Sobre o pecado e sua origem

Deus criou o mundo em seis dias, mas no sétimo, se cansou. Ligou para todos do prédio e avisou que teriam que inventar algo pro novo mundo, afim de que agilizasse o processo da criação divina. Todos tiveram somente poucas horas para prepararem apresentações em slide seguindo as normas possíveis do profissionalismo cristão.

No dia da reunião, todos os que ali estavam, contribuíram, indo por ordem voluntária.

Pedro se apresentou de imediato e fez questão de cumprimentar todos que estavam ali presentes.

Começou, triunfante:

“Pensei e concluí que o teto seria logo sujo pela nova raça de seres. São tão pequenininhos, não conseguem pegar um pano e passar para cuidar do nosso teto. Então pensei na chuva! Ela funciona assim, a gente joga água daqui de cima lá pra baixo e limpa tudo que tiver no meio, inclusive nosso terraço maravilhoso.”

Grande parte da sala foi a loucura, que ideia genial! Pedro havia se preparado para a incapacidade humana. Deus logo ordenou o silêncio e pediu para que mais um funcionário se apresentasse à frente.

João chegou e logo recebeu olhos tortos, menos de Deus. O boato pelo escritório é que João tinha feito serviços pra Deus, serviços fora do trabalho. O pobre coitado foi logo apelidado de puxa-saco.

Começou, envergonhado:

“Pensei e concluí que a nova raça vai ficar cansada! Fraca. Vai ter que descansar em algum lugar mas no escuro? Não, não. Minha invenção é a fogueira! O fogo vai na madeira e acende tudo ao redor. A nova raça descansará em paz e pode usar do fogo para cozinhar, comer, diversas coisas.”

A sala ficou em silêncio mas Deus fez questão de ordenar a todos uma grande salva de palmas. Ele estava alegradíssimo para a ‘fogueira’. Deus, relutante, pediu para João sentar e logo chamou outro trabalhador.

Nesse caso, era uma trabalhadora. A quieta e reservada Conceição andou, tropeçando nas dobras do tapete, até a frente da sala.

Começou, tímida:

“pens…os…..seres….proteção….indesejada….camisinha…..genit…e poder es….lher…..tiv….os filhos….e..tamb….aju…..em….doen….Obrigado.”

Saiu correndo do palanque e foi para o banheiro. Recebeu alguns assovios de paquera no caminho para fora e os ignorou pois estava prestes a ter um ataque de pânico. Deus não entendeu muito bem mas gostou da ideia. Confiava em Conceição.

Então, Deus chamou Lúcifer, inspiração para a criação da preguiça, anjo sem nenhum caráter.

Lúcifer andou até o palanque, arrastado, quase caindo de tanto sono e falta de vontade. Ah, que preguiça!

Começou, bocejando:

“aaaaaaah, pensei. só um pouquinho. a palavra.”

Os trabalhadores ficaram confusos, um deles, no fundo, exclamou:

“Do que anjos você tá falando?”

Lúcifer esclareceu:

“artigo, adjetivo, pronome, numeral, substantivo e verbo, advérbio, conjunção, interjeição e preposição. Entendeu, meu querido?”

Deus achou a ideia interessante, concordou com ela. Apesar de toda as intrigas que ocorreram naquele momento da reunião, Deus os ignorou e deu à nova raça, o dom da palavra. A capacidade da linguagem. Pouco tempo depois, se arrependeu.

Da palavra nasceu o conflito e Lúcifer foi punido.

Prometeu deu o fogo aos homens e foi punido para toda a eternidade. Sofrendo, dia após dia, a dilaceração de seu fígado. Mas os homens sempre tiveram o fogo.

Lúcifer inventou o pecado. Sua punição foi observar e cuidar de todos os homens e mulheres que cresceram pelo fruto de sua invenção. E lá permanece até a eternidade. Deitado, com calor, com preguiça. E aqui ficamos, com a palavra, o pecado.

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