Ela abriu a porta do prédio de cinco andares e logo o cheiro abafado lhe subiu pelas narinas. O ar frio daquela noite se misturou com o ar denso e úmido que vinha do lado de dentro e logo deixou de existir, como se tivesse sido pisado pela massa áspera que envolvia o prédio. Subiu os cinco andares de escadas quebradas e moles, cheia de livros pesados.
Deixava cair alguns, fazendo com que tivesse que voltar alguns degraus e esticasse a mão livre para buscar o livro rebelde. Abriu a porta já suada pela subida e foi envolvida pelo cheiro de sebo e jornal velho. O cubículo que morava tinha uma geladeira, um microondas, uma banheira, uma cama e uma escrivaninha que, manca, se apoiava em livros. O apartamento era um quadrado disfarçado de retângulo.
Apesar do seu tamanho, vestia uma enorme janela, do teto ao chão e, de lá, era possível ver as montanhas com seus lençóis brancos. De frente pra janela, a escrivaninha de madeira era ocupada por uma grande máquina de escrever e diversas folhas. Pintadas e brancas. Apesar de só caber ela no apartamento, teimava em levar reis, rainhas, feiticeiros, bruxas, deuses, viajantes, pessoas que se perderam, pessoas que se acharam. Em uma virada de folha, ela saia do meio das montanhas esbranquiçadas e pisava em areia quente, sentava em tronos de ouros, carregava varinhas e mochilas.
Ela viajava de norte a sul, de leste a oeste. Era capaz de dar a volta ao mundo sem se levantar da cama, que era uma fortaleza de edredons e travesseiros. Ela criava e se renovava. Se redescobria e cobria. Despertava pena alheia e até susurravam não ter nem onde cair dura. Ela susurrava de volta magias e estórias que só ela conhecia. Andava com a mente na lua e em Marte. Os pés em Plutão e até no sol ela pisou. Sem dizer nada ela engolia cada palavra, como se a vida dela dependesse disso. Desfrutava de cada verbo e se alimentava com cada estória.
Era pobre do que se podia enumerar. Acumulou tesouros que não se podia contar. Nunca convidou ninguém a conhecer seu cubículo. Mas fez questão de escrever suas entranhas e órgãos no papel branco com a ânsia de compartilhar com o mundo sua alma, seus prazeres, seus pecados e segredos.