Ele admirava o poder da memória nas pessoas. Quando decoravam de datas, eventos e detalhes, quando ele não lembrava nem que havia acontecido. Gostava de ver como a mente delas trabalhava incansavelmente lembrando de números e nomes quando ele podia ler o mesmo livro três vezes e sempre voltava a descobrir o final na última página.
Ele tinha duas, três cardenetas, uma caneta com a ponta comida e cabelos chamuscados pelo sol. Anotava informações importantes e rasbicava árvores com galhos infinitos.
Gostava de ouvir a mesma história várias e várias vezes, cada hora descobrindo um detalhe novo. É verdade que se irritava por seu pouco espaço para lembranças, mas resolveu selecionar o que cabia na caixa e anotar em folhas brancas o que podia ser esquecido.
Ele acordava com a lembrança do salgado do mar, do grude da areia, da sua prancha batendo nas ondas e do sorriso dela iluminando o sol. E isso bastava.