou algo que a gente viveu. Mas, a imagem de você que me assombra não é mais daquela garota doce e sem-vergonha que eu conheci, não é mais real, porque você se apagou aqui dentro.

Suas feições, seu cheiro, seus gestos, seu jeito de falar e de sorrir, a forma como me tratava, a maneira como eu gostava de olhar nos seus olhos quando conversava sobre as besteiras da vida… tudo isso de dissipou no ar. Se fragmentou aos poucos até que se tornasse uma sombra. Um rascunho que precisei preencher com a minha imaginação.

Eu inventei você. E é como se você tivesse morrido.

Você, entretanto, continua importante e continua me fazendo sofrer. Mas a prisão em que vivo por sua causa fui eu quem criou.

Tudo e nada mudou.