Bem te vi
Ele estava sentado em sua cadeira na varanda. Como um ritual, todo dia um bem te vi pousava na piscina e cantava. Em resposta, seu pai assobiava. E assim, seguiam até o final da tarde. Ele estava enfermo, com a saúde debilitada e ela sabia disso. Conversavam e jogavam xadrez. Tranquilamente. Ela aceitava sua partida iminente. E aqueles que aceitam ficam mais tranquilos, porém, não menos tristes. Disse-me que seu pai amava o canto do bem te vi. Talvez ele tenha aprendido a contemplá-lo com o passar dos anos e com a idade avançada, ela me confessou. De certo, naquele carnaval longínquo de 2004, ela se sentiu fraca. Mas, mesmo assim, queria ouvir o canto do bem te vi. Hoje, numa dessas tardes, ela não conseguiu conter as lágrimas. Chorou. Ela sentiu sua presença e, no distante invisível, ouviu: “Não se preocupe, não quero que você chore.” E, ouvindo o canto do pássaro, ele completou: “Estarei voando com eles.” Ela contou-me que o bem te vi acompanhou silenciosamente esse momento. O bem te vi, depois que seu pai partiu, ainda se faz presente. Será que seu pai foi morar com ele? É possível…