amar-amando
há um velho ditado que diz que nenhuma relação é forte o bastante se as pessoas ainda não tiverem comido um quilo de sal juntas.
hoje eu entendi o ditado preparando um omelete para três.
depois de uma pitada de sal nos três ovos batidos à minha frente, peguei a caixa de temperos em cima da geladeira: orégano? curry? louro em pó, tempero misto?
tempero escolhido, omelete pronto, frito, colorido, comemos entre os carinhos e gargalhadas de sempre, o apoio mútuo, o reconhecimento de área que só entende quem tem — e é, obviamente — parceiro do tipo ‘seja lá o que for, eu tô contigo’.
fico triste só de lembrar que tem gente que vive uma vida inteira e não sabe o que é ter isso. o que é ser isso.
sal é negócio engraçado, porque se usa pouco, mas se usa todo dia um pouco. é costumeiro, rotineiro, diário — mas todo dia, um pouco. muito faz até mal.
aquele omelete recebeu o mesmo pouco de sal que as nossas batatas-fritas de outros carnavais, caldinhos de outros festivais, de outros apoios mútuos em forma de riso, fumaça e alimento.
o sal, tal qual o amor, é comunhão.
muito sal usado ao mesmo tempo pode até dar gosto bom — pra quem é chegado em constipação.
imagina, então, de pitada em pitada, acabar com um quilo inteiro de sal. leva tempo, leva cozimento, leva noites de união em volta de um prato, de uma mesa, de uma ocasião.
o amor, tal qual o sal, é comunhão.
é noite e mais noite em volta de fogão, de café passando no filtro, de combinar quem sai dessa vez pra comprar o pão. o amor é costume, o amor é o cuidado, o amor se mostra quando a gente cuida até de quem já está dormindo.
a paixão vê um corpo coberto e deseja despi-lo.
o amor vê o corpo despido, a alma nua, a carne sangrando.
e só deseja cuidá-lo, um pouco.
todo dia um pouco.
esquentar, temperar um pouco.
o amor é dose diária
o amor, meu amor, é contínuo
