nem meio cheio, nem meio vazio

Tenho uma lista enorme de coisas estranhas das quais eu lembro mais do que datas de aniversário e afazeres com curto prazo, uma delas é o momento em que ouvi pela primeira vez algo relacionado a reciprocidade.
 
Na época eu não fazia a mínima ideia do significado da palavra, foi na 6ª série e quem me disse foi um amigo bem próximo, da 7ª série — que talvez nem se lembre. Inclusive, acredito que nem ele soubesse o real significado da palavra e tenha só relacionado a algo que aprendeu sobre recíproca matemática ou gramatical.
 
Lembro que assim que cheguei em casa, pesquisei a palavra na internet, e na minha inocência de 12 anos, coloquei na cabeça que reciprocidade era quando alguém fazia uma troca inteiramente mútua com você, que se eu doasse 10, receberia 10. Tudo no mesmo peso e na mesma medida. 
 
Com isso, passei a cultivar um grande carinho pela palavra e por qualquer situação e frase em que ela fosse presente, “a recíproca é verdadeira”, e até então, ela era. Afinal, esse trato com o universo me daria a garantia de sempre estar segura do que estava por vir.
 
E um dia conheci alguém — muitos anos depois da 6ª série. No começo tudo parecia ser recíproco, a palavra ecoava na minha cabeça me lembrando de um som bom, até que algum tempo depois a troca parecia desigual, menos mútua, coisas começaram a ficar pra trás, retornos não eram nem recebidos ou dados, mas ainda sim, cobrados. Não deu certo.
 
Logo conheci outro alguém, mesmo começo, agora a reciprocidade sussurrava feito calmaria nos meus ouvidos. Mas honrando o mesmo começo, logo teve o mesmo final, a medida que se dava não era a que se recebia, um copo sempre meio cheio e o outro meio vazio. Mais um não.
 
Depois conheci mais um alguém, outro alguém e mais outros alguéns. No caminho fui percebendo que nem todo mundo pesava 50 kg como eu, alguns pesavam 45 kg e outros mais de 90 kg. E que também algumas pessoas chegavam a medir 1,90m ou mais, enquanto eu seguia com meu humilde 1,58m.

Nunca fui muito confiante em meus cálculos matemáticos, mas algo precisava ser lógico e racional em meio a tantos números e comparações. Diante disso, percebi uma das coisas mais nítidas — e mesmo assim, invisível para muitos — sobre a vida: pessoas não tem o mesmo peso, muito menos a mesma medida.

Compreendi que se assim é, o meu 10 pode ser o seu 8. O seu 7 pode ser o meu 3. E o um pode ser pouco, ao mesmo tempo em que o dez pode ser muito.
 
Desde então, fui treinando minha mente para individualizar qualquer pessoa presente ou nova no meu caminho, e todos começaram a se transformar em histórias e medidas inteiras. Cada um seguindo com sua proporção, tamanho, peso, sorriso, abraço, limite e porquês diferentes.
 
E então, depois disso tudo, conheci mais algumas dezenas de alguéns. E foi 1,58m contra diversas outras medidas, não foi recíproco em momento algum, mas foi inteiro.

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