tramontinas

Ana Blue
Ana Blue
Aug 23, 2017 · 2 min read

cansaço. esgotamento. parece tanto tempo atrás. faltava luz aqui dentro. eu estava cansada e mesmo tão tarde as luzes estavam todas acesas. muito lixo pra recolher. muitos e muitos pratos copos louças canecas talheres que eu nem sequer lembrava que tinha, sujos ali, o dia inteiro, mesmo tendo marido antes de mim dentro de casa. talvez àquela hora eu já tivesse batido as portas dos armários, gritado com os móveis, pisado forte no assoalho. talvez eu já tivesse quebrado um ou dois duralex e botado as crianças de castigo. mas era só cansaço. tão vivo que extrapolou os limites da minha pele e se tornava gesto chute soco raiva contra as tramontinas. às vezes eu jogava o prato na pia porque não queria ter que lavá-lo de novo, mas como explicar isso pra homem criado a almoço bem nutrido pelas vós, pelas tias, pela mãe que não ensina o menino a ser homem? pois mais uma vez eu perdi o sono e a civilidade. se queria gritar, eu gritava, se eu queria quebrar, eu quebrava. quebrava o que eu mesma tinha comprado, quebrava o que nem havia pago ainda, talvez ainda tivesse um monte de prestação. mas ainda preferia quebrar a louça a quebrar a cara. a cara dele. a minha cara. qualquer cara. aí, de repente, acendeu a luz da casa vizinha. por trás da cortina de chita, um olhar assustado. eu a havia acordado. o cansaço extrapolou os limites da minha pele e da minha casa. esse olhar, da pobre acordada, assustada, por trás das cortinas de gosto duvidoso, eu nunca esqueci. meu cansaço nunca fez acordar os homens. só quebrou os pratos. e acordou os vizinhos.

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