DIA 01

Cena rock dos anos 2000

A verdade é que na hora que eu propus o desafio eu já estava muito bela ouvindo rock baiano dos anos 2000 e foi isso que me deu o estalo de continuar 20 dias nesse processo e criar o desafio pedindo recomendações.

Não posso dizer que é uma cena que eu desconheça, talvez o melhor conceito seja “pouco explorada”. Obviamente conhecia todas as bandas que parei pra ouvir ontem, mas não posso afirmar que tinha ouvido CDs inteiros, por exemplo. Já tinha ido para shows de algumas quando morava em Salvador e costumava ouvir muito em carros e casas de amigos. Mas sabe quando você deixa a música de fundo e não para para REALMENTE ouvir?

Então fui lá e me comprometi a ouvir todos os álbuns disponíveis no Spotify de: (1) Scambo; (2) Pirigulino Babilake; (3) Vivendo do Ócio; (4) Maglore; (5) Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta; e (6) Canto dos Malditos na Terra do Nunca.
Infelizmente muita coisa ainda ficou pro dia 02. Acho que fui inocente de achar que ia dar pra escutar tudo (que eu julguei interessante) de rock baiano atual em apenas um dia…

(1) SCAMBO
Tinha que começar por essa banda que tanto toca aqui em casa. Minhas housemates são fãzaças e eu já fui arrastada para um show por esses dias aqui em São Paulo (que foi incrível, inclusive). 
Portanto, posso considerar como banda conhecida, porém não explorada. 
Por coincidência, tinha acordado com uma música deles martelando minha cabeça, então coloquei minha caixinha de som pra funcionar e dei play nos álbuns (todos no Spotify, bênção!) em ordem cronológica: Exerça (2003); Vermelho (2005); Flare (2012).
Posso afirmar que a “maldição do segundo CD” alcançou eles e que Vermelho é bem diferente musicalmente de Exerça, enquanto Flare se aproxima mais da pegada inicial. Não me interpretem mal achando que isso é ruim, porque Vermelho é MUITO bom também.

Motivos para gostar: 
(a) O que mais me atrai e sempre me atraiu no rock baiano é a pegada diferenciada do som. Sim, temos guitarras legais, mas existe uma misturinha interessante rolando ali de outros ritmos, como um pouco de reggae, um pouco de música nordestina. Qualificaria como “rock contemplativo”, dá pra ficar de boa em casa ouvindo tranquilamente sem sobressaltos.
(b) As letras são ótimas. Sério, eu tenho um problema com rock nacional em geral por causa das letras, que ao longo das décadas foram perdendo qualidade. E também tendo a não gostar de refrões repetitivos e pouco inteligentes. Com Scambo isso não acontece e dá pra efetivamente ouvir a letra da música palavra por palavra, apreciando a poesia da coisa.
(c) Sem gritaria. Isso é uma tendência na minha vida, de não gostar de cantores gritões em qualquer ritmo musical e qualquer idioma, por isso que até em minha fase mais hardcore metaleira eu não curtia os Slipknots da vida. Mesmo nas músicas mais pesadas, Pedro Pondé é ótimo em dar ênfase pela entonação ao invés de gritar e isso me faz atribuir várias estrelinhas pra ele.

Motivos para não gostar:
(a) Não sei como alguém pode não gostar de um som tão legal e diferente, com várias influências musicais em uma coisa só. Sorry, não consigo pensar em um motivo, a não ser não gostar de rock.

Como essa trilha afetou o meu dia:
Basta dizer que eu deixei tocando enquanto cuidava de afazeres, cozinhava, lia, estudava e foi um ótimo elemento de relaxamento nessas tarefas, até o dog curtiu.

As escolhidas para a playlist:
Meu Ar (Vermelho)
Roda Gigante (Flare)

(2) PIRIGULINO BABILAKE
Essa entra na categoria de “já fui pra show mas não prestei atenção”. Já comemorei meu aniversário com Pirigulino e devo ter ido a mais de um show deles com repertório em homenagem a Novos Baianos, mas nunca tinha efetivamente escutado a produção autoral da banda com atenção, realmente ouvindo letra e música. 
Pois bem, indignada com minha displicência, fui lá e dei play em Rosa Fubá (2010) e no EP Quarto Crescente (2013), de novo na ordem cronólogica e de novo tudo disponível no Spotify para nossa alegria.

