um pote de memórias
doce de leite pastoso, um vício escroto, um vício triste. meto a colher uma, duas, três vezes no pote, absorta. chupo lentamente a colher, fazendo bicos e tudo, de modo que o doce forma um pequeno bolo em cima, um bolo redondo, lambido pelo céu da boca. tem graça assim, comer devagar, sentindo bem o sabor. criança, era obrigada a comer depressa. meu vício em doce de leite pastoso me levou a crimes. a assaltar muitas vezes a geladeira da rose, com a colher em punho. e enfiar o produto roubado todo de uma só vez na boca. pobre rose, que morreu dando a luz ao terceiro filho. tia nelma levava as sobremesas todas da filó pra gente, um bando de criança esfomeada, eu lembro. comia rápido, pra ninguém tirar o que era meu. eu tenho pressa do gosto. enfio a colher no pote, terceira, quarta vez. doce de leite pastoso é um pote de memórias.
