Meus dias sem ti — parte 10

Tu poderia ter me ensinado que eu não sou especial de outra forma, mas essa surtiu efeito também. Eu achava que o que a gente tinha juntos, que a boniteza de nós dois, nos asseguraria muito tempo juntos. Achei que fôssemos especiais o bastante para que o universo nos ajudasse a seguir sendo especiais juntos. Mas não éramos. Eu não sou. Foda, pai. Foda.

Ando com a vontade de transformar a mãe em um bebê, pra poder coloca-la no meu colo, cuidar dela e ter certeza de que ela não sabe o que tá acontecendo para além do abraço. Queria que o mundo dela virasse um abraço meu e só.

Essa semana comprei flores pra ela, pai. Lembro tanto de te ver chegando tarde da noite, cansado depois da faculdade, com rosas nas mãos. Vocês já estavam juntos há uns 30 anos e tu ainda parava pra comprar rosas pra ela. Comprei girassois, pai. Ela também adora girassois. Escrevi um cartão pra dizer que ela é a flor de todos os meus dias, e que é por ela que os meus sóis vão sempre girar. Ela chorou, pai. Chorou muito. Eu abracei ela, disse que sei que nunca vou suprir a tua falta mas, mais uma vez, prometi que nunca vou deixa-la sozinha. Mais uma vez eu prometi que vou cuidar dela. E eu vou, pai. Pode deixar. Ela respirou fundo e me disse: vai passar, filha. Vai passar. Como a mãe é forte, pai. Puta merda.

Ontem, lembrando das tuas histórias, ela me disse que a gente deveria ter gravado, porque tu era, mesmo, uma figura. Eu não disse nada pra ela, mas eu sei que tenho todas bem marcadas na minha memória, que é igual à tua e não deixa nada desmoronar no esquecimento.

Tá difícil, pai. Queria que tu estivesse aqui. Mais que tudo — e acho que isso nunca vai passar.

Te amo, meu velhinho de merda.

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