Brasil, impeachment e o povo.

Entendo que uma crise econômica e política, junta à tensão causada por problemas de epidemias e tensões externas, cria-se a necessidade coletiva de condenar alguma figura que supostamente representa toda a responsabilidade pelo problema e cuja condenação será o suficiente para que esses problemas se resolvam. Mas essa não é a verdade e também não é a solução.

As tensões sociais no Brasil não cresceram da noite para o dia. Ao tentar conciliar os setores da sociedade, o PT acabou cedendo demais e transformando negociações políticas em sim automático para a oposição, o que levou à sua queda de poder e de popularidade também (afinal, como confiar em um governo que cede a todos os pedidos da oposição com tentativas risórias de negociação?). Não quer dizer que nenhum avanço não tenha ocorrido, somos um dos países do BRICS que mais cresceu em termos de desenvolvimento social, mas isso também não significa que isso ocorreu pelas mãos de uma figura milagrosa, de um messias que é fruto da imaginação de uma coletividade que necessita um líder por não querer (ou não sabe como fazer, ou por qualquer outro motivo) tomar os próprios rumos de sua história.

A retirada de Dilma do governo sendo julgada por pessoas que estão respondendo a processos, sendo investigadas por crimes sobre os quais não há dúvida de sua ocorrência não é uma estratégia sensata. A crise econômica começou quando o governo escolheu entre aqueles que eram grandes demais para quebrar e aqueles que não fariam falta para o jogo de poder; o governo não é apenas o PT, é também seus aliados e sua oposição, e eles tomaram essa decisão juntos e escolheram, não pelo povo, mas pelos setores comandados por quem é “importante” (como se o povo não o fosse).

Gritar palavras de ordem, colocar religião no meio, apontar o dedo para uns (esquecendo da podridão do dedo que aponta) e tentar apropriar-se dos movimentos sociais para legitimar um discurso de ódio (“querida” é das mulheres e das LGBT+, não se aproprie, beijos) é uma estratégia baixa endorsada por uma mídia sedenta por ainda mais poder (em meio a essa crise, as empresas de telefonia buscam limitar um dos meios de comunicação mais eficientes da contemporaneidade, coincidentemente em tempo de militância social além dos limites de fronteiras territoriais, fora as notícias falsas, manipuladas e por aí vai).

Nós somos capazes de escrever a nossa própria história independente de um grupo que se mostra mais interessado em si mesmo/seu próprio lucro do que nas reais angústias, sonhos, capacidades e potenciais que nós possuímos quanto povo e quanto sere humanxs. Podemos tomar o nosso rumo, construir o nosso futuro nos pautando na equidade e na liberdade. Não precisamos deixar que eles decidam por nós (ainda mais considerando o quão criminosos, radicais e fanáticos estes que estão tomando essa decisão são); somos o povo, eles são os nossos representantes e devem considerar o que será melhor para nós: uma vida na qual os nossos direitos mais básicos não sejam um luxo para a maioria da população, onde tenhamos as oportunidades de sermos mais do que máquinas (re)produtivas e no qual as nossas ações conduzem a nossa história.

Mas isso não se dará em uma situação de joguete político.