tanta insônia

Ana Blue
Ana Blue
Aug 25, 2017 · 2 min read

sou órfã declarada dos chats do terra, porque a solidão noturna me acompanha há tempos. não sei se é uma escolha ou uma coincidência. começou muito cedo, enquanto eu varava as madrugadas esperando meu pai chegar das viagens. quantas vezes na minha vida já fingi que estava dormindo, pra ver se dormia. depois, a internet. quantas vezes esperei dar meia-noite porque pagava um pulso só. depois mamãe, muito doente. e só. muito só. talvez hoje minha ideia de família seja tão torta por conta da solidão desse abandono. daí que casei criança ainda. e nós, cônjuges adolescentes, éramos tão distantes. eu era tão de esquerda, tão rebelde e tão metida a artista. tão jovem pra ser esposa, ainda mais de garçom. eu não queria saber de números, nem de ter marido só de madrugada. eu queria teatro, festa, praça, cinema. mão dada. assistir filme na televisão. jovem demais pra ser mãe, pra ser órfã, pra ser separada. e pra desacreditar. só que fui tudo isso junto em menos de dois anos. o que me salvava da loucura era o chat do terra. de literatura. lá eu conheci mais sobre poesia e cinismo. conheci gentes de muitas partes, muitos literatos e alguns bem mentirosos, muitos abismos. mas cada dia, um aprendizado. cada dia um sotaque diferente, um assunto. cada dia um machado, um allan poe, um christian grey que fosse. mas sempre havia alguém lá. nesse grupo, fiz alguns poucos e bons amigos e os sinto sempre por perto, comigo, mesmo sem conhecer nenhum. porque eles também eram madrugadas eternas. “éramos outros”, me disse dario agora. éramos, sim. os amigos virtuais e os reais nunca eram as mesmas pessoas. agora são. haja imaginação pra lidar com tanta falta, tanta insônia

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