Nov 4 · 1 min read
a criança que não tive
ficou perdida
na pasta de papéis
na assinatura de um contrato
na tomada da sala de espera
na janela que não abre mais
no lixo pelo chão da casa
no chão do box do banheiro
no meio da sala de reunião
no soluço que não foi
na palavra que não aparece
no estômago baço fígado
na cartela de remédios
não quis ficar -
perdeu-se nas páginas de meu livro
o quarto dos fundos e o da frente
boiou em minha xícara de chá
na água do escalda pé
comi-a em colheradas.
a espera de um nome,
como todo desejo,
a forma redonda de um desconforto:
ma mulher
nas pálpebras
uma mulher
na garganta:
mas a perda não se narra.
