salto agulha bico fino
é quase de manhã e eu ainda não dormi. e nem lembro muito bem a última vez. eu nem sei ao certo se hoje é hoje ou ontem. um absurdo já estarmos em agosto se eu nem me curei das dores de maio. as crianças estão nascendo com cérebro pequeno. os adultos têm cérebro grande mas não usam. meu braço direito está doendo de tanto arrancar o cabelo. acendo um cigarro no outro só pra ter com quem conversar. não, doutor, eu não sei explicar onde dói. dói nessa região inteira que se chama eu. eu queria não me deixar envolver pelos problemas mas os problemas são sempre tão cheirosos. vou precisar de um café pra acordar. ou três ou setenta e cinco. cafuné é tão raro. uma sucessão de camisas criativas e papos descolados vão embora. só a dor de dente é eterna. às vezes a sala parece um labirinto. tenho saudade do que nunca existiu, como apaixonar-se por personagem de novela. mamãe não vem. cada dia mais comprimido e menos água pra fazer descer. a placa diz bem claro: é proibido pisar na grama. eu piso com cuidado pra não ferir ninguém mas quando chega a minha vez, é salto quinze agulha, bico fino. tudo bem. só dói quando eu respiro
