Newsgeist Latam: anotações de um espírito de tempo no Jornalismo contemporâneo

Neste fim de semana aconteceu o 1º #Newsgeist Latam, promovido pelo Google, em parceria com o Knight Foundation, na FAAP, aqui em SP. Foram mais de 150 jornalistas e desenvolvedores reunidos num esquema “barcamp” e, ao menos para mim, o evento cumpriu com sua missão, de evidenciar o “espírito do tempo” atual no Jornalismo.

O cenário, no entanto, é desalentador. A maior parte dos temas propostos discutia modelos de negócio, algo que vejo acontecer em eventos desse tipo há mais de 10 anos. Mesmo as rodas de discussão que prometiam discussões diferentes, como “inovação em notícias” ou “day after da morte da mídia tradicional”, acabavam no bate-cabeça dos modelos de negócio. Uma discussão estéril quando vem desacompanhada da discussão sobre relevância. Mas não encontrei muita gente a questionar a essência dos conteúdos.


O que há de novo não é bem “novo”…

O máximo que ouvi de questionamentos à qualidade do conteúdo foi referente a formatos e plataformas. O Jornalismo deve ser multiplataforma. Os chat bots do Infobae prometem “conversar” com os usuários por instant messengers. Os vídeos tendem a atrair mais a atenção do público do que os textos. As notícias precisam estar bem tagueadas para serem melhor distribuídas pelos buscadores. A Internet das Coisas é o próximo campo a ser explorado para trabalhar notícias. Os textos no mobile não precisam ser curtos. E outros dejá vu que orbitam ao redor de um assunto que quase ninguém quer falar: o interesse do público por notícias.

As grandes empresas de Comunicação dão a qualidade do conteúdo que produzem como algo óbvio, evidente, acima de qualquer suspeita. Digamos que elas tenham razão. O conteúdo até pode ser bom. Mas ele é necessário? Poderia perguntar se esse produto é interessante às pessoas, mas o interesse é uma decorrência natural da necessidade. Apesar disso, a preocupação atual dos publishers parece se bastar em fazer algo que eles próprios julguem “interessante”.

Jornalismo Netflix

Vejamos: Netflix é interessante, mas não é necessário. No entanto há uma quantidade considerável de pessoas pagando por ele. Se o conteúdo dos grandes meios também é interessante, por que o público não paga para consumí-lo? Porque Jornalismo não produz serotonina. Enquanto a ficção gera prazer, a realidade precisa suprir alguma necessidade do indivíduo. São códigos do ser humano completamente diferentes que se acionam no consumo de filmes, séries, de música (para pensar no sucesso do Spotify) e do noticiário.

Não é preciso ser psicólogo ou antropólogo para saber que as pessoas pagam para se divertir. Nós pagamos para ir ao cinema, à partida de futebol, ao teatro, ao parque de diversões, à balada e até topamos pagar um pouquinho mais para comer uma comida diferentona num restaurante descolado. Se é para matar a fome com arroz e feijão, não faz sentido gourmetizar a conta.

Agora vejamos o Jornalismo: qual o prazer que as notícias geram? Me refiro à sensação de exaltação, de felicidade, de celebração que mexe com a química do cérebro. Zero. Desconfiaria de alguém que sentisse qualquer coisa parecida com alegria ao ler sobre a agenda política, os desastres ao redor do mundo, bizarrices ou escândalos com personalidades. Nós aceitamos pagar por algo, desde que ele nos proporcione ao menos uma destas contrapartidas: prazer e utilidade aplicável.

~ Nós não vamos pagar nada ~

É por isso que preciso discordar do colega que sentenciou: “ou o público vai manter as operações de imprensa, ou ninguém vai mantê-las, no longo prazo”. É por isso que vejo vida curta para empreendimentos como o GoRead, da Abril. Porque ainda há tomadores de decisão que estimam o comportamento da massa segundo a sua própria régua para medir o mundo.

