o que mais me incomoda em todo esse cenário é que eu não sou atriz, mas você é. eu não sigo um script que diz não só as falas que devo pronunciar, mas também as reações que hei de ter.

eu improviso sem saber como improvisar.

me perdoe por todas as cenas ruins e por me recusar a contracenar com você.

mas é que se você fosse atropelado, eu não gravaria o que fazer segundo aquele pedaço de papel, eu te ajudaria.

mas é que se você estivesse chorando, em prantos, gritando e tremendo no chão do banheiro porque a vida está muito difícil, eu te abraçaria, e não aumentaria o volume da TV para não escutar.

mas é que se você precisasse conversar com alguém, eu estaria ali toda sorridente e cheia de conselhos e oferecendo o ombro.

mas é que eu estou aqui mesmo sem estar presente e você não está aqui de forma alguma. a sua maior presença está nos meus documentos, e não nos momentos. e isso dói.

e dói e dói muito mas já doeu mais. fico feliz pela minha capacidade de superação em relação a você. são anos tentando.

meu último pensamento do dia é a pessoa que mais me faz sorrir, e não a que mais me fez chorar. minha última questão do dia não é sobre os meus erros, na tentativa de justificar o fato de você ter ido embora.

eu não te procuro mais. não vou atrás de fotos, redes sociais ou boletins de ocorrência. eu não ligo se você está trabalhando no rj ou em sp. eu não ligo mais para as empresas que encontro no google com o seu nome na área de funcionários.

eu não quero você. eu não quero as suas palavras rasas e mensagens sem sentido a cada semestre para saber se eu te chamo daquilo que você quer ser chamado ou se ainda falo o seu nome. fico triste de saber o seu nome.

quero chegar logo a idade das responsabilidades para ser responsável pela retirada do teu sobrenome da minha assinatura e as tuas marcas da minha certidão. porque nesse dia, ah, nesse dia você não vai mais poder me chamar de filha.

mas sabe o que é pior? eu não tenho raiva de você, eu tenho raiva de mim e da minha empatia e do meu coração e da minha moral porque eu sou melhor que você. porque eu não atuo.

pode rasgar todos esses papéis e pode parar de gastar sua voz pedindo desculpas e mais desculpas porque eu não te desculpo. pode entregar os seus troféus de atuação e pode também ir embora de vez. não ressurge querendo que eu te ame. amor a gente conquista, não é consequência de paternidade.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.