Considerações sobre um ônibus lotado

A humanidade presente em fatos do cotidiano e como é simples encará-la de forma construtiva.


Hoje, saindo as 5h do estágio, dei sinal pro primeiro ônibus que passou no meu ponto em direção ao centro da cidade. O dito cujo pára, e ao entrar, percebo que talvez tenha feito uma decisão duvidosa.

Após eu e minha amiga nos expremermos pra conseguir entrar e passar a catraca, fomos para o fundo (aparentemente o local mais vazio). Dois minutos depois, mais pessoas foram entrando e mais pessoas foram entrando, e mais pessoas foram entrando e MEU DEUS! Não tinha mais onde segurar, e cada guinada no trânsito era uma guinada do meu corpo sobre meus companheiros de batalha, e o contato físico era inevitável na lotação daquela lata de sardinhas ambulante.

Esse texto, porém, não se trata de uma reclamação sobre a má condição do transporte público ou a respeito do descaso das autoridades (embora esses dois fatos não possam deixar de ser citados). Mesmo tendo sido desconfortável fisicamente, andar de ônibus lotado, na minha opinião, é umas das melhores experiências que todos nós deveriamos ter. Me internem, ok.

Para ir ao trabalho de carro, coisa que geralmente fazemos sozinhos, logo liga-se o som ou a atenção fica totalmente voltada para o trânsito, sem interação social qualquer. Num ônibus vazio e confortável, a distração fica por parte de fones de ouvido e/ou livros, e raramente conversamos com quem está ao nosso lado. Mas num ônibus desconfortável, lotado de pessoas e sem a possibilidade de qualquer distração, todos nos tornamos melhores amigos em prol de uma única causa: reclamar.

E como essa arte une os brasileiros! Basta um dizer que o custo da passagem é um absurdo comparado ao serviço oferecido ou que somos tratados como lixo pelos governantes corruptos que todos já se envolvem numa discussão acalorada sobre os direitos dos trabalhadores, que inocentemente, apenas querem voltar pra casa depois de um dia de serviço!

É só Fulana dizer que já ligou insistentemente na empresa terceirizada responsável pela linha para reclamar, que Sicrano diz que eles não estão nem ai e que são todos uma praga. Até para o motorista, que pouca responsabilidade tem sobre a precariedade da situação, sobram comentários de repreensão.

Aliás, naturalmente somos assim. Se uma roupa de determinada loja não nos agrada devido a sua durabilidade, por exemplo, lá se vai um extenso e-mail para todos os contatos da lista a respeito dos abusos da loja com os clientes e de como nos sentimos enganados ao adquirir um produto de má qualidade assim. Por outro lado, se a roupa é bonita, com um tecido fino e que veste bem, o máximo que fazemos é comentar com alguém próximo que a compra valeu a pena e fim da história. A propaganda negativa sempre se sobrepõe à positiva.

Embora isso demonstre uma faceta egoísta e pessimista em todos nós, é interessante como nesses 20 minutos da bendita viagem no ônibus tive mais interações com desconhecidos do que na semana inteira. Conheci a Marta, empregada doméstica que ainda iria ao culto na mesma tarde, e para isso precisaria chegar até a rodoviária e pegar outro ônibus para sua cidade; o Carlos, que pouco falou sobre si mesmo, mas que todos os dias enfrenta a mesma lotação e está cansado; e a Dona Fátima, uma senhora que só fazia se abanar, despertando preocupação nos ocupantes devido a sua condição: que vergonha, com essa idade uma senhora passar por isso!

Desci alguns pontos depois e nem me despedi dos meus companheiros do dito 381. Não sei se a Marta realmente foi ao culto, ou se o Carlos conseguiu algum progresso em relação aos seus apelos à empresa rodoviária ou se a Dona Fátima chegou em casa bem. Mas sei que com tudo isso, pude perceber como as pessoas a minha volta são tão humanas e reais como eu. Não são apenas números ou rostos na multidão, mas humanos com afazeres, preocupações e dúvidas, assim como eu e você.

Talvez falte a todos nós um pouco mais de humanidade para entender a situação do outro e para perceber que, no final das contas, somos todos pessoas. Quem sabe, nesse mundo tão egoísta, olhar para o outro como um igual seja a única coisa que precisamos. Quem sabe uma simples viagem de ônibus cheio de pessoas e pensamentos filosóficos não seja o suficiente para isso.