verde pétala

a vida da gente é como uma viagem em linha reta e velocidade constante, mas sabe como é: tem gente que simplesmente não aprende a dirigir. nem todo quebra-mola tem a faixa amarela gritando. merdas acontecem. é preciso estar atento. uma freada brusca e lá vai seu nariz beijar o volante.

a vida da gente tem tudo para ser tranquila, mas a gente mesmo não deixa. um exemplo: a gente come biscoito recheado. bebe refrigerante. fuma free, não faz exercício físico. quer o quê? acordar tinindo aos 40? eu mesma, sou uma idosa de quase trinta, só vou pra casa de ônibus. verde? só na jujuba. peguei aquela máxima do poetinha (“não comerei da alface a verde pétala/nem da cenoura as hóstias desbotadas”) e levei de mantra para a vida. algo que não me envergonhou aos 18 anos. ou antes ainda, aos 16, quando adotei um ritual dantesco logo após o nascimento do meu filho mais velho: chupava dois pirulitos de açúcar queimado e comia quatro paçoquitas todos os dias. era o meu remédio. depois me viciei no pão doce da pão e tradição. eu morava no belmonte, ia andando até o prado só para comprar pão doce. todas as terças, como até já mencionei num outro texto, tia darcy trazia um pacote de biscoito recheado da bauducco e dois bifes para mim. isso era a felicidade. quem acha vulgar falar de comida é porque já comeu.

agora, me diz. como é que eu vou crescer e chegar aos 30 e entender num click que a minha felicidade está toda errada? que depois de certa idade a gente chega mesmo a passar vergonha com os gostos alimentares nada sadios? a gente tem tudo para ser precavido, mas não é. quer dizer, tem gente que é. mas eu não. eu sou um símio kenyapithecus no quesito evolução da espécie perto deles. enquanto eles cozinham legumes, eu sou um macaco coçando a cabeça e comendo lasanha congelada. e em tudo na vida eu sou essa macaca involuída: na alimentação, nas horas de sono, na conta do banco. a minha linha reta de vida virou montanha-russa, eu saí do controle e devo estar com níveis alarmantes de possibilidade de doenças no organismo. posso mesmo chamar isso de acidente? todo dia eu me prometo malhar ou fazer zumba, mas não cumpro nunca. continuo comendo açúcar como se não houvesse amanhã. e engolindo seco a vergonha. ou pior: com refrigerante.

este relato calhou de servir de mau exemplo, mas na verdade esbocei esse texto há umas duas semanas, quando tive praticamente um episódio de ódio da indústria de material de limpeza. eu não consigo entender por que o saco plástico para lixeira tem sua capacidade medida em litros. não entendo. alguém joga “litros” de lixo fora? alguém produz só lixo líquido? não dá pra entender, não. este saco tem que dizer quantos quilos de lixo ele aguenta, mas se ele dissesse a verdade, que vai arrebentar no meio da escada da vizinhança porque não aguenta nada, ninguém compraria. eis que aconteceu comigo: o saco de lixo arrebentou, no meio da escada, revelando meus pertences mais sórdidos aos vizinhos: pacotes e mais pacotes de batatinha-frita, embalagens de chocolate e cheetos, muitos cheetos. eu catei cada indivíduo daquele lixo humilhada, a macaca, na imundície do pátio.

o único bem que fiz para a humanidade foi não transferir o legado da minha miséria para as crianças. eles, no geral, se alimentam bem. cozinho, compro frutinha, controlo o açúcar. mas continuo enterrando chocolates pelas gavetas pra eu comer depois. é a minha droga. cortei refrigerante este ano, mas de vez em quando ainda “me dou ao direito”. nos períodos de briga conjugal, na tpm. ou no churrasco. não dá pra comer picanha tomando suquinho de manga, tem que ser coca-cola. e tem churrasco na deise, sábado. segue um humilde pedido, via crônica: “por favor, faz cuscuz de novo”. a desculpa perfeita para comer leite condensado sem restrições.

é, eu sou mesmo incorrigível. não evoluí como vocês, não. não amadureci, sou verde. sou órfã, pobre, asmática, me falta cabelo: tragédias demais. me deixem, ao menos, comer em paz. “e eu morrerei feliz, do coração/de ter vivido sem comer em vão”.

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