Pela Abril, o leitor médio talvez não pagaria R$ 22 por uma revista, mas se fossem por mais de 100 revistas, bom, aí veria vantagem. Esta seria a justificativa de aceitação comercial do GoRead, porque realmente acredito que publishers pagariam até mais que R$ 22 por várias revistas online. O problema é que já não se pode limitar a decisão de compra do público por uma questão de quantidade. Não é porque a assinatura me dá direito a 100 revistas que eu irei fazê-la! Se UMA dessas revistas me trouxer o conteúdo mais necessário e fundamental para o meu estar-no-mundo — a minha vida, não a vida de quem a produz — pago por ela. Feliz. Se e somente se NINGUÉM mais trouxer um conteúdo tão importante gratuitamente — o que, vamos combinar, é cada vez mais improvável.

A sociedade mudou. Por que o Jornalismo não muda?

Também ouvi no sábado que a função do Jornalismo é formar cidadãos criticamente independentes. E cada vez que ouço isso penso no motorista do 715M–10, que pego pra ir pro trabalho, penso na moça que trabalha 8 horas por dia sem sentar, vendendo roupa nas lojinhas da Brigadeiro. Penso no cirurgião que não para de estudar e ir a congressos para atender melhor a seus pacientes. Penso na mãe de 3 filhos que foi deixada pelo marido, no jardineiro que oferece seus serviços de porta em porta, na funkeira, no camelô da 25 de Março… Cidadãos criticamente independentes… Sério isso? Sério que a maioria da população vai se preocupar em ser criticamente independente antes de resolver os problemas mais imediatos da sua vida? Entendem o que digo por “utilidade aplicável” como assuntos que tornam o Jornalismo algo necessário?

A viabilidade do Jornalismo é mais uma questão de prioridade, para não dizer de sobrevivência. O modelo de negócio deve ser consequência natural de um Jornalismo fundamental. Enquanto isso, vejo muitos colegas se debruçando na ponta final do problema, que é de onde tirar dinheiro para financiar uma operação… que não faz mais sentido! Nenhum modelo de negócio é capaz de sustentar um produto desnecessário, irrelevante.

Tudo se torna mais difícil quando não se reconhece a irrelevância daquilo que se faz. E o conteúdo do Jornalismo se tornou incrivelmente irrelevante para o ser humano do século XXI. Não duvido que esse conteúdo fosse importante para a sociedade pré-Internet. Mas atualmente, o conteúdo noticioso já não faz o menor sentido. Algumas razões:

  • Migramos da era da escassez para a era da abundância: se antes o jornalista era o indivíduo privilegiado com acesso a informações exclusivas de assessorias de imprensa e autoridades, hoje todas elas têm Twitter e estão expostas ao contato direto do público.
  • Deixamos uma era em que tínhamos que nos condicionar à oferta limitada de informações em grades de tempo e espaço (canais) para mergulhar na era da demanda informativa, cruzada pela pirataria indomável.
  • O momento é de autocomunicação (Castells), ou seja, nossas necessidades informativas tendem a ser saciadas mais pelos nossos pares do que por instituições que já não representam ninguém.

E agora? — o niilismo bate à porta

Foi alentador ouvir um colega constatar, no debate sobre a emergência de métricas qualitativas, que é preciso dar dois passos para trás e perguntarmos “para que serve o Jornalismo?”. Vamos falar disso, gente, antes de modelos de negócio. Senão seguiremos caminhando em círculos, batendo cabeças como bisões cegos.

Para além do grupo preocupado — e pressionado — em buscar novos modelos de negócio, encontrei um número impressionante de colegas se perguntando: “o Jornalismo vai acabar?” Esse foi um traço importante do Newsgeist: finalmente estamos perdendo o medo de falar sobre a nossa morte, tal como aprendemos a ser. E como um paciente psiquiátrico, o Jornalismo precisa, primeiro, reconhecer que está doente para então se tratar. Não basta fazer mil tratamentos com remédios errados. Isso jamais fará efeito. Ao contrário: pode acelerar o seu fim.

Menos pirotecnia. Mais utilidade.

