Visitei um dos países mais perigosos para mulheres que gostam de viajar

Parque Tayrona, Colômbia, 2016. Foto: Ana Oliveia

O Narcotráfico tornou a Colômbia num país perigoso para os viajantes e “Narcos” fez a curiosidade crescer em muitos. Não foi a série que me fez visitar aquele que é considerado um dos países mais perigosos para mulheres que gostam de viajar. Na verdade, foram as cores do país e a boa disposição colombiana que me fizeram ter curiosidade em ver a série. Afinal, não foi a tanto tempo que a guerra de Escobar contra o Estado aconteceu…

Quando a minha amiga desafiou-me para ir à Colômbia, confesso que não sabia ao certo o que esperar. Não era um país que estivesse na minha wishlist, mas a ideia de finalmente visitar a América Latina agradou-me. Facilmente apaixonei-me pela ideia: casas coloridas, praias e ilhas paradisíacas e, claro, cultura.

Guatapé, 2016. Foto: Ana Oliveira

O facto de viajarmos em agosto também pesou na equação. Agosto não era um bom mês para visitarmos alguns dos países que ambas gostávamos de visitar. Como na Colômbia predomina o clima equatorial, agosto era perfeito. Lá existem duas épocas secas: de julho a agosto e de novembro a março. Era a altura certa para visitarmos, até por não ser época alta, tendo em conta que as férias grandes nos países vizinhos são depois.

Quanto à segurança tinha consciência que não se tratava de um dos países mais seguros do mundo, mas ainda assim, para mim, valia a pena. Claro que os amigos logo disseram: “cuidado para não serem raptadas”. Certo é que existe perigo em todo o lado. Temos que ter cuidado e consciência, especialmente, quando estamos longe do nosso país. Ficar, por exemplo, sem o passaporte pode ser um problema grave.

Vista da La Piedra Del Peñol, Guatapé, 2016. Foto: Ana Oliveira

E foram vários os avisos. Quase como se a Colômbia fosse uma prisão repleta de homens esfomeados prontos a roubar-nos, maltratar-nos e a usar-nos. Parecia que a nossa busca pelo paraíso, como dias de praia e sol, natureza e descanso, fosse uma ida ao inferno quase sem regresso.

E isso fica na cabeça. Cheguei, de mochila às costas, insegura à Colômbia. Era noite e íamos de transportes públicos até ao hostel que reservámos no Booking em Bogotá. Levávamos a morada e indicações no smartphone. Estava frio, nove ou oito graus. O tempo é assim em Bogotá. Frio, mas também quente. Num dia consegue-se viver as quatros estações. É importante ter atenção. Lá apanhei um escaldão na cara (não usei protetor solar).

Hostal Baluarte, Bogotá, 2016. Foto: Ana Oliveira

Encontrei em Bogotá uma cidade cosmopolita. Era sábado. As ruas estavam animadas e os bares cheios de gente. Não foi difícil encontrar o hostel, e perigo não houve. Infelizmente, estava muito cansada nessa noite. Oito horas de viagem mal dormidas seguidas de uma direta. Comi a arepa da minha vida ali numa espécie de roulote

O receio não é só com os de cá. Lá também há muito receio. A anfitriã do hostel, uma senhora muito simpática, mal dissemos que íamos sair para comer alertou-nos: “tenham cuidado, não levem os telemóveis. A esta hora é perigoso”. Mas era já ali ao virar da esquina. No que toca a perigo, não devia interessar se é já ali ou lá mais ao fundo. Acontece em qualquer lado se tiver que acontecer. Mas não foi o que pensámos. Era ali ao virar da esquina e, por isso, ignoramos o conselho e levámos os telemóveis no bolso. Arrisquei o meu iPhone 6, porquê? Não sei.

Bogotá, 2016. Foto: Ana Oliveira

Felizmente, correu tudo bem. E também não demorámos. Havia ainda muita gente na rua, jovens como nós que só queriam curtir a sua noite de sábado. Lá estavam eles na sua, sentados em roda no chão, uns com viola, outros só a conversar, outros a demonstrar arte circense. Também existiam muitos vendedores por lá. Crianças também a vender. Por ali havia muitos hostels, logo, por lá, também estavam outros turistas como nós.

Acredito no receio da anfitriã e de todos os outros locais que nos alertaram para ter cuidado, como o motorista da uber que nos deixou numa casa que alugámos no Airbnb em Cartagena das Índias. Acredito que já viram e escutaram muitas histórias com final triste, infelizmente.

La Candelaria, Bogotá, 2016. Foto: Ana Oliveira

Acredito também que os avisos dados pelos meus amigos e o medo que me incutiram foi baseado em preconceito, pois tal como eu na altura, pouco sabiam sobre a Colômbia. Sabiam que era o país do tráfico, da cocaína e de Pablo Escobar. Ainda assim, tal como a preocupação dos locais, sei que a deles também foi genuína e agradeço. Talvez até me tenha ajudado a estar mais em alerta e consciente…

A verdade é que a Colômbia é um país perigoso. A criminalidade continua a existir. Durante os 15 dias que lá estive, li a notícia que a polícia resgatou um grupo de crianças que eram drogadas e treinadas para matar.

Polícia nas ruas de Bogotá, 2016. Foto: Ana Oliveira

Também enquanto lá estive anunciou-se o acordo de paz entre a FARC e o Governo colombiano. Não vi colombianos a festejar, aliás, receberam a notícia com descrença e indiferença. O resto do mundo pareceu-me, pelas redes sociais, mais contente. Meses depois, o Presidente colombiano ganhou o Nobel da Paz.

E o perigo existe na Colômbia, mas também existe força de vontade e pessoas como nós que lutam por uma vida digna e por um país melhor e seguro. Nem todos querem roubar ou enganar. A maioria só quer viver em paz.

E lá estão alegres, prontos para dois dedos de conversa e curiosos para saber de onde és. Não é à toa que existem tantos bairros coloridos. Não pode ser obra do acaso.

Cartagena, Colômbia, 2016. Foto: Ana Oliveira

E nesses momentos, quando estás, por exemplo, em Palomino, em que te abrem as portas e tratam-te bem, lembras-te de tudo o que disseram sobre a Colômbia e sentes um aperto no coração. Aquelas pessoas não merecem que os criminosos ganhem sempre. Merecem paz e tranquilidade. Há mais gente a lutar por isto do contra isto.

A verdade é que cansa não saber se chegas a casa no final do dia. Se o teu filho volta. Eu fiz uma tour pela Colômbia de Bogotá até Tayrona e descobri lugares e pessoas incríveis. Em nenhuma altura senti me ameaçada ou em perigo. Viajei várias horas de autocarro. Havia sempre pelo menos uma senhora que ao entrar se benzia. Porquê? Porque queria chegar a casa sã e salva. Talvez porque sempre que entrasse em um daqueles autocarros pudesse ser o seu último dia: tanto podia haver um acidente como um assalto de mão armada. E quem gosta de viver com esta insegurança?