abril, 16

Ana Blue
Ana Blue
Aug 23, 2017 · 2 min read

foi num dia dezesseis de abril, dezessete anos atrás, que eu vivi o meu primeiro término de namoro. quer dizer, uma tiragem de poucos meses, uns poucos exemplares de beijos em dias muito espaçados, que eu considerei o início de algo enorme, um romance promissor, bonito. mas não foi. não naquele momento. depois, até que viramos um grande amor. com direito a filho e casamento e tudo o mais, mas o amor de safra pura e pouco trauma pragmático que havia começado em meio as pipocas de mais um festival da nossa igreja, em fevereiro, terminou assim. nesta mesma igreja, este mesmo cenário insosso, numa festa de abril, em plenos dias de páscoa. géssica, eu quero morar em são paulo. ali eu entendi que amor também é uma questão de logística. racional. que existe um botão imaginário de eject, que deixa os amores em segundo plano em qualquer planejamento. era domingo, porque era dia de missa. se já não era páscoa, era domingo de ramos. sei lá, não sei justamente porque eu não lembro o que eu comi nesse dia. se eu lembrasse, saberia exatamente te dizer. fora que esses dias de páscoa variam conforme o carnaval. o que está absolutamente certo, no meu entendimento. primeiro a diversão, a festa da carne, primeiro o pecado, depois sim, a penitência. e toda aquela história de devoção às ladainhas, de jejum, de jesus morrendo no final, todo ano, no feriado. pra no domingo todo aquele esforço e calvário virar meros restos de bacalhau e um monte de chocolate. não lembro de chocolate nesse dia dezesseis de abril de dezessete anos atrás. devia ser domingo de ramos. há dezessete anos eu descobria que sentimento é coisa que se liga e desliga. e que, forçosamente, a gente tem que desligar, mesmo quando quer continuar ligado. o triste é o coração morrer um pouco, como jesus, todo ano, devotamente acorrentado nos términos, nos homens que decidem desligar. e ir embora. virando cinzas de mais um carnaval mal vivido. virando sexta daquela paixão doída. virando um monte de chocolate no domingo. o triste, amigo, é ter nascido sem o maldito botão. mesmo que ele fosse só imaginário.

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