Gravidade

“Oi, Samantha. Sou eu. Olha... to te ligando só pra avisar que está muito pesado e não aguento mais segurar. Por favor, entenda”.

“Oi? Quem fala?”

“Samantha?”

“Moço, acho que você ligou por engano. Aqui quem fala é a Luíza.”

“Ops. Perdão...”

“Espera! Não desliga. Você está bem? O que está pesado? Pelo seu tom de voz, você parece estar nada bem.”

“É a gravidade, Luiza. Ela pesa. Me puxa e eu não consigo resistir mais.”

“Onde você está?”

“Na ponte da liberdade.”

“Sério?? Olha, não sai daí. Estou indo. Aguenta só mais um pouquinho.”

Então surge uma moça de cabelos selvagens e castanhos debaixo do poste, do outro lado da rua, me encarando meio nervosa. Segurando sua barriga. Talvez seja dor de barriga, medo, misturado com ansiedade e curiosidade por estar ajudando um desconhecido. Mas porque falei onde estava? E por quê raios ela veio aqui?

“Samantha?”

“Na verdade meu nome é Tom. Oi, Luíza.”

Então ela senta na beirada da ponte e me convida pra acompanhá-la. Pergunta o que eu tenho e por ela ser uma total desconhecida, eu conto. Não tudo, mas o básico, só pra ela ter uma noção do que acontece.

“Eu sinto como se fosse um peso pra todo mundo. Me contam dos problemas e me usam como âncora até melhorarem e depois me abandonam. Então eu vou tomando os problemas dos outros pra mim e vou guardando. Contam de abusos, seja sentimental, físico, sexual, verbal... Tem as ansiedades e os medos, às vezes algumas histórias realmente engraçadas e boas, mas na maioria, dores e anseios. Então, tudo o que confiaram a mim está me puxando de um lado para outro e pesando. Só que há alguns conflitos tão grandes que eu realmente não consigo segurar. Segredos tão fortes, que me afundam. Não quero mais guardar isso. Não dá mais. Então quero me afogar e me libertar do peso. Não sei se é a melhor escolha do mundo, mas é isso aí. Acho que te contei tudo.”

“Massa. Ridículo também. Você sabia que todo mundo tem um propósito nessa vida e um porquê de ter nascido, mas 87% das pessoas morrem sem sequer imaginar a razão disso tudo? Doidera, né? Então, talvez você esteja aqui pra ser confidente. Uma peneira.”

“Não entendi o que isso tem a ver comigo.”

“Talvez o porquê de você estar aqui nesse planeta seja a sua lealdade as pessoas, pra elas se libertarem. Mas você não pode ficar rasgando e se mutilando com as histórias e peso dos outros. Carrega só o seu, entende? Tem que ser como uma peneira. Só sai dela o que presta. Então filtra o que você está sentindo. Por que a gravidade te puxa pra baixo, mas é também o que te mantém em pé.”

“Eu já penerei. Mas realmente não dá mais.”

“E o que te aflige?”

Nem sei mais. Acho que cheguei ao ponto que junto tudo e misturo em uma panela.”

“Vai dar uma merda muito grande essa sua comida. Porque você não escreve sobre essas histórias? Aí depois você queima as folhas.”

“Essa é realmente uma ótima ideia. Você foi realmente maravilhosa, Luh.”

“E quem é Samantha?”

“Minha madrinha e melhor amiga. Mas na verdade ela morreu ano passado em uma tragédia no Suriname. Esse era o número dela e liguei pra deixar recado com a esperança de que ela não tivesse realmente partido. Mas aí você apareceu. Obrigada por ter vindo.”

“Que isso, cara. Eu estava deitada na cama esperando os remédios fazerem efeito. Esse barrigão aqui foi um estupro. Mas não absorva meus problemas pra ti. Por favor.”

“Agora já era. Acho que o porquê da minha vida pode ser cuidar de você.”

“Ou podemos os dois pular daqui”

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