BELA, RECATADA E RETRÓGRADA

Em meio à exaltação dos movimentos feministas no Brasil, Jornalistas mulheres adotam discurso misógino em reportagens sobre política

O jornalismo, assim como em todos os setores profissionais na sociedade brasileira, ainda possui grandes influências da cultura machista. Apesar de todas conquistas e tabus derrubados pelas mulheres nesse setor, ainda é notado fortes resquícios de sexismo na profissão, principalmente na área de Política.

Com um ambiente expressamente masculino, a Política é uma área em que as jornalistas mulheres realizam uma luta diária contra o Machismo. O menosprezo, assédio e intimidação são ingredientes diários do tratamento dos políticos com às jornalistas, confirmando que apesar de muitas vitorias da luta feminista no Brasil, a guerra está longe de acabar.

Mas, um fenômeno atípico que levanta grande curiosidade sobre o machismo no jornalismo foi desenhado nos últimos meses. Duas jornalistas mulheres, Débora Bergamasco e Juliana Linhares das revistas Isto É e Veja, respectivamente, assinaram reportagens com características misóginas.

Em abril de 2016, a revista Isto É publicou a reportagem “Uma presidente fora de sí”, assinada por Débora Bergamasco e Sérgio Pardellas. A reportagem relata uma presidente Dilma Rousseff a beira da loucura. Taxando-a como desequilibrada e agressiva, principalmente com seus funcionários, a revista remete o “péssimo governo” da presidente ao seu descontrole mental. A revista utiliza até uma psiquiatra para esclarecer os cinco estágios da loucura. (A presidente se encontra no segundo estagio.)

A reportagem foi duramente criticada por organizações feministas. Os críticos apontaram um caso grave de misoginiae condenaram a revista por apontar como principal motivo do “desgoverno” de Dilma Rousseff seus hipotéticos defeitos emocionais. Eles alegam que o motivo apresentado para justificar as falhas administrativas da presidente tem relação ao fato dela ser mulher. Essa crítica é coerente ao se constatar que, em um passado próximo, não há, na revista Isto É, reportagens negativas relacionadas ao trabalho de homens que sejam justificados pelos seus destemperos emocionais. O historiador Amilcar Torrão Filho, professor de História da PUC/SP, em seu artigo: “Uma questão de gênero: onde o masculino e o feminino se cruzam” aponta que esses pensamentos machistas relacionam as necessidades afetivas às mulheres e as caracterizam como ruins.

“As mulheres não devem ser homens porque elas não têm capacidade para isso, porque isso vai contra sua natureza. E o homem não deve se rebaixar à condição de uma mulher, por isso ele não deve se preocupar em chorar ou demonstrar seus afetos, pois isto faz parte de seu lado feminino.”, diz Amilcar.

Bela, recatada e do lar

A segunda reportagem que causou agitação entre as bandeiras feministas foi o texto “Bela, Recatada e do Lar”, publicado pela revista Veja em abril de 2016 e assinada pela jornalista Juliana Linhares. A reportagem faz uma análise do comportamento da nova primeira-dama Marcela Temer, esposa do agora presidente da república, Michel Temer. A manchete resume o que a reportagem apresenta. A primeira-dama é descrita como uma pessoa discreta, que fala pouco, usa saias na altura do joelho, e seu dia se limita a levar e trazer seu filho da escola.

A crítica feita pelos movimentos feministas ao texto está no título. A frase “Bela, recatada e do lar” remete ao Brasil da primeira metade do século XX. Época em que o sexismo era ainda presente de forma dominante na cultura brasileira, no qual a mulher era rotulada com a principal guardiã do lar, principalmente na sociedade paulista. Em uma época em que o movimento feminismo não tinha se aflorado, era de notar que a opinião pública valorizava os atributos de beleza, pudor e castidade em uma mulher. Utilizando um jargão popular, essas características faziam parte do signo “moça de família”.

Segundo o jornalistaAdriano Cruz, em seu artigo“A construção da insegurança econômica nas capas da revista Veja”, a revista voltou a adotar um discurso misógino e sexista da primeira metade do século XX. Embora, não declare publicamente a ideologia conservadora, a Veja faz um discurso ambíguopara seu leitor, como vemos no título da reportagem, com uma linguagem de sentido conservador levando-o manipulação.

“A revista Veja possui um discurso econômico conservador, a utilização de metáforas visuais são uma forma recorrente de figurativização e a tematização da insegurança econômica é perceptível nos ditos e nos não-ditos do texto.”, afirma Adriano.

Apesar das revistas Veja e Isto É sigam uma corrente política e ideologia conservadora é curioso perceber que mulheres jornalistas também façam parte desse movimento retrógado. Muitos tentam entender porque as jornalistas deram seus nomes reportagens que agridem o gênero feminino. Entre a possibilidade de realizarem a reportagem por terem uma consciência realmente machista ou trabalharem seguindo contrariadas a linha editoria das revistas, as duas situações são preocupantes, dado todos os desafios que as mulheres ainda enfrentam contra o sexismo na profissão.

Por Eduardo Martins

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