Voltei a anotar sobre você

Não consigo acreditar que estou escrevendo sobre você novamente. Quando me despedi de você, tranquei a porta tendo a certeza que jamais voltaria. Comecei a organizar toda a bagunça deixada (propositalmente?) por você.
Fiz uma nova decoração, troquei o aromatizador de ambiente que constantemente trazia você de volta, até coloquei carpete e comprei móveis novos e mais compactos.

Satisfeita com toda essa mudança, recuperada dos ferimentos, com muita segurança adquirida nas noites de insônia.

Abri as janelas.

O aroma ainda com um toque de outono completava o ambiente tornando tudo muito agradável. Vi almas e almas passarem, reservei meu tempo pras mais interessantes e até me apeguei a uma bem especial. Ela gostou da decoração e eu do papo. As tardes eram muito agradáveis, mas as madrugadas...
era aí o problema, eram calmas demais, tranquilidade demais sempre me deu nos nervos.

Você chegou (poderia dizer voltou?) na primavera. A casa toda tinha cheiro de flor, sol e doce. Aliás, eu deveria estar preparando minha especialidade na cozinha quando ouvi sua voz no portão. Dizia coisas quase inaudíveis, corri pra janela e seu perfume me espancou antes que eu pudesse te ver. A mesma silhueta magra e alta, cabelos pretos e a droga do sorriso indecifrável.
Agora sua postura sempre tão perfeita vacilava as vezes, e seu dedo não deixava de empurrar a armação preta que agora completava seu universos castanho. Sem ela você dizia não enxergar, e fico me perguntou se te ajudou a ver seus enormes erros.

Você se dizia tão arrependida. Eu com tanto medo de acreditar.

No hall de entrada ficam todas as chaves jogadas pelos que foram embora, a sua se acumula a elas. Você prestou atenção ao deixa-la cair e saberia identificar qual encaixa na fechadura que, por descuido ou esperança, esqueci de trocar?

Me pergunto se você sequer quer entrar novamente. E eu, será que desejo que ache logo a chave e venha conhecer as coisas novas?

E desde que retornou, as horas passam em um turbilhão, fazendo parecer que calmaria em mim é coisa de outro mundo.

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