Motivos para gostar:
(a) Posso afirmar com tranquilidade que das bandas de rock baiano que eu já conheci, Pirigulino é a que tem a pegada mais nordestina enraizada. E como eu sou totalmente Nordeste proud, eu adoro ouvir ali no meio da música um samba, um baião apimentando o negócio. O resultado dessa mistureba é realmente incrível e eu juro que dancei em vários momentos.
(b) De novo, a poesia. Desculpa aí, Brasil, mas a música baiana é realmente portadora de bons letristas (alô, Caetano) e a de Pirigulino é tão especial por me fazer sentir em casa. E por ser SIMPLES. Meu Deus, como eu gosto de música simples e gostosa.
(c) Assuntos muito nordestinos/baianos. Separei da parte das letras porque acho isso muito importante em uma banda, trazer elementos de suas origens, sabe? Bom, posso falar que é Pirigulino fala sobre de onde ela vem com muita propriedade.

Motivos para não gostar:
(a) Aos puristas musicais, Pirigulino não vai agradar por causa da mistureba de ritmos.

Como essa trilha afetou meu dia:
Fazia muito tempo que eu não cozinhava dançando. E eu dancei não foi pouco, sobrou até pro dog me acompanhar nos passinhos de forró.

As escolhidas para a playlist:
Bossas (Rosa Fubá)
Ela (Rosa Fubá)

(3) VIVENDO DO ÓCIO
Essa eu conhecia mais de nome que de música, porque a vibe nunca bateu muito com a minha. Lembro deles ganhando o VMB (que saudade da MTV) e de aparecer com certa frequência na MTV.
Para ouvir rock nacional eu sempre gostei de uma pegada mais tranquila e Vivendo é bem mais puxada pro rock’n roll que as outras bandas.
Mas como parte do desafio presume explorar novas experiências, lá fui eu de peito aberto. Talvez pela pegada das bandas anteriores eu não devesse ter ouvido ela ontem, pra não destoar muito. 
A discografia completa também tá no Spotify e começa por Nem Sempre Tão Normal (2009), segue com O Pensamento é um Ímã (2012), e Selva Mundo (2015), além de ter dois EPs intermediários.

Motivos para gostar:
(a) Vivendo do Ócio é o que eu chamaria de rock agitado e a pegada deles me lembra um pouco o Queens of the Stone Age, bem puxada na guitarra e bateria mais marcada e ritmada. Gosto muito desse estilo, mas não no dia-a-dia, porque costumo ouvir coisas mais calmas enquanto toco meus afazeres. Porém, se eu precisar acordar ou me agitar, agora vou pensar seriamente em colocar eles pra tocar.
(b) É um clássico, vai. Essa pegada roqueira no Brasil não tem tantos adeptos desde que os nossos clássicos foram se “amaciando” (vide Titãs antes e depois). Isso me fez viajar seriamente em possíveis influências dos caras e me trouxe pra um lugar de conforto no rock.

Motivos para não gostar:
(a) Talvez pelo que eu disse, de ser mais agitado, inquieto, o ritmo pode deixar algumas pessoas desconfortáveis. Mas não estamos aqui falando de gritarias e pancadões, é um agito que faz bem em alguns momentos.

Como essa trilha afetou o meu dia:
Minha capacidade de concentração foi lá pra perto do zero.

As escolhidas para a playlist:
Nostalgia (O Pensamento é um Ímã)

(4) MAGLORE
Aquele aniversário com Pirigulino também teve Maglore e lembro que saí de lá achando muito legal. Mas lá nos idos de 2010 não tinha Spotify e o Youtube ainda era terra de ninguém, então acabei não “me aprofundando” muito na banda.
Ao longo dos anos acabei ouvindo uma coisa aqui e outra ali, mas de novo passei incólume à divulgação de álbuns e me limitava à experiência no carro e casa dos amigos. 
Nos últimos anos, desde que saíram de Salvador e vieram pra São Paulo, a banda se profissionalizou demais e tem galgado muito espaço, inclusive se apresentou no Lollapalooza esse ano. Não é pra qualquer um.
A discografia completa também está no Spotify e ouvi na ordem de novo, começando por Veroz (2011), depois com Vamos pra Rua (2013) e III (2015).