Finalmente encontrei quem tivesse coragem de dizer que é muito difícil de o público consumir essas pirotecnias que se faz com o Jornalismo. Ok, podemos fazer grandes reportagens multimídia, com realidade virtual, infográficos animados etc. Mas “quase ninguém consome”! Outro dia vi que a venda de tablets caiu 32% no Brasil. E pensar que há menos de 5 anos imperava o discurso de que essa seria a tecnologia capaz de salvar o mercado impresso… Quanto foi investido? Quanta gente dedicou tempo e esforço para se “especializar” numa coisa de fracasso tão previsível? Não era só eu que não via sentido em pagar pelo que circulava no mercado de tablets. Não era só eu que não tinha coragem de andar com o iPad no ônibus. Não era só eu que achava aquilo um trambolho como ferramenta de produção de conteúdo.

Pay-wall: errar todo mundo erra, já insistir no erro…

Longe de ser pessimista com a tecnologia no Jornalismo — ao contrário! -, defendo uma visão pé-no-chão de tudo o que parece incrível demais. Experimentar é lindo, quando se tem margem de erro — coisa que a maior parte dos veículos já não tem faz tempo. Porém, há algo pior que não experimentar: errar e insistir no erro. Assim enxergo outro traço importante da discussão que parece marcar o “espírito do tempo” do Jornalismo no Brasil: o pay-wall.

Sob a justificativa de que “está dando certo no New York Times, então vai dar certo aqui”, muitos — mas muitos! — embarcam na fragilidade de um argumento sem qualquer contextualização cultural. Vamos às obviedades que ninguém parece querer ver:

* Norteamericano se comporta de outra forma que o brasileiro.

* A situação econômica dos Estados Unidos é diferente do cenário no Brasil.

* O New York Times produz conteúdos e serviços diferentes e investe em tecnologia experimental de uma maneira absolutamente desconectada ao que se vê por aqui.

O “eu pagaria”, dito pelos publishers e altos executivos de grandes veículos brasileiros, não diz absolutamente nada sobre a sustentabilidade dos pay-walls a longo prazo. Esse é o problema de fazer Jornalismo pro espelho: se toma um critério particular como geral; balizamos o comportamento de todo um mercado pelo nosso próprio comportamento. Mas esse é um erro tão, tão primário que já se tornou absolutamente inaceitável! Quem precisará dizer aos profissionais da mídia que pertencemos a uma elite intelectual que reconhece o valor de uma informação de qualidade? Quem precisará dizer a eles que são minoria e que as necessidades da população não tem nada a ver com o que lhes parece importante a ponto de pagar por isso?

Além disso, pay-wall se inscreve na lógica da assinatura, que já não dava mais certo no meio offline. Além do além disso, pay-wall já deu errado noutros tempos, por conta da cultura da gratuidade e da pirataria que, nos últimos anos, aliás, só aumentou! Quem vai pagar pelo conteúdo perfeito que você ~acha~ que produz e que se pode encontrar gratuitamente no submundo da Internet? Você? Seus amigos do Country Club? Ah…

O pior cego é o que não quer ver

Um colega da Espanha propôs uma mesa sobre “o day after da morte da mídia tradicional”. Participaram apenas 8 pessoas. Isso demonstra o quanto nossa comunidade ainda nega o próprio estado terminal. No fim, ele queria — de novo! — discutir modelos de negócio para o Jornalismo de sempre. Mas no dia anterior, alguém propôs uma mesa sobre Jornalismo hiperlocal, onde não foi absolutamente ninguém. Esses dois exemplos falam demais sobre o desinteresse que a comunidade de jornalistas tem em relação ao que pode ser o real problema e um possível germe da solução.

Tanto admitir que o fim do Jornalismo do jeito que conhecemos está próximo quanto cogitar uma mudança de base nas nossas rotinas de produção são exercícios dolorosos e não trazem respostas imediatas. Mas é PRECISO passar por eles para chegar nas respostas e não apenas passar verniz na madeira podre. Enquanto muitos colegas se encantam com o brilho do verniz dos modelos de negócio, prefiro sujar as mãos e cavar no bolor para trocar os barrotes dos critérios de noticiabilidade. Não é uma tarefa glamourosa nem simpática. Não tem editais para bancar as contas e nem grana de investidor internacional. Mas ou a gente encara o problema do Jornalismo pelas suas bases — e elas estão no sujeito social do século XXI -, ou ele morrerá vítima do próprio ego. Quem topa?!

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