meio-dia em bali

às vezes encosto a minha cabeça no vidro da janela do ônibus do cordoeira e vejo passar as ruas, os sinais de trânsito, as crianças correndo atrás das pipas ou fazendo barquinhos de papel; são quadros eternizados nessa minha massa cinzenta, são como filmes passando ininterruptamente numa tela dentro do meu cérebro.

essa não sou a eu de agora, viajando pelas praias de bali. eu vejo meu presente como um passado distante. eu não sou esta que sente fome, que come três barras de snickers num único dia, que soma na calculadora do celular o valor das contas de luz, de água, o preço do arroz e da batata-baroa. eu não sou essa que só compra roupas funcionais e sapatos de saltos baixos. que volta pra casa de ônibus. o meu verdadeiro eu de agora está comendo camarões graúdos em bali.

às vezes entro no chuveiro decorando as respostas que darei para o jô soares. curtas, mas firmes. bochechas coradas, mas olhos atentos; um aperto de mão forte e cabelos impecavelmente amarrados num rabo de cavalo. jô ri desse meu humor que não costuma fazer sucesso nas festinhas de natal. ele descobriu que sou fã de veríssimo e diz ter uma surpresa: “willem, solta o vídeo”. é veríssimo, me desejando sorte e autografando para mim seu novo livro. essa sou eu, sentada na poltrona confortável de jô soares. autografo dois livros — sim, meu verdadeiro eu de agora também tem livros escritos — , entrego-os ao gordo. um para ele, um para veríssimo, que reconhecerá nos meus textos palavras que ele próprio diria nos seus. essa sou eu, ostentando na poltrona de jô soares o bronzeado que ganhei nas praias de bali.

quase esqueço que preciso tirar o seda ceramidas da cabeça e descer correndo para chegar ao trabalho. de ônibus.

na maior parte do tempo, não sei diferenciar o que é ter sonhos e o que é ter fé. não lembro sequer de um dia na minha vida em que não tenha me imaginado diferente do presente, esse indesejado das gentes. com mais dinheiro e mais magra. estou andando de trenó pelo alasca, mas numa piscada de olhos estou colhendo tulipas para amanda em amsterdã. não é inconformismo com a vida que tenho: é querer ser a melhor versão de mim, viver a plenitude de mim. esse quadro de agora — eu, sentada aqui, na minha grande mesa azul, entre henrique e joão, escrevendo mais uma crônica, para mais um light — já foi meu presente antes. vivi isso tudo ainda na oitava série, fazendo testes vocacionais com tatiana quando estudávamos no dermeval. o professor pediu-nos que pensasse o que seríamos no futuro. e eu pensei: no futuro, estarei sentada numa grande mesa azul, publicando meus textos pelos jornais da cidade. hoje, aqui, trabalhando, nada parece novidade. já vivi isso muitas vezes com a cabeça colada nos vidros das janelas dos ônibus. meu presente é quase como um passado distante, como disse. aliás, tenho que lembrar de contar isso ao jô soares.

tenho medo de mar, pois não aprendi a nadar. em moju, interior do pará, aos doze anos de idade, meu pai quis que eu aprendesse, mas não consegui me soltar pela água. eu sei que preciso aprender, porque, de alguma forma, essa roupa que visto, essa caneta com a qual escrevo, essa bala de mel guardada na minha segunda gaveta são só cenários, são momentos de que me lembrarei no futuro, quando já não estiver como hoje, 15 quilos acima do peso e muitos reais a menos na carteira. o meu eu de agora nada de braços dados com a vida nas águas de bali.

não haverá tsunamis nesses dias.

no fundo, talvez sonhar e ter fé sejam a mesma coisa. penso tanto em como aproveitar a minha vida que nunca parei para pensar o que será de mim depois da morte, depois do fim. penso muito mais em como escrever o livro que me tirará do anonimato, das vacas magras e da cozinha sem azulejos.

tal criança, sigo colocando meus barquinhos de papel na correnteza, espalho meus textos pela cidade. mas dentro do peito, com a força de um milhão de vozes, me pergunto: deus dará?

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