Motivos para gostar:
(a) Aqui eu faço minha qualificação de Maglore como um indie rock baiano. É a banda de todas as que conheço que tem uma pegada mais nesse estilo, que me agrada bastante. A produção é toda bem coesa também, o que faz a gente passar de um álbum pro outro sem sentir que houve mudança radical de ritmo, por exemplo. 
(b) A voz de Teago, o vocalista, me agrada demais. Eu sempre tendi a gostar de vocais de voz mais grossa e a voz dele é muito legal pro som que fazem, fica tipo a combinação perfeita.
(c) Dessa coleção de bandas baianas é a que mais me lembra as bandas do rock brasileiro dos anos 80/90, tem um quê de vintage no som que é muito legal.

Motivos para não gostar:
(a) Pela pegada mais indie rock, há aqueles que dirão que é uma banda muito “gringada”, ou seja, com pouca brasilidade e pouca baianidade, no caso.

Como essa trilha afetou meu dia:
Fiquei super relaxada de novo e poderia ouvir em qualquer ocasião. Em breve vai rolar caminhada ao som de Maglore porque, meu Deus, que ritmo mara para caminhar vendo a vida passar.

As escolhidas para a playlist:
Tão Além (Veroz)
Todos os Amores são Iguais (Veroz)
Sobre Tudo que Diz Adeus (Vamos pra Rua)

(5) RONEI JORGE E OS LADRÕES DE BICICLETA
Essa foi quase unanimidade em meu post de pedido de recomendações. Além disso, já tinha ouvido de uma grande amiga que “é apenas a melhor banda do mundo inteiro”. De todas que ouvi ontem é a que eu menos conhecia (shame on me) e que me exigiu mais atenção pra poder “julgar”.
Só tem dois álbuns (por que eu achei que tivesse mais?), Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta (2005) e Frascos, Comprimidos, Compressas (2009), ambos no Spotify, que já posso considerar um fã de rock baiano e deixar meus parabéns.

Motivos para gostar:
(a) Achei super telefunksoul essa pegada deles, com uma guitarrinha bem marcada que me apetece demais. Vamos lá, estamos falando de rock, quando vem uma guitarrinha solo na música eu já fico mais feliz. E se eu não estou maluca, rola uma guitarra baiana de vez em quando por ali, o que me fez sorrir ainda mais por motivos de: eu amo guitarra baiana (salve salve, Novos Baianos e A Cor do Som!).
(b) Animada e agradável, com um quêzinho de engraçadinha. Gente, que gostosa essa banda! 
(c) Rola um samba assim de inspiração, e tem coisa melhor do que rock com samba? Só rock com baião.

Motivos para não gostar:
(a) De novo, não sei. É um som muito amigável!

Como essa trilha afetou meu dia:
Mais uma sessão de dança pela casa.

As escolhidas para a playlist:
Aquela Dança (Frascos, Comprimidos, Compressas)

(6) CANTO DOS MALDITOS NA TERRA DO NUNCA
Me perdoem a ignorância mas eu não sabia que CMTN era baiana. Pior, eu conhecia, lembro deles participando do Banda Antes MTV (inclusive, quanta coisa legal eu ouvi por lá) e simplesmente apaguei da memória o fato deles serem da terrinha.
Corta a cena estou eu tendo flashbacks de minha época de telespectadora MTV e procurando no Spotify a discografia que se resume a um álbum, Canto dos Malditos na Terra do Nunca (2005) e um EP O Sol de Lá (2015).

Motivos para gostar:
(a) Primeira banda de rock baiano dessa lista que tem uma moça no vocal, palmas!!!!! E vamos lá, Andrea tem uma voz super exótica que vale a pena ouvir só por isso.
(b) Posso estar equivocada e um pouco louca, mas não consigo pensar neles sem pensar em Portishead. Não exatamente do mesmo jeito, mas existe uma pegada melancólica e meio fossa em CMNT que me remete a essa ultimate banda-de-fossa-da-minha-vida. Obviamente a pegada deles é rock, mais grunge eu diria, que Portishead que é, sei lá, trip hop, seja lá o que isso significa. Em termos nacionais, me lembra muito o estilo do falecido, porém amado, Gram.

Motivos para não gostar:
(a) A melancolia, talvez.

Como essa trilha afetou meu dia:
Rolou uma pequena depressão. Juro.

As escolhidas para a playlist:
A Falta (Canto dos Malditos na Terra do Nunca)

SALDO DO DIA
Foi um bom dia esse, né, mas eu fui um pouco tendenciosa em juntar todas essas bandas que eu já conhecia, sabendo que em geral eu iria curtir.
A grande surpresa fica pro Spotify, esse lindo, que tem todo mundo completinho por lá.

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