os burocráticos

Ana Blue
Ana Blue
Aug 25, 2017 · 1 min read

o cara mora na avenida, 45, 50 anos no máximo, às vezes passa com a mulher, às vezes não, mas sempre passa olhando pra mim, dentro do meu olho. quanto mais deplorável meu estado, na aparência, no corpo e no espírito, zumbi de dia, vampira de noite, transtornos mentais aparentes de dia e de noite, mais ele me olha, no fundo do olho. mas não chega a ser assédio, tesão, interesse, o contrário: de primeira pensei até que fosse julgamento. porque quando ele passa com a mulher estão sempre com enormes bolsas cheias de frutas gordas e folhas verdes. são daqueles casais saudáveis. que comem a beterraba até o talo, com gosto como se fosse um bifão suculento. que acorda cedo pra caminhar, que tem uma cachorra idosa cega chamada mel, um filho que cursou odontologia na fonf. tudo neles em muito contrasta com meus olhos borrados de rímel de farmácia, meus olhos mal dormidos, meus olhos perversos e eternamente vermelhos e tristes. toda aquela rúcula contrasta com as minhas batatas ruffles sensações sabor frango grelhado, contrasta com a lata de coca.

mas hoje ele estava sozinho na avenida. ele e a cachorra cega. um puta baseadão mal disfarçado na mão esquerda, um chokito na mão direita. no rosto uma expressão feliz, embora claramente de saco cheio da canina velha, mísero estratagema para aquela alforria rápida noturna na avenida. aí eu entendi todos os olhares de antes. todos um grito de socorro.

salvo pelas funções intestinais da cachorra, pensei, enquanto ele chupava o baseado longamente, sem nem me ver passar

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