Lembranças da lembrança

Olhava para o teto do quarto e pensava se era possível viver tanto tempo uma vida tão vazia ou tão cheia de nada. As ideias revolviam-lhe a cabeça. Ora pensava que era o seu passado. Ora pensava que era o seu presente.

Pensava tanto que seu cérebro entrou em pane. Não demorou muito e adormeceu. No entanto, 24 minutos depois, encontrava-se desperto. Levantou e foi até a sala. Sentou-se à mesa. Apanhou um caderno de espiral e uma caneta, que se encontravam próximos. Acendeu um cigarro.

Sentia a atmosfera gélida da madrugada e o pulsar das artérias. A sala o sufocava. Seus olhos fitaram o nada. Não compreendia a emoção estranha que o arrebatava. Parecia ser qualquer coisa infinitamente prazerosa, ao mesmo tempo, que lhe causava dor e saudade. A penumbra do ambiente deixava evidente apenas parte do seu rosto. Era um quadragenário de baixa estatura, com cabelos grisalhos e barba irregular: a face era redonda e de cada lado do nariz delineavam-se profundas marcas de expressões. Seus olhos eram de um verde límpido, mas cheios de angústia. Havia uma beleza física peculiar e uma beleza extremamente sentimental.

Anotou algumas palavras no caderno de espiral. Em seguida, rabiscou todas. Fez isso algumas tantas vezes. Era o reflexo de sua inquietude noturna. Como não achara palavras adequadas — às vezes, elas nos faltam, é verdade — levantou-se e foi até uma cômoda. Abriu a gaveta e pegou uma foto. Ao olhar a fotografia teve a sensação de que o mundo inteiro se estendia diante de si.

Estavam ele e ela sentados à mesa que ele a pouco se encontrava. Era dia, provavelmente, de verão. Os pequenos olhos da moça estavam ainda menores, devido aos raios de sol que iluminavam o seu rosto. Ela estava com um pijama florido e segurava uma xícara de chá com mel, assim como ele. Comiam pão com geleia. Era uma geleia dessas de verdade, com pedaços de fruta, que não se fazem mais como antigamente. Ele nunca esquecera o sorriso dela, que transmitira todo amor que havia entre os dois. Guardara o momento no âmago do seu ser e não apenas na fotografia. Foi um café da manhã sublime, cheio de palavras não ditas.

Levantou seu olhar da foto e percebeu que a falta de palavras nem sempre é ruim. Caiu em si e voltou para o presente. Entendeu que muita coisa fica por dizer. Talvez, por esse motivo, não tenha achado nada coerente para anotar no caderno de espiral. Voltou seus pensamentos para o momento da foto. Como o tempo passara… Já não lembrava se havia tomado chá com mel ou limão. Tinha lembranças, apenas. Ou seriam lembranças da lembrança?