Sobre a efervescência interna


Escrevo. Escrevo para dar voz aos meus falares internos e indevidos. Escrevo para perpetuar a minha existência e singularidade. Escrevo, acima de tudo, para expurgar parte da minha efervescência que se traduz em letras, sejam elas vogais e/ou consoantes. E antes que me reprimam por me expulsar de dentro de mim, digo que nossos corpos e mentes são vulcões prontos para se exprimirem. Antes que peçam (e mandem) que eu retorne a mim, digo que sou uma galáxia pronta a ter um big bang por dias, minutos, horas, anos e eras. Sou areia em vira-tempo, sou vento em arvoredo. Sou água rompendo falésias, mares, rios, pantanais. Sou corpo rompendo corpo. Sou mente rompendo mente. Sou a quebra dos grilhões, a explosão das amarras — evasão dos presídios.

O silêncio não se faz agora porque escrevo, e minha mão, mente, dedos, lápis e papel me ajudam a ecoar em mim a minha verdade. Meus guias, orixás e guardiões estão aqui comigo nesse momento para testemunharem aquilo que não digo, mas aclamo, aquilo que não digo, mas vivo.

O processo de ruptura consigo conta com a nossa própria força de sermos nós. Conta com a ruptura de ser, de pensar, de agir, de (des)construir, de se esvair. Sou muitas para ser somente uma. Sou muitas para ser um corpo contido, retido, represado. Preciso dizer que quando deslizo entre as palavras sou outra que não esta. Sou outra que não me pertence e nem é alcançada. Minha substância pertence a mim; minha escrita barulhenta, não. Reafirmo que sou potência para eclodir, porque acredito na essência daquilo que pulsa. Sei também que preciso me convencer em alguns momentos que tudo é tempo, relógio, marcador, cronômetro, ponteiro, engrenagem (e nem quero ser). Não quero ser parte, quero ser todo. Não quero mecanismos, estruturas, sistemas; quero rizomas, caminhos, acúmulos.

Quero aquilo que é anacrônico, a temporal ou temporal de vivências (enxurradas de subjetividade). Quero transbordar em mim (e nos outros) sem fronteiras, contenções e barreiras.

Que não sejamos represa, nem copo, nem algemas, nem bengalas, nem prisões. Que queimemos toda nossa potência, que evaporemos toda a vivacidade, que bebamos da fonte da vida.

Que sejamos integralmente nós.

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