Respira, inspira.

Há três semanas fui em uma pneumologista, ela atrasou mais ou menos uma hora para me atender. Eu queria ir embora dali, pensando que seria melhor ir para o trabalho, já que estava atolada de coisas para entregar naquela semana, mas fiquei e esperei. Quando chegou minha vez, a doutora me fez a famosa pergunta clichê de médico “O que você sente?”, resposta que pelas frequentes visitas a consultórios e hospitais nos dias anteriores, já estava na ponta da língua. Como uma bela cena de filme gravada, sem erros.

Contei para ela sobre a minha aventura exacerbada de carnaval, sobre os quatro dias de imunidade baixa, má alimentação e péssimas noites por conta da adrenalina incessante que habitava meu corpo e me impedia de dormir, que não ligava para quão tarde fosse ou quão cansada eu estava naqueles dias.

Conversamos sobre a tosse, a febre, o chiado e todo cansaço que eu sentia ao respirar mais forte. Ela me disse que mesmo que eu nunca tivesse apresentado sinais de asma, eu poderia ter desenvolvido agora, na vida adulta. E que mesmo minha mãe e minha irmã possuindo outros tipos de alergia, em mim, essa alergia poderia se manifestar de outra forma. Em asma.

Eu já estava melhor e mesmo assim ela me pediu uns exames para checar se tudo estava na sua devida ordem. Contudo, me explicou que a asma não é algo fácil de ser diagnosticado, a não ser que seu pulmão apresente alguma irregularidade, geralmente causada por anos de crises intensas — o que provavelmente não era meu caso, sabendo que essa havia sido a primeira vez em que ficava assim — ou também, se você estiver no meio de uma crise asmática. Ou seja, caso eu não esteja no meio de uma crise, nem eu e nem ninguém vai saber da existência daquilo, mesmo que me perguntem ou examinem.

A asma me lembra a ansiedade. As crises ansiosas também tornam a respiração mais difícil, meu peito também dói, minha cabeça se perde e a minha disposição em ver ou sentir as coisas se altera instantaneamente, às vezes por minutos, outras vezes por dias. Assim como a asma, é atemporal.

Quando não se consegue respirar, o mundo fica denso, pesado demais, qualquer barulho ou alteração ao entorno te deixa inquieto, preocupado. Como se cada pedaço de ar precisasse permanecer no mesmo lugar, pois só dessa forma será respirar de novo. É como se cada pequeno vestígio de fumaça trouxesse de volta a tosse e o nervosismo causado medo do que há por vir — seja lá o que for.

A ansiedade também me lembra a asma. Ela não é tão perceptível ou detectável, a não ser que você esteja em crise, e mesmo assim, pode ser uma crise silenciosa, que só você irá perceber. Ou então, só é notável quando ela já lhe causou um estrago grande demais para ser reparado, causado por crises intensas.

Ambas são silenciosas e intensas. Se aquietam em momentos da vida, horas por dias, dias por anos. Partem sem deixar a certeza se voltam ou se foram de vez.

E você respira,

Inspira.

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