eu tô ótima
me ligou. depois de oitenta e quatro dias me ligou. os primeiros trinta eu chorando inconformada mais uns quinze xingando pra caramba e os seguintes me reconstruindo e bebendo e comendo me reconstruindo e comendo e dormindo. eu tava cochilando. quase morri de susto. até a voz graças a deus eu já tinha esquecido. não lembrava de ter voz tão sonsa. antes eram borboletas agora eram engulhos. me ligou no telefone fixo. um número que ele nem tinha. falou qualquer coisa sobre estar com saudades e perguntou se eu estava bem. olhei em volta. os quinze objetos mais próximos de mim eram um isqueiro roxo um pacote de biscoito meio cheio de piraquê de limão um baseado pilado com o dedo um vidrinho de cataflan uma lata vazia de fanta uva um trento do vermelho que eu nem gosto uma caneta azul um caderno um livro de khalil gibran aquela bolsa preta da robertinha meu celular desligado uma caixa de lenços kleenex um tampico pela metade um cebolitos fechado um controle remoto.
- eu tô ótima.
e desliguei.
